O Matrimônio de Maria e José
O primeiro título que Mateus dá a José é “Esposo de Maria”(Mt 1,16) e o segundo
é “Filho de Davi” (Mt, 1,20). Entre os dois insere o qualificativo “Justo” (Mt 1,19)
exprimindo desta forma o grau de santidade exigido no objetivo pelo qual estes
dois títulos são lhe atribuído, ou seja, o inserimento do Verbo na família humana.
Sendo que a messianidade de Jesus depende do casamento de Maria com José, é
natural que Mateus evidencie que ele é esposo de Maria. O evangelista interessa
definir que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo e não o momento da
concepção, durante ou depois do casamento, mesmo porque o Verbo
“Minesteúo” (v 18) utilizando por Mateus pode ser interpretado tanto como
namoro como também para mulher casada que coabita com o marido (Lc 2,5). A
Igreja retém que entre Maria e José houve um estreito vínculo conjugal e próprio
por isto José participa da excelsa grandeza de Maria.
O matrimônio entre ambos foi verdadeiro porque entre eles houve a união
conjugal, não a união sexual. Houve a “união indivisível dos ânimos” que levou ambos a manter-se perpetuamente fiéis um ao outro. O matrimônio de Maria e
José não foi portanto um jogo de simples circunstâncias humanas, ou
simplesmente o resultado de um preciso intervento de Deus. Este foi uma
necessidade para o honrado inserimento do Verbo Divino na família humana e
para o seu reconhecimento como filho de Davi. O mesmo foi destinado para
acolher e educar Jesus, e por isso comportava a máxima expressão da união
conjugal, ou seja, o grau supremo do dom de si. Neste sentido a virgindade
exprime e garante a gratuidade deste dom, e assim esta união apenas não
compromete a essência do matrimônio e da paternidade, mas a evidência e a
defende, segundo a afirmação de Agostinho: “Esposo tanto mais verdadeiro
quanto mais casto”, “Pai tanto mais verdadeiro quanto mais casto”.
O dom de si coincide, para São Tomás, com o amor amizade que não é o amor
concupiscência, pois ama-se querendo o bem do outro e não o bem próprio; amase numa dimensão de amor recíproco. De fato, a afinidade espiritual de Maria e
José foi tão grande que Maria aceitou a divina maternidade sem pedir o
consentimento a ele, porque sabia que Deus tinha sobre ela todo direito e que
era desejo profundo de José que ela fosse toda de Deus. Com isso a atitude de
Maria para com José não foi uma falta de delicadeza, mas sinal de confiança. Em
vista disto, Bernardino de Bustis afirma que: ”entre Maria e José existiu um amor
indivisível e santíssimo; de fato, depois de Cristo, seu Filho, a Virgem puríssima
não amou nenhum homem ou criatura assim como a José e da mesma forma José
amou a beata Virgem acima de todas as criaturas”. (Sermo 12, de BMV
Desponsatione). Maria se distinguiu em seu amor para com José e não houve
ninguém que ela não tratasse com tanta familiaridade que a José, seu esposo.
Na comunhão de amor com Maria está também o segredo de toda a santidade de
José e, se é verdade, como afirma Francisco Suaréz: “que um dos meios mais
eficazes para obter de Deus os dons da graça é a devoção para com a Virgem e a
sua intercessão, podemos acreditar que o santíssimo José, diletíssimo à Virgem e
devotíssimo, obteve por seu meio a exímia perfeição e santidade. Desta forma,
como é o parecer de São Bernardino de Sena, Maria amou José com toda
sinceridade e com todo o afeto de seu coração e ofereceu-lhe livremente o
tesouro de seu coração”.
Já afirmamos que Deus designou José “filho de Davi”, para transmitir a Jesus a
descendência davídica e o fez através do matrimônio com Maria. Se Maria
esposa de José tem um filho, este legalmente é também filho de José pelos efeitos
civis e familiares. Daqui a importância deste matrimônio, pois juntamente com
Maria, José foi envolvido na realidade do evento salvífico, sendo o depositário do
mesmo amor do Eterno Pai (RC 1).
