quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Um Amor em Espera


Ah, se ao menos eu visse, na penumbra do existir,
A face do amor que não teme o porvir.
Não esse amor leve, de suspiros fugazes,
Mas o peso sagrado que em almas se fazes.

Onde estás, tu que és mais que desejo?
Que no abismo da alma te ergues como ensejo?
Procuro-te nas horas em que o mundo se cala,
Nos ecos da dor, onde a solidão se instala.

Tua voz, imagino, não é canto ou rumor,
Mas um chamado profundo, um fado de amor.
Uma promessa velada, gravada no ser,
De que amar é também saber padecer.

Por ti, aceitaria a cruz e a tormenta,
Pois sei que o amor, quando puro, alimenta.
Não o corpo apenas, mas o espírito erguido,
Na luta incessante de um bem merecido.

Vem, pois, e mostre que o destino não mente,
Que o amor verdadeiro é estrela cadente.
E mesmo que tarde, que seja completo,
Não como sonho, mas como decreto.


--Jordan Rodrigues

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Sobre o Casamento e a Vida em Família - São João Crisóstomo - Part I

 Sobre o Casamento e a Vida em Família - São João Crisóstomo - Parte I

Homilia 19 sobre Primeira Coríntios
1 Coríntios 7:1-2

Agora, quanto às coisas de que me escrevestes: é bom que um homem não toque em uma mulher. Mas, por causa das fornicações, tenha cada homem a sua própria mulher; e que cada mulher tenha seu próprio marido.

Tendo corrigido as três coisas mais pesadas a seu cargo, uma, a distração da Igreja, outra, sobre o fornicador, uma terceira, sobre o avarento, ele passa a usar um tipo de discurso mais suave. E ele interpõe algumas exortações e conselhos sobre casamento e virgindade, dando aos ouvintes alguma folga de assuntos mais desagradáveis. Mas na segunda epístí ola ele faz o contrário; ele começa com os tópicos mais leves e termina com os mais angustiantes. E aqui também, depois de terminar seu discurso sobre a virgindade, ele novamente lança um assunto mais semelhante à reprovação; não colocando tudo em ordem regular, mas variando seu discurso em qualquer tipo, conforme a ocasião exigia e a exigência dos assuntos em questão.

Portanto, ele diz: Agora, quanto às coisas de que me escrevestes. Pois eles lhe escreveram: Se era certo abster-se da esposa ou não; e respondendo a isso e dando regras sobre o casamento, ele introduz também o discurso sobre a virgindade: É bom que o homem não toque uma mulher. Pois se, diz ele, você perguntar qual é o curso excelente e muito superior, é melhor não ter nenhuma conexão com uma mulher: mas se você perguntar o que é seguro e útil para sua própria enfermidade, esteja conectado pelo casamento.

Mas como era provável, como também acontece agora, que o marido estivesse disposto, mas a esposa não, ou talvez o contrário, observe como ele discute cada caso. Alguns de fato dizem que esse discurso foi dirigido por ele aos sacerdotes. Mas eu, a julgar pelo que se segue, não poderia afirmar que fosse assim: pois ele não teria dado seu conselho em termos gerais. Pois se escrevesse essas coisas apenas para os padres, teria dito: É bom que o professor não toque em uma mulher. Mas agora ele o fez de aplicação universal, dizendo: É bom para o homem; não só para padre. E novamente, você está solto de uma esposa? Não procure uma esposa. Ele não disse: Tu que és sacerdote e mestre, mas por tempo indeterminado. E todo o seu discurso continua inteiramente no mesmo tom. E ao dizer: Por causa de fornicações, que cada homem tenha sua própria esposa pela própria causa alegada para a concessão, ele orienta os homens à continência.

1 Coríntios 7:3-4

2. Que o marido pague à mulher a honra que lhe é devida: do mesmo modo a mulher ao marido.

Agora, qual é o significado da devida honra? A esposa não tem poder sobre seu próprio corpo; mas é tanto a escrava quanto a amante do marido. E se você recusar o serviço que é devido, você ofendeu a Deus. Mas se você deseja se retirar, deve ser com a permissão do marido, embora seja por pouco tempo. Pois é por isso que ele chama o assunto de dívida, para mostrar que ninguém é senhor de si mesmo, mas questão servos um do outro.

Quando, portanto, você vir uma prostituta tentando você, diga: Meu corpo não é meu, mas de minha esposa. O mesmo também que a mulher diga àqueles que querem minar sua castidade: Meu corpo não é meu, mas do meu marido.

Ora, se nem o marido nem a mulher têm poder nem sobre o próprio corpo, muito menos têm sobre seus bens. Ouçam, todas as que têm maridos e todas as que têm esposas: que se você não deve contar seu corpo como seu, muito menos seu dinheiro.

Em outros lugares, eu concedo que Ele dá ao marido abundante precedência, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo ditado ( ἡἀποστρόφή σου, LXX. Gênesis 3:16 .) Sua volta será para o seu marido, e ele governará sobre você. Paulo o faz também fazendo uma distinção assim, e escrevendo, Maridos, amem suas esposas; e deixe a esposa ver que ela reverencia seu marido. Mas neste lugar não ouvimos mais nem mais nem menos, mas é um e o mesmo direito. Agora por que isso?

Porque seu discurso foi sobre castidade. Em todas as outras coisas, diz ele, deixe o marido ter a prerrogativa; mas não é assim quando a questão é sobre castidade. O marido não tem poder sobre seu próprio corpo, nem a esposa. Há grande igualdade de honra e nenhuma prerrogativa.

1 Coríntios 7:5-9

3. Não defraudeis uns aos outros, a não ser por consentimento.


O que então isso pode significar? Não deixe a esposa, diz ele, exercer continência, se o marido não quiser; nem ainda o marido sem o consentimento da esposa. Por quê então?Porque grandes males brotam desse tipo de continência. Pois adultérios e fornicações e a ruína de famílias muitas vezes surgiram daí. Pois se, quando os homens têm suas próprias esposas, eles cometem fornicação, muito mais se você os defrauda dessa consolação. E bem diz ele, não defraude; fraude aqui, e dívida acima, para que ele possa mostrar o rigor do direito de domínio em questão. Pois que se pratique a continência contra a vontade do outro é fraude; mas não assim, com o consentimento do outro: não mais do que me considero defraudado, se depois de me persuadir você tirar qualquer coisa minha. Pois só ele frauda quem toma contra a vontade alheia e pela força. Uma coisa que muitas mulheres fazem, praticando o pecado ao invés da justiça, e assim tornando-se responsáveis pela impureza do marido, e despedaçando tudo. Considerando que eles devem valorizar a concórdia acima de todas as coisas, pois isso é mais importante do que todas as outras coisas. Iremos, por favor, considerá-lo com vista a casos reais. Assim, suponha uma esposa e marido, e deixe a esposa ser continente, sem o consentimento de seu marido; bem, então, se em seguida ele cometer fornicação, ou embora se abstendo de fornicação se aborreça e fique inquieto e se acalore e brigue e dê todo tipo de problema para sua esposa; onde está todo o ganho do jejum e da continência, uma brecha sendo feita no amor? Não há nenhum. Pois que estranhas censuras, quantos problemas, que grande guerra deve surgir, é claro! visto que quando em uma casa marido e mulher estão em desacordo, a casa não será melhor do que um navio em uma tempestade quando o mestre está em más relações com o homem à frente. Portanto, ele diz: Não defraudeis uns aos outros, a menos que seja por consentimento por um tempo, para que você possa se entregar à oração. 

