segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Cristo Rei - Um Sermão por Sua Graça

 Cristo Rei - Um Sermão por Sua Graça

Retirado do site SSPXAsia.com - Traduzido por Jordan Rodrigues

O Arcebispo Lefebvre pregou este sermão em 28 de outubro de 1979, a Festa de Cristo Rei. Ele fornece um lembrete pertinente aos católicos tradicionais de que suas vidas devem ser motivadas por um profundo amor por Nosso Senhor Jesus Cristo e um esforço sincero para fazer Sua vontade. Viver pelos preceitos expostos pelo Arcebispo neste sermão é o meio mais eficaz pelo qual os católicos tradicionais podem evitar o perigo de cisma contra o qual o Professor Salleron alertou no capítulo anterior. Um movimento que não se define pelo que é a favor, mas pelo que é contra, não pode ter dimensão espiritual. Ele inevitavelmente degenerará em uma minoria introvertida, amarga e em declínio. "Nossos corações estão realmente apegados a Nosso Senhor Jesus Cristo?" pergunta o Arcebispo. "Estamos conscientes de que Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso TUDO – Omnia in omnibus ? Jesus Cristo é tudo e em todas as coisas." O texto completo do sermão do Arcebispo segue:

Cristo Rei

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Meus queridos irmãos,

Na magnífica Encíclica Quas Primas de Sua Santidade o Papa Pio XI, instituindo a Festa de Cristo Rei, o Papa explica por que Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente Rei, e ele dá duas razões particulares e profundas. Há de fato muitas provas bíblicas. Acabamos de ler o Evangelho em que Nosso Senhor Jesus Cristo se proclama Rei. Há muitas passagens dos Salmos e do Novo Testamento que expressam essa mesma qualidade de Nosso Senhor Jesus Cristo como Rei. Mas Sua Santidade Pio XI se preocupa em aprofundar nosso conhecimento das razões dessa realeza.

A primeira razão é o que a Igreja chama de "união hipostática", a união da Pessoa Divina de Nosso Senhor com Sua natureza humana. Nosso Senhor é Rei porque Ele é Deus. De fato, não há duas pessoas em Nosso Senhor, não há uma Pessoa Divina e uma pessoa humana. Há apenas uma pessoa - a Pessoa Divina que assumiu diretamente uma alma humana e um corpo humano sem passar pelo intermediário de uma pessoa humana. Consequentemente, quando falamos de Jesus Cristo, dizemos a Pessoa de Jesus Cristo. Agora, esta pessoa de Jesus é uma Pessoa Divina. Certamente, Jesus Cristo é Deus e homem, pois Ele assumiu uma alma humana e um corpo humano. Assim, a alma humana e o corpo humano de Nosso Senhor Jesus Cristo tornaram-se tão intimamente unidos a Deus que não podem ser separados. É a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo que é inteiramente Divina, e por Sua Pessoa, Seu Corpo e Alma são "deificados".

Assim, Nosso Senhor Jesus Cristo, como Ele se apresentou ao longo das estradas da Palestina, e mesmo como Ele se apresentou como uma criança em Belém, é Rei. Ele não só possui o caráter desta realeza, mas também a Igreja ensina que por esta união de Deus com a natureza humana, com uma alma e com um corpo, que Ele assumiu, Nosso Senhor Jesus Cristo é essencialmente, por natureza – Salvador, Sacerdote e Rei. Ele não pode ser senão Salvador, pois somente Ele pode dizer que é Deus. Somente Ele é capaz de dizer que é o Sacerdote, o Pontífice – Aquele que verdadeiramente faz a ligação entre o céu e a terra – e também somente Ele é capaz de dizer que é o Rei. Ele não é rei de acordo com os reinados deste mundo, isto é, sobre um determinado território e limitado à terra, aos homens. De fato, Nosso Senhor é Rei não apenas da terra, mas também do céu. Esta é a primeira razão profunda para a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, e disto devemos estar convencidos para ver Nosso Senhor como Rei, nosso Rei pessoal. Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso Rei.

Mas Ele é Rei por outra razão também. O Papa Pio XI explica perceptivamente que Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei por conquista. Por qual conquista?