O anjo ao dirigir-se a José com o título, “Filho de Davi”, “introduz José no mistério
da maternidade de Maria”, a qual tornou-se mãe por obra do Espírito Santo. O
anjo também dirige-se a José como “ao esposo de Maria”, como aquele que
deverá dar o nome ao Filho que nascerá da Virgem de Nazaré, sua esposa;
portanto, confia-lhe uma tarefa de pai terreno a respeito do Filho de Maria (RC
3).
Já que a “União virginal e santa de José e Maria constitui o vértice do qual a
santidade se espalha sobre a terra”, é particularmente oportuno celebrar a festa
dos Santos Esposos Maria e José.
Questões para o aprofundamento pessoal 1. Indique com suas palavras por que o matrimônio de Maria e José é
verdadeiro.
2. Por que este matrimônio foi necessário diante dos desígnios de Deus?
Um Matrimônio com a União Conjugal e Todo Especial
O pelagiano Julião, negou o matrimônio de Maria e de José, porque este não foi
consumado. Agostinho defendeu este matrimônio colocando sua essência na
união dos ânimos. Para ele José é esposo de Maria na continência, não pela união
sexual, mas pelo afeto, não pela união dos corpos, mas pela união dos ânimos. A
união deles não vem pela ligação dos corpos mas do consentimento, em virtude
da União Conjugal. Para Agostinho não se pode dividir o casal porque não se une
carnalmente, mas se une com os corações (Cordibus connectuntur).
A ausência da união sexual não faz com que José não seja o marido, pois o
próprio Mateus narra que Maria foi chamada pelo anjo de sua esposa, mesmo
referindo que não tinha tido a união sexual com ele para o nascimento de Jesus,
mas que ela concebeu por obra do Espírito Santo. Assim, enfatiza Agostinho que
aqueles que decidem consensualmente abster-se para sempre da união sexual,
não somente não desfazem o vínculo conjugal, mas será tanto mais estável
quanto mais este pacto, observado com amor e concórdia, existir não através dos
liames dos corpos, mas com o afeto das almas (Voluntariis affectibus animorum).
Santo Agostinho afirma ainda a respeito da ausência da união sexual entre os
dois que: “José não por isso não foi pai, porque não se uniu sexualmente com a
Mãe do Senhor, quase que seja o libido a torná-la esposa e não a caridade
conjugal”. Por isso responde a Julião que retém José somente como “quase
marido”, ou seja, segundo a opinião do povo, conforme narra Lucas (3,25) que
entendia remover a falsa opinião de que Jesus fora gerado pela união sexual, e
não negar que Maria fosse esposa de José. Além do mais, Agostinho afirma que
neles foram realizados todos os bens do matrimônio: o filho, a fidelidade e o
sacramento. A prole que é o próprio Jesus, a fidelidade, porque não houve
nenhum adultério e o sacramento, porque não há nenhum divórcio.
Em suma, para Santo Agostinho o matrimônio pode ser tido como tal não por
motivo da união sexual, mas por motivo do perseverante afeto da mente. Os
cônjuges devem saber “muito mais intimamente (multo familiarius) que aderem
aos membros de Cristo, quanto mais possam imitar os pais de Cristo” (Contra
Faustum 23,8).
O Matrimônio de Maria com José não é algo secundário ou um simples
acontecimento na vida privada dos dois e sim, um matrimônio todo especial, mas
nem por isso incompleto e insignificante, aliás, para termos conhecimento sobre
a sua importância basta que leiamos Santo Tomás, o qual na terceira parte de sua
obra Summa Theologica, na questão 29 dedica sua atenção sobre “O Matrimônio
da Mãe de Deus”, onde interrogando-se sobre o seu matrimônio coloca duas
proposições: se Cristo tinha que nascer de uma mulher casada e se houve
realmente um verdadeiro matrimônio entre a mãe de Deus e José.