É oração com seriedade incomum que ele quer dizer aqui. Pois se ele está proibindo aqueles que se relacionam uns com os outros de orar, como poderia orar sem cessar ter algum lugar? É possível, então, viver com uma esposa e ainda dar ouvidos à oração. Mas pela continência a oração se torna mais perfeita. Pois ele não disse meramente: Para que oreis; mas, para que vos entregueis a ela; como se o que ele fala pudesse causar não impureza, mas muita ocupação. E possam estar juntos novamente, para que Satanás não os tente. Assim, para que não pareça ser uma questão de promulgação expressa, ele acrescenta a razão. E o que é isso? Que Satanás não tente você. E para que você entenda que não é só o diabo que causa esse crime, quero dizer o adultério, acrescenta, por causa da sua incontinência. Mas isso eu digo por meio de permissão, não de mandamento. Pois eu gostaria que todos os homens fossem como eu mesmo; em estado de continência. Isso ele faz em muitos lugares quando está aconselhando sobre assuntos difíceis; ele se apresenta e diz: Sede meus imitadores.

No entanto, cada homem tem seu próprio dom de Deus, um dessa maneira e outro depois disso. Assim, uma vez que ele os cobrou pesadamente dizendo, por sua incontinência, ele novamente os conforta com as palavras, cada um tem seu próprio dom de Deus; não declarando que para essa virtude não há necessidade de zelo de nossa parte, mas, como eu dizia antes, para confortá-los. Pois se é um dom, e o homem não contribui com nada para isso, como você diz, Mas Digo aos solteiros e às viúvas que lhes é bom que permaneçam como eu:mas se eles não têm continência, que eles se casem? Você vê o forte senso de
Paulo como ele tanto significa que a continência é melhor, e ainda assim não impõe nenhuma força sobre a pessoa que não pode alcançála; temendo que alguma ofensa surja?
Pois é melhor casar do que queimar. Ele indica quão grande é a tirania da concupiscência. O que ele quer dizer é algo assim: se você tiver que suportar muita violência e desejo ardente, retire-se de suas dores e labutas, para que não seja subvertido.


Continua...

As profecias de Lúcia de Fátima e Padre Pio sobre João Paulo I

 As profecias de Lúcia de Fátima e Padre Pio sobre João Paulo I

“Coloque-a na categoria das notícias explosivas. Uma reportagem na revista italiana Mensageiro de Santo Antônio diz que o Padre Pio – o incrível estigmatizado italiano que foi canonizado ano passado – previu uma situação que envolvia Albino Luciani – o Papa João Paulo I – antes de Luciani, à época bispo de Vittorio Veneto, ascender ao Trono de Pedro.

Se verdadeira, será a segunda profecia envolvendo um Papa recente atribuída a Pio, que foi canonizado recentemente. Notícias anteriores incomprovadas afirmavam que Pio profetizou a eleição de Karol Wojtyla ao papado.

No caso de Luciani, que foi Papa por apenas 33 dias, a predição estava ligada à promoção de Luciani a patriarca (ou arcebispo) de Veneza. De acordo com um artigo escrito por Renzo Allegri, Francesco Cavicchi, um empresário de Conegliano Veneto [uma vila italiana], foi ver o famoso místico em 1967 para receber aconselhamento espiritual. No fim de sua conversa, o Padre Pio lhe contou: “Você deve formar um grupo de oração em sua cidade natal”.

Chegando a casa, Cavicchi tentou exatamente isso, diz a revista, apelando a Luciani, que na época era seu bispo – mas sem sucesso. “Tão logo Luciani ouviu o nome de Padre Pio mencionado, a conversa foi interrompida bruscamente,” relata a publicação. “'Basta!', disse Luciani, 'Não quero mais falar sobre isso.' Naqueles dias, Pio não era bem visto pelas autoridades eclesiásticas.”

Quando o empresário alguns meses depois contou ao frade capuchinho o que acontecera, diz-se que Pio permaneceu em silêncio por um momento, e então respondeu, “Não se preocupe. O próprio bispo vai procurar por você no tempo devido. E você receberá permissão escrita do patriarca.”

Isso parecia impossível, mas Pio repetiu sua afirmação de que tanto o bispo local como o patriarca viriam em auxílio de Cavicchi na formação do grupo de oração. “Agora vá em paz!”, teria dito Pio.

Cavicchi voltou para casa confuso mas viu a predição se materializar de um modo incrivelmente literal. Isso ocorreu um ano após a morte de São Pio quando, em 10 de dezembro de 1969, Cavicchi recebeu uma ligação do secretário do Bispo Luciani, que anunciou que o bispo queria encontrar-se com ele. Quando Cavicchi foi ver o então Bispo Luciani, o futuro papa imediatamente voltou a conversa para Pio, desta vez de um modo bastante simpático. Ele se lembrou do pedido para um grupo de oração e disse que iria tratar do assunto quando de seu retorno de uma viagem a Roma.

Alguns dias depois, surgiram notícias de que o Bispo Luciani havia sido nomeado Patriarca de Veneza e dado a Cavicchi permissão escrita para um grupo de oração – desta forma cumprindo as palavras de Pio de que o empresário iria primeiro falar com um “bispo” e então receber permissão do “patriarca”.

Talvez ainda mais interessante seja que o Mensageiro de Santo Antônio diz que antes de ser Papa, na primavera de 1977, o Bispo Luciani fez uma visita, anteriormente não revelada, à vidente de Fátima, Lúcia dos Santos, em Coimbra, Portugal – na qual a Irmã Lúcia, uma freira no Mosteiro de Monte Carmelo, supostamente profetizou sua eleição como Papa.

A publicação cita o irmão do Papa João Paulo I, Edoardo, que participou da peregrinação, recordando detalhes do dramático encontro.

“Albino disse a seu secretário que permanecesse no quarto de espera”, disse. “O encontro, que deveria durar apenas dez minutos, terminou durando duas horas. Não sei sobre que conversaram. Tudo que sei é que, após o encontro, meu irmão estava profundamente abalado. Na verdade, ele estava tão perturbado com esse encontro que permaneceu completamente em silêncio durante toda a viagem de volta para casa.”