É porque Nosso Senhor Jesus Cristo conquistou tudo pelo Seu Sangue, pela Sua Cruz e pelo Calvário. Regnavit a ligno Deus, Deus reinou da madeira, ou seja, da Cruz, Nosso Senhor conquistou todas as almas, quem quer que sejam, por direito – um direito estrito. Todas as almas, uma vez que são criadas por Deus, mesmo que vivam apenas por um momento aqui na terra, são, por direito, súditos de Nosso Senhor Jesus Cristo porque Ele as conquistou pelo Seu Sangue. Ele quer salvá-las. Ele deseja redimi-las todas pelo Seu Sangue, Seu Sangue Divino, a fim de levá-las ao céu. Sim, Nosso Senhor, pelo Seu Precioso Sangue e pela Sua Cruz, é por direito Nosso Rei. Esta é a razão pela qual nos primeiros séculos após a paz de Constantino, quando os cristãos foram oficialmente capazes de apresentar a Cruz em suas igrejas, em suas capelas e em outros locais de culto, eles geralmente representavam Nosso Senhor Jesus Cristo como um Rei coroado; coroado com a coroa dos reis. Cristo é certamente nosso Rei e Ele é Rei por Sua Cruz.

Devemos então considerar os princípios desta natureza de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei desta conquista que Jesus fez sobre nossos corações e nossas almas por Sua morte na Cruz. Nosso Senhor Jesus Cristo é diariamente na prática, em todas as nossas ações, em todos os nossos pensamentos, verdadeiramente nosso Rei? O Papa Pio XI continua em sua encíclica a descrever a maneira pela qual Nosso Senhor deve ser nosso Rei.

Ele deve ser o Rei de nossos intelectos e de nossos pensamentos porque Ele é a verdade. Jesus Cristo é a Verdade, porque Ele é Deus.

Então Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente Rei dos nossos pensamentos? É Ele quem verdadeiramente orienta todos os nossos pensamentos, nossas reflexões, nossa vida intelectual, na vida da nossa Fé? É verdadeiramente Nosso Senhor Jesus Cristo quem é a luz dos nossos intelectos? Ele é Rei das nossas vontades?

Ele é a Lei. Se as Tábuas da Lei foram encontradas na Arca da Aliança no Antigo Testamento, elas representavam precisamente Nosso Senhor Jesus Cristo, que hoje é encontrado em nossos tabernáculos. Mas hoje com uma superioridade tremenda temos a Lei em nossos tabernáculos, em nossas "arcas da aliança". Não são mais as pedras frias do Antigo Testamento, mas sim Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa que é a Lei. A Palavra de Deus é a Lei por Quem tudo foi feito, em Quem todas as coisas foram criadas. Ele é a Lei não apenas das almas, das mentes, das vontades, mas Ele é a Lei de toda a natureza. Todas as leis que descobrimos na natureza vêm de Nosso Senhor Jesus Cristo - vêm da Palavra de Deus. Basta considerar que todas as criaturas seguem com fidelidade incomparável as leis de Deus, que seguem leis físicas, leis químicas e todas as leis da natureza vegetativa, da natureza animal. Essas leis são seguidas impecavelmente.

E nós também devemos seguir de maneira diligente, de maneira livre, as leis de Deus inscritas em nossos corações. É precisamente devido à nossa liberdade que devemos nos apegar a esta lei que é o caminho da nossa felicidade, o caminho para a vida eterna.

O homem se afastou desta lei.

Nosso Senhor Jesus Cristo deve então ser – deve se tornar novamente – o Rei de nossas vontades e devemos conformar nossas vontades à Sua Lei, à Sua Lei de amor, à Sua Lei de caridade, aos Mandamentos que Ele nos deu e que Ele mesmo nos disse abranger todos os outros Mandamentos: Amar a Deus e amar o próximo. Não são esses dois de fato um e o mesmo Mandamento? É Ele Quem nos diz isso. Então, nós verdadeiramente conformamos nossas vontades à lei de Nosso Senhor Jesus Cristo? Jesus Cristo é verdadeiramente Rei de nossas vontades?

Finalmente, Jesus tem que ser, como nos diz o Papa Pio XI, o Rei dos nossos corações. Nossos corações estão verdadeiramente ligados a Nosso Senhor Jesus Cristo? Estamos conscientes do fato de que Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso TUDO – Omnia in omnibus ? Jesus Cristo é tudo e nas coisas. É Ele in ipso omnia constante como diz São Paulo. Nele tudo é sustentado, Nele vivemos, Nele somos e agimos. É isso que São Paulo explica em seu discurso ao Areopagita: " In ipso vivimus, in ipso movemur, in ipso sumus " – Ele segura tudo em Sua mão.