Antes, porém de abordarmos os argumentos de Santo Tomás, vamos considerar
que a singularidade deste matrimônio suscitou ao longo dos séculos atitudes
contrastantes, pois alguns preferiram não enfatizar São José como o verdadeiro
esposo de Maria, mas sim, idealizaram Maria como esposa considerando-a
esposa da Santíssima Trindade, esposa do Pai, esposa do Espírito Santo, esposa
da Igreja, esposa das almas... menos esposa de José. Outros consideram o
matrimônio de José e Maria muito problemático, e outros ainda o julgaram
comprometedor, pois diziam que este ocasionava uma dificuldade para a sua
virgindade e assim transformaram José num velho, no guarda de sua virgindade,
sendo que tudo isso foi fruto da visão errada dos apócrifos, fato este que a arte
testemunhou sobejamente.
Existem, contudo aqueles que são convencidos da importância deste matrimônio
e inclusive promoveram a festa dos Santos Esposos, a qual é geralmente
lembrada no dia 23 de janeiro.
Para nós é imprescindível afirmar que o matrimônio de José e Maria tem uma
importância capital na história da nossa salvação. O próprio magistério da Igreja
nos ensina que se é importante professar a concepção virginal de Jesus como
nos relatam os evangelistas (Mt 1,18-25; Lc 1,26-38), é igualmente importante
enfatizar o matrimônio de Maria com José (Mt 1,16-18-20.24; Lc 1,27; 2,5)
porque juridicamente é deste que depende a paternidade de José (RC 7).
Na verdade este matrimônio entra num dos mistérios da vida de Cristo e o seu
fundamento bíblico é indiscutível dado a estreita relação dele com todo o
mistério da encarnação. O próprio Mateus embora sabendo que José não gerou
Jesus, demonstra contudo a necessidade deste matrimônio, a fim de que Jesus
tivesse a qualificação de Messias e a genealogia davídica. Portanto, a encarnação
de Jesus aconteceu dentro deste matrimônio.
Os Padres da Igreja ao longo dos séculos ocuparam-se da importância e da
natureza deste matrimônio, inclusive com a sua celebração litúrgica começada
no início do século XV, sobretudo por esforço de Gerson (1363-1429), chanceler
da Universidade de Paris, o qual num sermão: “Sermo de nativitate gloriosiae
Virginis Marie et de commendatione Virginei sponsi eius Joseph” dirigido aos
Padres do Concílio de Costanza (8/9/1416) pedia-lhes que invocassem
oficialmente a intercessão de São José e de instituir uma festa em sua honra para
todas as Igrejas com o objetivo de celebrar a festa dos Santos Esposos,
particularmente aquelas dedicadas à Nossa Senhora, durante o 4º domingo do
Advento; para isso ele compôs uma missa e um ofício próprio, o qual se difundiu
rapidamente.
Desta data para cá a festa dos Santos Esposos foi celebrada com autorização para
Dioceses, Congregações, Conventos e também para alguns Reinos. É de se notar
que em 1555 o Papa Paulo IV ao condenar a seita dos Unitários, a qual negava a
concepção virginal de Jesus, querendo extirpar tal heresia, suprimiu esta festa
litúrgica em todos os calendários litúrgicos, porém nem todos observaram sua
determinação. Somente em 1561 a Congregação dos Ritos ao fazer uma revisão
dos Calendários particulares e dos Ofícios e missas próprias, catalogou a festa
dos Santos Esposos Maria e José para o dia 23 de janeiro como festa considerada
de devoção podendo ser celebrada nos calendários particulares, quando
houvesse motivos especiais. Hoje esta festa permanece ligada aos motivos ou aos
lugares e a sua promoção depende dos devotos e também, é claro, dos pastores.
A teologia do matrimônio tem suas raízes na criação e o seu cumprimento na
encarnação de Jesus. Na ordem da criação o matrimônio exprime, através do
corpo humano, a manifestação do amor. Na ordem da redenção o matrimônio de
José e Maria torna-se essencial no aspecto cristológico por dar a Jesus a
descendência davídica, no aspecto salvífico porque é a primeira realidade
humana assumida para ser purificada e santificada e no aspecto eclesial porque é
símbolo perfeito da união de Cristo com a Igreja.