O Mensageiro relata que, após a morte do Papa, soube-se que Lúcia saudou o então Patriarca como “Santo Padre”. “Ela previu sua eleição ao papado, mas também que seu pontificado seria muito curto e que seu sucessor seria um estrangeiro, um Cardeal de Cracóvia”, afirma Allegri. “Essa previsão também foi confirmada pelo próprio Patriarca durante um de seus passeios com um teólogo veneziano, Pe. Germano Pattaro.

Ironicamente, Luciani e seu futuro sucessor, Karol Wojtyla, ficaram amigos após o encontro relacionado a Fátima, e diz-se que o próprio Papa João Paulo I mais tarde previu quem o iria suceder, indicando a pessoa que estava no quarto em frente ao seu no Conclave realizado na Capela Sistina.

Aquela pessoa era Karol Wojtyla – o Papa João Paulo II – que se tornou pontífice depois que o Papa João Paulo I morreu misteriosamente.”

(Michael H. Brown, Report Claims Padre Pio And Fatima Seer Both Issued Prophecies About John Paul I)


Não se pode canonizar um papa ignorando seu pontificado

 Não se pode canonizar um papa ignorando seu pontificado

"No dia 1º de abril de 2011, o Cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, esclareceu o motivo para a beatificação de João Paulo II. O Catholic News Service reportou o seguinte:

O Papa João Paulo II está sendo beatificado não por causa de seu impacto na história ou na Igreja Católica, mas por causa do modo como viveu as virtudes cristãs da fé, esperança e caridade, disse o Cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos...

O Cardeal Amato disse que o processo de santidade é uma das áreas da vida da igreja onde o consenso dos membros da igreja, tecnicamente o "sensus fidelium" ("senso dos fiéis"), realmente importa. "Desde o dia de sua morte em 2 de abril de 2005, o povo de Deus começou a proclamar sua santidade", e centenas, quando não milhares, visitam seu túmulo todos os dias, disse o cardeal. Um outro sinal é o número de biografias publicadas sobre ele e o número de suas obras que são traduzidas e publicadas...

O Cardeal Amato disse, "a pressão do público e da mídia não perturbou o processo, mas o ajudou" porque foi mais um sinal da difundida fama de santidade do Papa João Paulo, que é algo de que a igreja exige provas antes de se movimentar para beatificar alguém...

[Joaquin Navarro-Valls, que trabalhou como porta-voz do Vaticano sob o Papa João Paulo], um membro da Opus Dei, disse ter tido a bênção de conhecer pessoalmente três santos:
 
Josemaria Escriva de Balaguer, fundador da Opus Dei; a Beata Teresa de Kolkata; e o Papa João Paulo. O que todos os três têm em comum, disse, era um bom senso de humor, um sorriso fácil e uma habilidade para rir. Quanto aos que questionam beatificar o Papa João Paulo apenas seis anos após sua morte e aqueles que dizem que a explosão do escândalo dos abusos sexuais dos clérigos durante seu pontificado lança uma sombra escura sobre seu reinado, Navarro-Valls disse que as pessoas devem se lembrar de que a beatificação não é um juízo sobre um pontificado, mas sobre a santidade pessoal do candidato. A pergunta chave, disse, é: "Temos certeza de que ele viveu as virtudes cristãs em grau heróico?"

Desta forma, o Cardeal Amato e o ex-porta-voz de João Paulo II, Navarro-Valls, fazem a inédita afirmação de que a Igreja pode beatificar, e portanto canonizar, um papa baseando-se unicamente na exibição de virtude em sua vida pessoal, sem nem mesmo considerar seu longo pontificado de quase três décadas. Como todos podem ver, a idéia é estapafúrdia. Os candidatos à canonização formal sempre foram julgados pelas virtudes heróicas de suas vidas como um todo. Isso vale especialmente para os papas, pois seus pontificados são parte integral de suas vidas como católicos.

Sendo assim, João Paulo II verdadeiramente viveu de modo heróico as virtudes católicas da fé, esperança e caridade em seu pontificado? Assis I e II, rezar com animistas no Togo e pedir a São João Batista que proteja o Islã mostram um exercício heróico da virtude da fé? Pelo contrário, a virtude católica da fé proibiria essas coisas em razão do Primeiro Mandamento.

Em relação à virtude da esperança, é a esperança de que, se nós como católicos
cooperarmos com a graça, salvaremos nossas almas. Mas como pode alguém dizer que João Paulo II exibiu heroicamente essa virtude, quando pelas palavras e atos de seu pontificado ele consistentemente deu a aparência da esperança de que não-católicos possam ser salvos por meio de suas próprias religiões falsas? Também a virtude católica da Esperança presume a possibilidade de ir para o inferno, do contrário não haveria qualquer necessidade de esperança. Mas como João Paulo II questiona até se existe alguma alma humana no inferno, como pode alguém dizer que ele exibiu a virtude da esperança em grau heróico?

Também a virtude católica da caridade exigiria que um papa corrigisse e disciplinasse inúmeros prelados e sacerdotes que disseminassem heresia e erro na Igreja. Pelo contrário, o único prelado notável que João Paulo II disciplinou durante seu pontificado foi o Arcebispo Lefebvre. Da mesma forma, a virtude da caridade demanda a correção do abuso litúrgico geral por amor a Deus, que merece a adoração correta, por amor às almas dos sacerdotes que cometem esses sacrilégios, assim como por amor às almas dos fiéis que foram constantemente escandalizados com tais atos. Em vez disso, embora João Paulo II tenha pedido desculpas pelos abusos litúrgicos, ele pouco ou nada fez para detê-los.

Como resposta, alguns lembraram São Celestino V como um papa que foi pessoalmente santo mas não conseguiu ter um pontificado de sucesso. Mas os casos de João Paulo II e São Celestino são completamente diferentes. Em primeiro lugar, Celestino só foi papa por seis meses. Em segundo, embora a santidade heróica e as severas penitências de Celestino como monge sejam indisputáveis, ele simplesmente não tinha qualquer experiência que fosse no governo da Igreja. Devido a sua ingenuidade ele provou ser um administrador terrível pelos padrões do mundo. Mas nunca no decurso de seu pontificado Celestino deixou de exibir qualquer virtude católica, muito menos chegou a participar de atos públicos que dariam razão ao questionamento dessa virtude.