Devemos então nos perguntar o que a Santíssima Virgem Maria e São José devem ter pensado. Acredito que há um exemplo admirável para nós. Se realmente desejamos que Jesus Cristo seja nosso Rei, devemos tentar imaginar o que Nazaré deve ter sido. Jesus, Maria e José. O que Maria deve ter pensado de Jesus? O que José deve ter pensado de Jesus? É incrível! É um grande mistério, um mistério impenetrável de bondade, da caridade de Deus. Pensar que Ele permitiu que duas criaturas escolhidas por Ele vivessem com Ele! Por São José durante trinta anos, pela Santíssima Virgem durante trinta e três anos, na intimidade de Jesus, na intimidade Daquele que é Deus. É Ele sem o qual nem Maria nem José poderiam falar, pensar ou viver. Maria carregando Jesus em seus braços, carregando Deus em seus braços! Como o Evangelho costuma dizer, não era ela quem carregava Jesus, mas Jesus que a carregava. Pois Jesus era muito maior do que ela, pois Ele é Deus. Pensem no que deve ter havido na alma, na vontade e no coração da Bem-Aventurada Virgem Maria vivendo com Jesus, vendo-O com Seus jovens companheiros, vendo-O trabalhando com São José.

Temos também a alegria de viver com Nosso Senhor.

Mesmo sob o delicado envoltório de seu corpo, a Santíssima Virgem Maria adorava o Deus Vivo, pois ela sabia – ela sabia que o Deus vivo estava em seu ventre. Ela sabia disso através da Anunciação pelo anjo. E São José sabia disso perfeitamente também.

Nós também sabemos que temos o Jesus vivo em nossos tabernáculos sob as delicadas espécies eucarísticas. Jesus está lá! Não somente O temos em nossos tabernáculos, mas, além disso, de uma maneira que eu diria que é quase mais íntima do que a da Santíssima Virgem Maria e de São José, quando Nosso Senhor se dá a nós como nosso alimento espiritual.

Imagine, que verdadeiramente em nossos corpos, em nossos corações, nós carregamos Jesus – nós carregamos Deus que nos sustenta, pois sem Ele não seríamos capazes de viver, nem existir, nem dizer uma única palavra, nem mesmo pensar um único pensamento. E nós carregamos esse Deus na Sagrada Eucaristia!

Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo, quando O recebermos em nós, que Ele seja nosso Rei, que Ele nos dê os pensamentos da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José; que Ele nos conceda as afeições dos corações da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José, essas criaturas que Ele escolheu desde toda a eternidade para serem Seus guardiões, para serem aqueles com quem Ele deveria viver.

Peçam a eles – peçam a Maria e José – que nos ajudem a viver sob o doce Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um dia, esperamos estar naquele Reino e que O veremos em Seu esplendor e em Sua glória, como dizemos tantas vezes quando recitamos o Angelus: ut per passionem ejus et crucem ad risingis gloriam perducamur – para que por Sua Paixão e Cruz possamos ser levados à glória de Sua Ressurreição.

De fato, nós também devemos passar agora pela Paixão e Cruz de Jesus na terra para que um dia possamos nos unir à glória de Sua Ressurreição, esta glória que ilumina o céu, que é o céu, pois Deus é o céu. Que Nosso Senhor Jesus Cristo é o céu. Nele viveremos na graça de Deus pela graça de Deus. Se O tivermos como nosso Rei aqui na terra, então O teremos como nosso Rei por toda a eternidade.

Implore à Santíssima Virgem Maria e a São José hoje, não somente por nós, mas por nossas famílias, por todos aqueles que nos cercam, para que venham à luz de Nosso Senhor Jesus Cristo, que reconheçam o mal, e também por aqueles que não O obedecem ou que se afastaram Dele. Tenha piedade de todas essas almas que não conhecem o Rei do Amor e da Glória, em Quem temos a felicidade de crer, em Quem temos a felicidade de amar. Implore a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Santíssima Virgem Maria e a São José que convertam todas essas almas a Nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei.


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