Qual é na obra da criação a realidade que mais manifesta o amor de Deus, o qual
é o próprio amor? É o próprio homem, imagem de Deus (Gn 2,7). O homem é
visivelmente a mais alta expressão do amor de Deus, porque traz em si a interior
dimensão deste dom e com isso leva ao mundo a sua particular semelhança com
Deus. No prefácio da Missa para os Esposos lê-se: “Na união entre o homem e a
mulher imprimistes uma imagem do Vosso amor”. O homem é portanto
sacramento do amor de Deus e realiza isso justamente “doando-se”, existindo
“para alguém”. “Numa relação de recíproco dom” (Osservatorio Romano,
10/1/1980). Nesta perspectiva o corpo manifesta a necessidade e a comunhão
das pessoas. “O corpo é criado para transferir na realidade visível do mundo, o
mistério escondido na eternidade em Deus, e assim ser o seu sinal...”(OR
21/2/1980).
O corpo possui portanto, uma função sacramental e isto leva-nos a descobrir o
seu significado “Esponsal”, ou seja, a capacidade de exprimir amor. Infelizmente
o pecado original comprometeu a função sacramental do corpo e o seu
significado “Esponsal”.
Questões para o aprofundamento pessoal
1. Faça a diferença entre união conjugal e união sexual no exercício do
matrimônio de Maria e José e indique os valores deste matrimônio segundo
Santo Agostinho.
2. Indique com suas palavras por que este matrimônio é especial?
Um Matrimônio Verdadeiro e Conveniente
Visto que o matrimônio tem a sua importância na ordem da criação, ele também
encontra-se na ordem da redenção que tem o seu fundamento na encarnação.
Santo Tomás considera o matrimônio de Maria e José afirmando que o
nascimento de Cristo de uma Virgem esposa foi conveniente para ele próprio,
para a mãe e para nós. Para Jesus para que ninguém tivesse motivo de renegá-lo
como ilegítimo. Para que a sua genealogia seguisse segundo o costume a linha
masculina. Para que o menino Jesus fosse defendido das insídias do diabo. Para
que José providenciasse o sustento de Cristo. A respeito da Virgem o matrimônio
foi conveniente para que ela fosse preservada da pena de lapidação, para que
fosse livre da infâmia e para que José lhe fosse de ajuda. A respeito a nós foi
conveniente porque o testemunho de José garante que Cristo nasceu de uma
Virgem, como também para tornar mais crível as palavras da Virgem ao afirmar a
sua própria virgindade. Porque tal matrimônio é símbolo da Igreja Católica Universal. Porque na pessoa da mãe de Jesus, esposa e virgem, vem honrada a
virgindade e o matrimônio.
Quanto ao matrimônio de Maria e José, este foi verdadeiro, afirma Santo Tomás,
porque houve a indivisível união deles que os obrigou a manter-se fiéis um ao
outro. O matrimônio entre eles foi verdadeiro porque ambos consentiram a
união conjugal, embora não consentiram a união sexual, a não ser sob a
condição; se fosse a vontade de Deus. O matrimônio enquanto união sexual não
foi consumado, mas houve nele a educação da prole, ou seja, de Jesus.
Ao comentar Mt 1,16 (Esposo de Maria) Santo Tomás afirma que o matrimônio
de Maria e José foi verdadeiro porque nele existiram os três bens do matrimônio:
a prole, o próprio Deus; a fidelidade, porque não houve adultério, e o
sacramento, porque houve a indivisível união deles.
Não se pode concluir, com o intuito de negar este matrimônio, que com a
expressão “nascido de mulher” (Gal 4,4), o apóstolo Paulo queira afirmar Maria
como uma mãe solteira, ainda que virgem. De fato, a Carta às famílias de João
Paulo II, do ano 1994 afirma que “Jesus entrou na história dos homens através de
uma família... um caminho do qual o ser humano não pode separar-se”(Nº 2) e o
Filho de Maria é também o Filho de José, em virtude do vínculo matrimonial que
os une” (RC 7).