De fato, é impossível dividir a pessoa única de João Paulo em duas entidades separadas e distintas para fins de canonização. A Igreja não pode canonizar a parte de João Paulo II que alguns dizem ter exibido virtudes heróicas em privado, enquanto ignora a consistente falta ou mesmo oposição daquelas virtudes ao longo de um pontificado de vinte e sete anos."
(Peter Crenshaw, Can the Church Canonize a Pope While Ignoring His Papacy?)

http://remnantnewspaper.com


A confissão de Martinho Lutero

 A confissão de Martinho Lutero

“Rematemos estas confissões dos convertidos pela confissão do próprio Lutero. Escreve Lutero sobre as conseqüências de sua pregação, com a qual pretendia reformar o mundo cristão: “Os povos espantam-se quando vêem que tudo outrora era calmo e tranqüilo; a paz reinava por toda parte, ao passo que hoje está tudo cheio de seitas e facções, que faz dó... 

Devo confessar que a minha doutrina produziu muitos escândalos; sim, não posso negá-lo: estas coisas muitas vezes me causam terror, principalmente quando me diz a consciência que despedacei o passado da Igreja, tranqüila e pacífica sob o papado.

“Os homens são hoje mais vingativos, mais avaros e sem misericórdia, menos modestos e mais incorrigíveis, piores, enfim, do que no tempo do papado.

“Coisa escandalosa! Desde que a pura doutrina do evangelho foi posta em luz, o mundo vai diariamente de mal a pior. Nós pretendemos mostrar que somos evangélicos, celebrando a comunhão debaixo das duas espécies, quebrando as imagens, saturando-nos de carne, abstendo-nos de jejuar, de orar, etc; quanto à fé e à caridade, pouco nos importa. A malícia dos homens em pouco tempo tem chegado entre nós a um tal ponto, que não possa ainda o mundo durar cinco ou seis anos... É uma experiência incontestável: nós outros, pregadores, somos agora mais preguiçosos, mais descuidados do que outrora nas trevas da ignorância papista.

“Quanto mais estamos seguros da liberdade adquirida por Cristo, mais somos tíbios e indolentes em observar o ensino e a oração, em praticar o bem e suportar as injúrias.

“Ai! acreditei em tudo o que diziam o papa e os monges: presentemente não posso mais crer o que disse Jesus Cristo, que, entretanto, não mente.”

Foi persuasão geral dos povos que as religiões são mais puras e limpas quando mais próximas a suas nascentes. Se julgarmos o protestantismo por este critério, não pode merecer conceito favorável uma religião, que, ainda fresca do sopro da revolução, que lhe insuflou a vida, fez a sua entrada no mundo já impura e corrupta, como as paixões ignóbeis que lhe serviam de berço. Esta corrupção assombrosa, que mancha de lodo e sangue o alvorecer do protestantismo, evidencia deste modo sua descendência terrena e vil e, portanto, sua falsidade.”

(Pe. Júlio Maria de Lombaerde, O Anjo das Trevas)


terça-feira, 29 de outubro de 2024

A Maçonaria odeia Joana d'Arc

 A Maçonaria odeia Joana d'Arc

A heroína de sua Pátria, a quem a França deve tantos sacrifícios, é detestada pela Maçonaria, porque foi uma santa e porque foi patriota. A Maçonaria nem é santa, nem patriota. Capaz de cravar um punhal no coração de seu irmão e concidadão, não se dedigna de abraçar ainda no campo de batalha, um inimigo que trame contra a independência e liberdade de sua Pátria, quando lhe fareje a insígnia maçónica.

Quando os filhos da França sentiram em suas veias escaldar-lhe o sangue do entusiasmo e da gratidão para com sua libertadora, e a Nação pediu em milhares de assinaturas a consagração de uma festa nacional a Joana d'Arc, a Maçonaria pôs-se logo em campo, e um inimigo da pátria de Clóvis e S. Luís, o pontífice maçon Lemmi, passou uma circular em que ordenava que atacassem sem descanso, nem intermitência, a festa da libertadora de França.

Este ano o grito de guerra já foi de novo lançado pela loja La Clémente Amitié que precedentemente se houvera posto à testa do movimento.

O Governo, que é dos apaniguados das lojas, presta-lhes também seu dócil apoio.
Corre já que o Ministério enviou instruções secretas aos chefes de serviço de seus respectivos departamentos, para que nem os oficiais do Exército, nem militares, concorressem oficialmente às festas que o povo francês tenciona celebrar em honra da grande heroína.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 2º Ano, Nº 19, Julho de 1896.


O sangue cristão e a "eucaristia" judaica

 O sangue cristão e a "eucaristia" judaica

Com que fim procuram os judeus o sangue cristão? Já que a raça maldita tão de mãos dadas tem estado sempre com a franco-maçonaria, metemo-la também no Reinado das Trevas: e vamos responder com El Eco Franciscano a esta questão, dizendo em poucas palavras o que aquela boa revista diz em uma extensa correspondência; escrita de Jerusalém.

É certo que os judeus assassinam crianças, depois de as terem roubado à vigilância de seus pais, prova-se com os argumentos de muitos e ruidosos processos, onde semelhantes crimes foram comprovados e castigados; havendo, além disso, confissões livres de alguns neo-convertidos. O facto, pois, é inegável. A questão é saber qual o motor de semelhantes crimes. O povo, que naturalmente julga pelo que vê, atribui tudo a um ódio de séculos que a nação maldita nutre contra os cristãos. Que esse ódio existe, é indubitável; mas será essa a causa motriz do crime?

Rocca d'Adria, escritor católico muito célebre, e convertido do judaísmo, onde era tido por um dos primeiros doutores da sua seita, antes de se converter, responde com uma formal negativa. Em umas memórias, a que deu o título de – A Eucaristia e o Rito Pascoal Hebraico moderno: Revelações – demonstra com revelações inéditas e fidedignas, e com autoridades tiradas do Talmude e de outros livros mosaicos, que os judeus extraem o sangue dos cristãos, fazendo com ele e com farinha, uma espécie de mistura, para satisfazer um rito e uma crença supersticiosa que eles têm no Redentor e na sua vinda.

Eis as palavras daquele autor, que bem se pode dizer testemunha autêntica: «Os rabinos hebreus, suspeitando a divindade de Jesus Cristo, e não tendo, apesar disso, coragem para confessar publicamente a sua crença, consignaram em seus livros a vinda do Messias, e impuseram a Israel uma imitação da Comunhão Eucarística, certos (os rabinos), absolutamente certos de que sem ela (a Eucaristia) não é possível conseguir a vida eterna.»
Simplesmente horroroso!

Esta afirmativa tão categórica, tão formal e tão autorizada, vai mesmo sem comentários. Em todo o caso, vejam os pais de família que moram perto de famílias judias, se têm cuidado com seus filhos; não seja caso que o sangue deles vá ajudar a digestão a esses miseráveis.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 2º Ano, Nº 13, Janeiro de 1896.


Fernando Pessoa: Cansaço

 Fernando Pessoa: Cansaço 

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Glosas revelam um Lutero gnóstico

 Glosas revelam um Lutero gnóstico

"Durante a maior parte da história da pós-Reforma, tem sido inquestionável nas histórias teológicas da controvérsia propor Martinho Lutero como um devoto seguidor da teologia de Santo Agostinho de Hipona, o grande oponente dos maniqueus. Isso não surpreende, dado que Agostinho é muitas vezes invocado pelos reformadores contra o dogma católico, que hereges como Calvino e Cornélio Jansen fizeram de um Agostinianismo corrompido o centro de suas doutrinas, que a ousada posição de Agostinho a favor da graça contra os pelagianos mostrou-se em certa medida útil aos reformadores que debatiam a favor da sola fide e dupla predestinação, e que o próprio Lutero foi um monge agostiniano. Estudos mais recentes, contudo, revelam uma imagem bastante diferente de Lutero. Longe de invocar Agostinho contra Roma, Lutero mostra-se desdenhoso do grande doutor de Hipona e um advogado de fato da teologia dualista dos maniqueus.

Esses desenvolvimentos primeiro vieram a lume no começo do século XX, quando milhares de notas escritas pela mão do próprio Lutero foram descobertas adicionadas nas margens de obras de Sto. Agostinho, Pedro Lombardo e outros. Essas glosas pertencem a dois períodos, 1506-1516 e 1535-1545, e desta forma representam tanto o pensamento em formação quanto o maduro de Lutero. As glosas não foram estudadas e compiladas sistematicamente, contudo, até a metade do século, sob a direção de um padre alemão, Theobald Beer, um dos mais notáveis especialistas em Martinho Lutero, cujos 35 anos de trabalho sobre o arqui-heresiarca do Protestantismo ganharam a estima do Cardeal Ratzinger, Hans Urs von Balthasar e muitos outros. Os anos de meticuloso trabalho de Beer em sistematizar e publicar essas glosas de Lutero tornaram-se públicos em 1980 com a publicação do livro de Beer de 584 páginas, Der fröhliche Wechsel und Streit. Os resultados do trabalho de Beer mostram um Lutero não enamorado por Sto. Agostinho, mas extraordinariamente hostil; na verdade, essa hostilidade toma um tom gnóstico e lança luz sobre muitas das subseqüentes críticas ao Aristotelismo e à Escolástica. Sobre a obra de Beer, o Cardeal Ratzinger escreve ao autor, "A influência do neoplatonismo, da literatura pseudo-hermética e da gnose, que como você mostra se exercia sobre Lutero, lança uma luz inteiramente nova sobre sua polêmica contra a filosofia grega e a Escolástica. De uma maneira nova e significativa você também explora, até as profundezas do ponto central, as diferenças que se encontram na Cristologia e na doutrina da Trindade."

Como é que esses elementos importantes do pensamento de Lutero se perderam? Theobald Beer assinala que aquilo que hoje conhecemos como "Luteranismo" é na verdade o pensamento do sucessor de Lutero, Philipp Melanchthon, que foi intérprete e advogado de Lutero, apesar de divergir deste em muitos pontos importantes. Ao contrário de Lutero, Melanchthon tinha pelos Padres da Igreja, especialmente Agostinho, um certo nível de reverência, admitia a utilidade da filosofia nos estudos teológicos e tendia a um certo irenismo que Lutero considerava preocupante. Melanchthon trouxe essas características para a causa luterana e serviu para moderar o Luteranismo do final do século XVI contra algumas das posições mais extremas de Lutero. Já se ressaltou muitas vezes que nenhum luterano dos tempos modernos seria pego afirmando algumas das coisas que Lutero disse, e Melanchthon, após a morte de Lutero, declarou que Lutero estava paralisado por um "delírio maniqueu". Assim é que o Lutero que conhecemos hoje é o Lutero como foi interpretado e modificado por Melanchthon.

Que é esse "delírio maniqueu" que Melanchthon atribui a Lutero? Um exemplo é a teologia da expiação de Lutero, onde ele vê uma inversão essencial da ordem divina. Sobre a cruz, "deve-se conceder ao diabo uma hora de divindade e devo atribuir malignidade a Deus". É óbvio que Lutero está de fato projetando sua própria luta com Deus sobre Cristo, deixando o Filho em uma relação verdadeiramente dualista com Deus Pai. O ódio profundamente arraigado de Lutero a Deus é colocado sobre Cristo, que assume não somente a punição devida ao pecado (teologia católica), mas também a própria culpa do pecado em si. Lutero escreve que Cristo não somente assumiu uma condição humana geral, mas submeteu-se ao diabo, de certo modo Ele está de acordo com o diabo, mas também com a disposição para o pecado.

Nas glosas de Lutero, ele se refere a Cristo não como uma pessoa, mas um compositum, uma composição; isso é necessário, pois ele afirma que a divindade e o diabólico são coexistentes nEle; Cristo é uma composição de humanidade e divindade. Aqui Lutero está se opondo à idéia tradicional de uma hipóstase única e pessoal, contra a qual debaterá pela vida inteira. Esse foi um enorme ponto de divergência entre Lutero e Melanchthon; após a morte de Lutero, Melanchthon afirmou, "As fórmulas a serem rejeitadas são: 'Cristo é composto de duas naturezas' e 'Cristo é o fruto da criação'". A primeira é obviamente uma tentativa de afastar o movimento luterano da idéia herética de Lutero sobre o compositum e assim o Luteranismo iria manter a fórmula tradicional da hipóstase. Aqui Lutero está particularmente contra Agostinho, do qual trataremos mais a seguir.

Beer ressalta que Lutero fixa-se muito mais no papel de Cristo que em Sua identidade; o que Cristo faz é mais importante do que quem Ele é. Para Lutero, Cristo tem duas funções. "A primeira", diz Theobald Beer, "é a função de proteger-nos da cólera divina e a segunda, de nos dar um exemplo. É uma justificação dupla". A natureza humana de Cristo, por adotar a disposição pecadora do homem caído, de fato se torna pecado. Eis onde um dualismo gnóstico-maniqueu entra no pensamento de Lutero. Não poderia haver qualquer reconciliação entre a carne pecadora e a natureza divina. Eis porque Cristo é compositum mas não hypostasis.

Isso também desce às raízes do relacionamento entre fé e obras. As obras, pertencendo ao homem exterior, à "carne", não podem ter nenhuma influência ou relevância para o "homem interior", ao espírito animado pela fé. Lembre-se, mesmo na graça, a carne ainda é má; Cristo simplesmente protegeu o pecador do castigo. Desta forma há uma permanente dicotomia entre fé e obras. Contra essa declaração, os partidos católicos na Dieta de Augsburgo apresentariam a famosa fórmula de São Paulo, "fé que opera pela caridade" (Gál. 5:6), que ensina claramente a união entre fé e obras e o mérito das obras feitas na fé. Lutero jamais deu uma explicação satisfatória a esses argumentos e de fato fugiu para a obra gnóstica de Hermes Trimegisto para combatê-los. Em Augsburgo, por exemplo, Lutero respondeu à citação de Gálatas dizendo:

"O relacionamento entre Deus e o homem é como uma linha tocada por uma esfera; a esfera sempre encontra a linha apenas em um ponto e é precisamente nesse ponto onde Cristo está situado. Estamos sempre no mesmo caminho, mas a esfera sempre nos toca apenas em um único ponto."