É devido a validade do matrimônio de José com Maria que Jesus entra na
genealogia que de Abraão passa por Davi, passando por Jacó que gerou José, o
esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo.
São José participou como nenhuma outra pessoa humana, com exceção de Maria,
do mistério da encarnação de Jesus. Ele foi o depositário do mesmo amor pela
qual potencia o eterno Pai que nos predestinou a sermos os seus filhos adotivos
por obra de Jesus Cristo (RC 1). José participou do mesmo mistério salvífico e do
mesmo amor e esta sua participação é fundamental para compreender a
importância de sua pessoa e de sua missão. Ele participou deste mistério
juntamente com Maria, também se a sua maternidade não dependia dele; Maria
portanto, não pode ser separada dele. “O mensageiro dirige-se a José como
‘esposo de Maria’; dirige a quem, a seu tempo, deverá por tal nome ao Filho que
vai nascer da Virgem de Nazaré, desposada com ele” (RC 3).
Do mistério divino escondido nos séculos na mente de Deus (Ef 3,9) José é
juntamente com Maria, o primeiro depositário. Ele, juntamente com Maria
participa desta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo. “Desde o
momento da Anunciação, José, juntamente com Maria, encontrou-se em certo
sentido, no íntimo do mistério escondido desde todos os séculos em Deus e que
se tinha revestido de carne” (RC 15).
Segundo Santo Tomás, como já referimos, o matrimônio de José e Maria é
verdadeiro, e para isso ele distingue no matrimônio as duas perfeições: uma no
que diz respeito a essência e a outra ao uso; assim não se pode cair no equívoco
confundido união conjugal com união sexual, quase que ambas estivessem no
mesmo nível. Para fortificar esta posição, lembramos novamente Santo
Agostinho em sua reflexão iluminante quando contra o pelagiano Juliano, que
negava a existência do matrimônio, se este não fosse consumado. Para defender
a verdade do matrimônio Agostinho afirma o verdadeiro matrimônio de José e
Maria, propondo a essência da união dos ânimos. Ele afirma que José é esposo de
Maria, sua esposa, na continência não pela união carnal, mas por afeto, não pela união dos corpos, mas, e é o que vale mais, pela comunhão dos ânimos. E conclui
que como era castamente esposo, assim era castamente marido.
Assim, o vínculo matrimonial não é rompido pela decisão consensual de absterse do uso do matrimônio, “Aliás, será tanto mais estável, quanto mais o mútuo
acordo deles foi tomado não na base do prazeroso liame dos corpos, mas dos
voluntários afetos dos ânimos” (De Nuptiis et concupiscentia, 1,11,12; PL
44,420-421).
Em outras palavras, a razão deste raciocínio é que “não é a paixão que a torna
esposa, mas o amor conjugal... Não se deve portanto negar que sejam marido e
mulher aqueles que não se unem carnalmente, mas se unem com os corações
(Sermo 51,13,21; PL 38,344).
Santo Agostinho ensina por fim, que o exemplo do matrimônio de José e Maria
mostra magnificamente aos cônjuges que eles “praticando por mútuo acordo a
continência, o matrimônio pode permanecer e ser chamado como tal, se é
conservado o afeto da mente, embora sem a união sexual do corpo” (De
Consensu Evangelista rum 2,1,2: PL 34,1074).
Em vista do verdadeiro matrimônio entre ambos, segue que entre eles houve
uma união envolvente e inseparável. José juntamente com Maria e também em
relação com Maria, “participa da fase culminante da auto revelação de Deus em
Cristo e participa desde o primeiro início”. Ele é o primeiro colocado por Deus
sobre o caminho da peregrinação da fé de Maria. Estas são afinações de
Redemptoris Custos.
José não está simplesmente ao lado de Maria como um mudo testemunho do
mistério, mas participa profundamente dele. Esta sua participação e união passa
fundamentalmente através do matrimônio deles.