Isso é tirado diretamente de Hermes Trimegisto, que escreveu, "Deus é uma esfera infinita cujo centro está em todo lugar... Deus é uma esfera com tantas circunferências quantos há pontos." Em uma das glosas traduzidas por Beer, no Evangelho de João, Lutero comenta sobre a afirmação de Cristo, "Antes que Abraão fosse, eu sou" e diz, "Isso é o que acontece em todos os nomes em relação ao acidente, mas não à substância. Cristo não disse, 'Antes que Abraão fosse, eu sou Cristo'; Ele disse simplesmente, 'Eu sou'." Em outras palavras, ele introduz a distinção entre substância e acidente na pessoa de Cristo, vendo a divindade no compositum como a substância e a humanidade como o acidente. Em outro lugar Lutero diz, "O que o branco representa em relação ao homem é o que Cristo representa em relação ao Filho do Homem." A humanidade de Cristo não é necessária à pessoa de Cristo; é meramente acidental e por isso pode assumir a disposição fundamental ao pecado sem corromper Sua divindade. Isso está muito perto do dualismo gnóstico.

Há portanto algo fundamentalmente bem mais profundo nas objeções de Lutero ao Catolicismo do que o uso de indulgências ou outros desentendimentos de pouca importância. Lutero contradisse o próprio núcleo da Cristologia tradicional, uma Cristologia que é aceita hoje tanto pela maioria dos protestantes como pelos ortodoxos. Imagine-se como o Concílio de Trento teria reagido se tivesse tais escritos à sua disposição. Esse pavoroso "delírio maniqueu" é a razão pela qual Melanchthon tentou de todos os modos remodelar o Luteranismo em uma forma mais em consonância com a Cristologia tradicional.

Aqui chegamos ao desdém de Lutero por Agostinho, pois foi Agostinho, mais do que qualquer outro Padre, que articulou o entendimento correto de Cristo dentro da Trindade. Em De Trinitate, Agostinho escreve, "Diz-se que o Pai invisível, junto com o Filho também invisível, enviou esse mesmo filho e tornou-O visível". Escrevendo em 1509, Lutero rabisca nas margens, "Vejam só que estranha conclusão!" Lutero não podia aceitar uma missão intertrinitária por causa da função fundamental de Cristo como refúgio à cólera divina. Cristo tem duas naturezas, mas elas estão perpetuamente em oposição.

Essa oposição se estende até a Igreja. Já que a natureza humana como tal não participa da natureza divina, a Igreja também não participa. Lutero escreve, "A Igreja é um corpo externo mas não participa da natureza divina". Melanchthon se opõe ditando, "A pessoa de Cristo foi enviada à Igreja para lhe trazer o Evangelho do coração do Pai Eterno". Há uma verdadeira penetração do divino no humano em Melanchthon que a perspectiva maniquéia de Lutero não lhe permite jamais admitir. Lutero chega até a negar que a natureza humana de Cristo tivesse qualquer participação na redenção: "Cristo trabalha pela nossa salvação, mas sem a cooperação da natureza humana". A natureza humana é tão irremediavelmente corrupta, tão distante da divindade, que nem mesmo na pessoa de Cristo ela pode servir para algum bem. Para Cristo a única utilidade de Sua humanidade é "tornar-se" nosso próprio pecado.

A gnose de Lutero é profundamente arraigada; Beer cita muitos outros lugares onde Lutero, comentando as Escrituras, cita Hermes Trimegisto, ensinamentos neopitagóricos, e usa imagens gnósticas, como a do Leviatã ou dos Titãs. Ele vê a divisão fundamental entre fé e obras como tão profundamente arraigada que há essencialmente dois tipos de pessoas. Em suas glosas de 1531 a Gálatas, Lutero escreve, "Deste modo um é o Abraão que crê, um é o Abraão que age, um é o Cristo que redime, um é o Cristo que age... distinguir entre essas duas coisas como entre céu e terra". O dualismo aqui é profundo.

É por essa razão que Lutero particularmente despreza Agostinho, que escreveu tão eloqüentemente contra os maniqueus de sua época. Nas Confissões, por exemplo, onde Agostinho critica a idéia de duas divindades lutando uma com a outra, Lutero escreve na margem, "Isto é falso. Esta é a origem de todos os erros de Agostinho". Assim é que Lutero ataca Agostinho por atacar o Maniqueísmo; é por isso que Melanchthon por sua vez acusa Lutero de delírio maniqueu, precisamente porque a idéia de dois deuses, de dois Cristos, emerge de Lutero.

Outro exemplo: Quando Agostinho ataca o gnóstico Porfírio em De Trinitate VII, 6, 11, Lutero defende o argumento de Porfírio contra Agostinho, escrevendo à margem, "[O termo] 'pessoa' em Deus é um termo comum a muitos e significa a substância da divindade". Isso é profundamente contrário a Agostinho, que defendeu a posição ortodoxa de que pessoa se refere não à substância de Deus, mas às distinções dentro dEle. Se pessoa se referisse à substância de Deus, Ele não seria capaz de ter uma personalidade trinitária, dado que Ele é uma única substância. É assustador que Lutero tenha sido considerado como uma espécie de agostiniano. Ele desprezava Agostinho e achava que sua obra era cheia de erros. Lutero se coloca ao lado dos maniqueus contra Agostinho.

É verdade que Lutero não postula uma substância maligna autônoma, como fazem os maniqueus, mas para ele, Deus é fundamentalmente mau. Quando São Paulo escreve que em Cristo a plenitude de Deus habita corporalmente (Col. 2:9), Lutero escreve, "É bom que tenhamos um tal homem, porque Deus em si mesmo é cruel e mau". Isso reflete a experiência pessoal de Lutero com Deus, que por sua vez transborda sobre sua teologia.
O trabalho de Theobald Beer compilando as glosas de Lutero revela um Lutero que de 1509 até a década de 1540 está convicto de uma determinada teoria cristológica, da qual até seus próprios contemporâneos se envergonhavam e que tentavam minimizar. Sua relegação da natureza humana de Cristo à irrelevância prática, seu dualismo gnóstico na divisão que ele põe entre os componentes materiais e imateriais do homem, sua confiança nas obras herméticas de Hermes Trimegisto e sua antipatia furiosa a Sto. Agostinho, tudo isso revela um Lutero muito mais perturbado e perdido do que antes se imaginava. Em seu questionamento das próprias naturezas de Cristo e a estrutura da Trindade, Lutero é muito mais problemático do que antes se pensava, pois seus ataques à fé ocorrem em um nível muito mais fundamental do que indulgências e purgatório.