Quando o anjo dirige a José com as palavras: “Não temas de tomar consigo Maria,
tua Esposa, porque o que nela foi gerado é obra do Espirito Santo” (Mt 1,20),
dirigiu-se como ao esposo de Maria e aquilo que se realizou em Maria por obra
do Espírito Santo exprime ao mesmo tempo, uma especial confirmação do liame
esponsal já existente antes entre eles; portanto, o seu casamento com Maria deuse por vontade de Deus. Obediente, José toma, sem excitar, Maria como sua
esposa e não a conhece (Mt 1,25), respeitando o pleno projeto de Deus sobre ela,
e assim ambos vivem juntamente e integralmente a experiência do dom
recíproco. O chamado de Deus para que José tomasse Maria como sua esposa, na
qual, com sua maternidade, manifestou a obra do Espírito Santo, exprime que o
amor de homem presente em José, é regenerado pelo Espírito Santo. O coração
de José, “Obediente ao Espírito Santo, encontra próprio nele a fonte do amor”, do
seu amor esponsal de homem.
É em virtude do matrimônio com Maria que José desenvolveu a sua tarefa de pai
e Jesus era, com pleno direito, reconhecido por todos como “Filho de José” (Lc
2,23), não obstante a sua concepção virginal (Mt 1,18-25; Lc 1,35). Jesus,
portanto, é considerado dentro de seu natural quadro familiar, onde os pastores
vão à gruta e encontram “Maria, José e o Menino” (Lc 2,16). Jesus é apresentado
no Templo pelos seus pais (Lc 2,22). São seu pai e sua mãe a maravilhar-se do
quanto se é dito sobre o menino (Lc 2,33). Será com seus pais que Jesus aos doze
anos vai à Jerusalém pela Páscoa (Lc 2,41-42). Como também desligando-se deles
permanecerá na cidade (2,43). Será Maria que dirá a Jesus: “Olha que o teu pai e
eu aflitos te procurávamos” (Lc 2,48). Será em Nazaré que Jesus viverá
submetido aos seus pais (Lc 2,51). Portanto, houve entre José e Maria um verdadeiro matrimônio, também se característico, devido à sua singularidade de
não gerar a prole, mas de acolhê-la e educá-la. Foi um matrimônio decretado por
Deus em vista do nascimento conveniente de seu Filho, justamente porque Jesus
acolhido neste matrimônio nascia no tempo, mas tinha a origem eterna, e por
isso, não podia esse matrimônio a determiná-la, como sucede com cada ser
humano. Por isso como afirmamos, e Santo Tomás esclarece, este matrimônio
“foi ordenado especialmente para esta finalidade, ou seja, que a prole (Jesus)
fosse neste acolhida e educada” (S. Th. IV sent, dist 30,q. 2 a 2 ad 4).
de bens, por isso se Deus deu José como esposo à Maria, “deu-lhe não apenas
para ser companheiro de vida, testemunha de sua virgindade, tutor de sua
honestidade, mas também para que participasse pelo fato do pacto conjugal da
sua excelsa grandeza” (Enc. Quamquam Pluries, 15/08/1889).
Se é verdade que Maria “abraçando com toda disposição e sem nenhum peso do
pecado, a vontade salvífica de Deus, ela consagrou totalmente a si mesma como
serva do Senhor à pessoa e à obra do seu Filho, servindo o mistério da redenção
sob ele e com ele, com a graça do Deus Onipotente”, como afirma a Igreja (LG 56),
também José ao lado de Maria, mediante o liame conjugal de sua excelsa
dignidade e santidade e dentro da Sagrada Família, teve por uma ordem divina a
tarefa de cuidar da pureza de Maria, de guardar a divindade de Jesus e de tutelar
o mistério da redenção; “Toda a santidade de José, está no cumprimento fiel até
ao escrúpulo desta missão”. De fato, São José se distingue, como afirma o Papa
Paulo VI, em “ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da
Encarnação e à missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter
usado da autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para
lhe fazer o dom total de si mesmo, de sua vida e de seu trabalho; e em ter
convertido a sua vocação humana para o amor familiar na sobre-humana oblação
de si, do seu coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao
serviço do Messias germinado na sua casa”.