E sendo assim, qual o efeito disso nas relações luterano-católicas? As estranhas idéias de Lutero são algo com o qual os católicos podem dialogar? É claro que Lutero não é o Luteranismo e a maioria dos luteranos de hoje se envergonharia de professar as idéias de Lutero como próprias. Ainda assim, mesmo que o Luteranismo moderno tenha se distanciado do "delírio maniqueu" de Lutero, não deixa de ser verdade que a maneira na qual uma coisa começou determina seu curso. Os eruditos católicos e todos os católicos envolvidos em esforços evangélicos ou "diálogo" com luteranos fariam bem em se educar a respeito desse lado até então desconhecido de Martinho Lutero."

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Mons. Richard Williamson sobre o deicídio cometido pelos judeus

 Mons. Richard Williamson sobre o deicídio cometido pelos judeus

“Em seu segundo volume sobre a vida de Jesus, publicado muitos meses atrás, o Papa Bento XVI fez comentários que levaram jornalistas a concluírem apressadamente que não se devia mais apontar os judeus como responsáveis por deicídio, i. e., pelo assassinato de Deus. Pior ainda, a 17 de maio, o Diretor Executivo do Secretariado da Comissão Episcopal de Relações Ecumênicas e Inter-religiosas dos Estados Unidos disse que quem quer que acuse os judeus de deicídio, em qualquer momento da história, deixa de estar em comunhão com a Igreja Católica. Ao contrário do que muitas pessoas hoje querem acreditar, é hora de lembrar, ainda que brevemente, o que a Igreja sempre costumava ensinar sobre o assassinato judicial de Jesus.

Primeiro, o assassinato de Jesus foi verdadeiramente “deicídio”, i. e., assassinato de Deus, porque Jesus foi das três Pessoas Divinas a que, para além de Sua natureza divina, assumiu uma natureza humana. Que é que foi morto na Cruz? Somente a natureza humana. Mas quem é que foi morto na Cruz em Sua natureza humana? Ninguém senão a segunda Pessoa Divina, i. e., Deus. Portanto, matou-se a Deus, e deicídio se cometeu.

Segundo, Jesus morreu na Cruz para salvar-nos a todos nós, seres humanos pecadores, de nossos pecados, e nesse sentido todos os homens foram e são motivo da Sua morte. Mas somente os judeus (líderes e povo) foram os agentes primeiros do deicídio, porque é óbvio pelos Evangelhos que o gentio que mais se envolveu nos fatos, Pôncio Pilatos, jamais teria condenado Jesus à morte se os líderes judeus não tivessem incitado o povo judeu a clamar por Sua crucifixão (Mt. XXVII, 20). Certamente os líderes instruídos foram mais culpados que o povo ignorante, diz Santo Tomás de Aquino (Summa III, 47, 5), mas todos eles bradaram juntos para que o sangue de Jesus lhes caísse sobre si e sobre seus filhos (Mt. XXVII, 25).

Terceiro, pelos menos o Papa Leão XIII considerou existir uma real solidariedade entre os judeus que clamavam pela morte de Jesus e o conjunto dos judeus dos tempos modernos. No seu Ato de Consagração do Gênero Humano ao Sagrado Coração de Jesus, não fez ele com que toda a Igreja, do fim do século XIX em diante, rezasse a Deus para que tornasse os Seus “olhos de misericórdia para os filhos daquela raça, que certa vez foram o povo escolhido de Deus: de há muito que eles clamaram sobre si o Sangue do Salvador; possa agora descer sobre eles um batismo de redenção e vida”?

Mas Leão XIII não está sozinho em observar uma tal continuidade dos judeus ao longo dos séculos. Eles mesmos não exigem hoje a terra da Palestina com o fundamento de lhes pertencer por direito concedido pelo Deus do Velho Testamento? Já existiu sobre a face da terra uma raça-povo-nação que mais orgulhosamente se reputasse idêntica através dos séculos?

Originalmente criada por Deus para ser berço do Messias, recusou-se coletivamente – que infelicidade! – a reconhecê-lo quando ele veio. Também coletivamente, embora sempre existam nobres exceções, eles se mantiveram fiéis àquela rejeição, alterando sua religião da de Abraão e Moisés e do Velho Testamento para a de Anás, Caifás e do Talmude. De maneira trágica, sua própria preparação messiânica dada por Deus levou-os a rejeitarem aquele que consideram como um falso messias. Até sua conversão no fim do mundo, como a Igreja sempre ensinou que lhes acontecerá (cf. Rom. XI, 26-27), parecem estar obrigados a escolherem continuar agindo, coletivamente, como inimigos do verdadeiro Messias.
Como é possível que Bento XVI tenha perdido verdades tão antigas?”

(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Ancestral Pride


O amor é veraz, é verídico, é essencialmente amigo da verdade.

 O amor é veraz, é verídico, é essencialmente amigo da verdade.


"O amor, o verdadeiro amor advinha, penetra, descobre, simpatiza, faz suas as aflições do outro, dá ao outro suas próprias alegrias. 

É compreensivo. Mas não é compreensivo no sentido que se dá a esse vocábulo, quando quer significar uma tolerância que fecha os olhos. Não. 

O amor verdadeiro é compreensivo num sentido maior, que não fecha os olhos, mas que também não fecha o coração. Vê as falhas do outro, vê as misérias do outro, com uma generosa inquietação, com uma piedosa solicitude. Mas vê. Vê com amor. Mas vê. 

E é nessa visão que ele encontra as forças de paciência para os dias difíceis, e que se defende das amargas decepções. A miséria, o defeito, a falha, apresentados pelo amor, conservam sempre a dignidade do contexto em que foram apreendidos, sem sacrifício da veracidade. Porque o amor é veraz, é verídico, é essencialmente amigo da verdade. E como compete à razão guiar a alma nos caminhos da verdade, segue-se com lógica irresistível que a razão é o piloto do amor."

Gustavo Corção
(Amor, casamento, divórcio, A Ordem fev/52)

Remédios Contra as Pequenas Tentações

Remédios Contra as Pequenas Tentações

Desprezai aquelas escaramuças do inimigo; não mais se vos dê por elas, que pelas moscas a voar e zunir em roda. Tanto, porém, que lhe sintais alguma ponta, seja-vos bastante despedi-las simplesmente, ocupando-vos ora interior ora exteriormente em alguma coisa boa, mormente em amor de Deus.