Os teólogos ao analisarem tanto o texto de Mateus como de Lucas sobre o relato
de como aconteceu o nascimento de Jesus, descrevem José como marido (Anêr)
de Maria, enquanto que Maria é descrita como jovem (Gynê) e noiva (Mnesteùo).
Estas diferenças não têm muita importância, pois para os hebreus o noivado ou
casamento constituía o início de um autêntico matrimônio, coisa que é atestada
também por Filon (De legibus specialibus, 3,12.72), assim como também na
Bíblia, como por exemplo em Dt 29,7 e sobretudo Dt 22,22-25, onde se
estabelece que a mulher fosse lapidada, seja ela casada ou solteira, se fosse
apanhada em adultério. Portanto, para os evangelistas Mateus e Lucas não há a
preocupação se no momento da encarnação do Verbo ambos eram casados ou
apenas noivos, pois na verdade já existia um verdadeiro matrimônio.
Questões para o aprofundamento pessoal
1. Por que o matrimônio de Maria e José foi conveniente?
2. Por que, segundo Santo Agostinho este matrimônio foi verdadeiro?
3. Dê ao menos uma razão da necessidade de José ao lado de Maria neste
matrimônio.
A Idade de José quando Se Casou com Maria
É comum apreciarmos a cena do casamento de José com Maria onde ele é
representado como um velho, fruto da invenção dos apócrifos em faze-lo um
esposo decrépito de Maria, a fim de eximi-lo de qualquer que fosse a
responsabilidade na concepção virginal de Maria. Esta idéia foi bem acolhida
especialmente por alguns Padres do Oriente como Santo Epifânio, São João
Damasceno, São João Crisóstomo, além de dominar depois em nível popular na
arte, na escultura, no teatro religioso, etc., sempre apresentando-o velho, careca
ou com poucos cabelos brancos, numa atitude que representava mais um servo
de Maria do que seu digno esposo.
Uma reação a esta concepção errada e injusta só chegou com Gerson (1363-
1429), o qual passou a exaltar a grande missão de José como esposo de Maria
semelhante a ela nos dons e virtudes (L.Martin Gonzáles, Iconografia de São
José, sus fuentes – Estudios Josefinos, 26 [1972] pg 203-212). Após Gerson os
escritores começaram a atribuir a José uma idade madura, de um homem cheio
de sabedoria, portanto com a média de idade dos 40 anos para cima. Assim
escreveram autores como F. Suárez (1548-1617) que atribuía a José a idade
entre 30 a 40 anos, ou como Jerônimo Graccián, que lhe atribuía a idade entre 40
a 50 anos. O mesmo seguiram grandes pintores como El Greco, Rafael e inúmeros
outros, assim como alguns escultores.
Naturalmente as razões para negar uma idade avançada a José, como esposo a
partir de então, foram que se ele fosse muito velho seria um homem incapaz de
gerar filhos, tanto que nem poderia defender Maria de eventuais calunias de
adultério e nem Jesus de ser um filho adulterino. Além disso, não poderia
desenvolver suas funções de pai nas diversas circunstâncias como a viagem de
Nazaré a Belém e depois ao Egito com o retorno para Nazaré. Acrescenta-se
ainda que teria dificuldade de prover as necessidades naturais para Jesus e
Maria, pois teria suas forças físicas debilitadas.
É interessante levar em consideração a intenção banal dos apócrifos de que se
José não fosse velho, seria-lhe impossível conviver castamente com Maria, sua
jovem esposa; uma idéia inclusive ofensiva a esse homem dotado de uma graça
especialíssima de Deus. Face a isso, segundo o conhecimento e as fontes de que
hoje dispomos, e que os antigos escritores não tinham, é consenso comum
atribuir a José aquela idade que era própria para um jovem hebreu casar-se, ou
seja, entre os 18 a 25 anos (H.Haag, Diccionario de la Biblia, 1963 – voz
matrimonio, col 1199).
Questões para o aprofundamento pessoal
1. Por que São José por muitos séculos foi visto como uma pessoa velha em
relação à Maria?
2. Qual a idade verdadeira a ser atribuída a José como esposo e por quê?
Maria e José, Rogai por nós.