Em tendo lazer para notar a qualidade da tentação e opor-lhe algum ato de virtude diretamente contrária, acrescentar um olhar singelo do Coração para Jesus Cristo crucificado e beijai-Lhe os pés, em espírito, com muito amor: este é o meio verdadeiro de vencer as pequenas tentações, e também as grandes. Encerrando, com efeito, o amor de Deus as perfeições de todas as virtudes; é por isso mesmo o soberano remédio contra todos os vícios: depressa foge o maldito, mal percebe que só servem as suas sugestões para levar-nos ao exercício do amor de Deus. É esta a regra contra aquelas tentações miúdas e frequentes, que não há prestar-lhes atenção nem combatê-las uma por uma; seria muito trabalho e nenhum proveito.

Excerto do Goffiné, pág. 352


Sidney Silveira: A impermeabilidade do Amor – ou “por que sou católico”

Sidney Silveira: A impermeabilidade do Amor – ou “por que sou católico”

“Ao frisar que o amor é o ato perfeito e supremo da vontade, aponto para a liberdade das ações amorosas, pois ninguém é, nem pode ser, coagido a amar. Da mesma maneira, nenhuma pessoa deixa de amar sob ameaça — ainda que submetida a lancinantes torturas psicológicas, ou mesmo físicas. Se um hipotético sujeito encostasse o cano frio duma pistola 9mm nas têmporas de outro e dissesse “Deixa de amar a tua mãe agora, ou eu te mato!”, nem assim teria o condão de fazer valer o fortíssimo argumento da arma de fogo, pois na prática o amor é realidade impermeável a tiranias de qualquer tipo. A total intangibilidade do amor assegura-lhe a liberdade, à qual podemos atribuir o caráter de infinitude fazendo uso do grandioso instrumento metafísico da analogia entis. Em breves palavras, o amor é a vontade no exercício translúcido e pleno de sua mais absoluta impenetrabilidade.


Se o amor se transforma em hábito, podemos dizer que a liberdade humana realizou-se superiormente. Mas ninguém chega a tal ápice sem vencer obstáculos inescapáveis, como por exemplo tentações, fraquezas, ignorância. A famosa e bela máxima de Plutarco segundo a qual “nem Deus pode dar nem o homem pode receber nada mais excelente que a verdade” vale ainda mais para o amor, pois este não é outra coisa senão a verdade em ato assimilada pela inteligência e querida pela vontade. Em suma, no amor dá-se a comunhão destas duas potências superiores da alma na escolha efetiva do bem. Por isso, as ações humanas ou se orientam a abarcar os transcendentais verum e bonum, ou se degradam progressivamente.
 
Porque sem verdade e sem bondade o amor se transforma na mais cabal das impossibilidades, cedo ou tarde.

Se o universo das relações afetivas de uma pessoa não possui o vetor amoroso, logo ela cai na degradação moral da inconstância, da tibieza, da falsidade. Ao contrário, quem ama acaba por se tornar constante, forte e veraz. O “sim” e o “não” do verdadeiro amante não obedecem a condicionamentos acidentais, ao contrário do “sim” e do “não” de homens que se colocaram culpavelmente em situação de desamor. Estes agem de acordo com momentâneas conveniências, razão pela qual não são confiáveis em hipótese nenhuma. Na realidade, eles pioraram por não amar, e jamais poderão culpar a quem quer que seja por isto. Não há desculpas nem justificativas para a simulação de auto-indulgência que culmina em maldade.

No sentido sublime aqui aludido, nenhum homem é capaz de, sem o auxílio divino, amar. E tal auxílio não vem de outro modelo senão do próprio Verbo Encarnado — que nos revelou de maneira cristalina e objetiva o caminho, a verdade, a vida. Quando penso, pois, por que sou católico, penso nisto: o amor em estado puro dá-Se a mim por completo, sem que eu mereça. Faz-Se humildemente tangível para elevar-me a uma condição superior, intangível.

A Sua entrega benevolente não conhece condicionamentos. Ela não é mérito meu, nem apetite d’Ele. É libérrima e eficacíssima.

Jamais conseguirei, nesta vida, fazer jus ao amor perfeito de que sou objeto. Amor que honra o desonrado e dignifica o indigno. Que perdoa o imperdoável e eleva o vil. Amor absolutamente impermeável a todos os seus possíveis contrários. E por isso mesmo eterno.

Até nas ocasiões em que, ritualmente, desce ao tempo na forma de hóstia viva e se faz Presença Real, fonte infinita de bens.”

http://contraimpugnantes.blogspot.com.br

O catolicismo é uma religião de combate

 O catolicismo é uma religião de combate

“E não me digas que não queres combater; porque no instante mesmo em que mo dizes, estás combatendo; nem que ignoras para que lado te inclinares, porque no momento mesmo em que isso dizes, já te inclinaste para um lado; nem me afirmes que queres ser neutro, porque quando pensas sê-lo, já não o és; nem me assegures que permanecerás indiferente, porque te desprezarei, dado que, ao pronunciares essa palavra, já tomaste teu partido. Não te canses em buscar asilo seguro contra os açoites da guerra, porque te cansas em vão; essa guerra se expande tanto como o espaço, e se prolonga tanto como o tempo. Só na eternidade, pátria dos justos, podes encontrar descanso; porque só ali não há combate; não presumas, contudo, que se abram para ti as portas da eternidade se não mostras antes as cicatrizes que levas; aquelas portas não se abrem senão para os que combateram aqui os combates do Senhor gloriosamente, e para os que vão, como o Senhor, crucificados.”

(Juan Donoso Cortés, Ensayo sobre el Catolicismo, Liberalismo y Socialismo)


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Conhecimento e ignorância

 Conhecimento e ignorância

“O conhecimento das letras é bom para a instrução, mas o conhecimento da própria fraqueza é mais útil para a salvação.


I

“Aqui estou para cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou, também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.
Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.

Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia. Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso, corro o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego. Ajudai-me, pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é necessário e, com minha conduta, praticar o que prego.

Tinha-vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são perdição.

Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a salvação.

Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?

Também são muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1,5). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na terra.

Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).

II

Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.

Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3).

Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I Cor 8, 1).
E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1, 18).

Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E não duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque, se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é procurada.

Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede, recebe" (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6). E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).

O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve. Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e tremor a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.

Acaso não dizem os médicos do corpo que parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não observas o modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos alimentos.

III

Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta sentença, mas d'Ele; ou antes, é nossa porque a aprendemos d'Aquele que é a Verdade. E diz: "Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber" (I Cor 8,2).

Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber consiste no modo de saber.

Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a ordem, o amor e o fim devidos?

Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário para a salvação; segundo o amor, isto é, voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.

Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.

Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1, 27).

Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.

Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.

IV

De todos estes que buscam o conhecimento, só os dois últimos não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para praticar o bem. Deles é que fala o salmo: "O saber é bom para quem o põe em prática" (Sl 111, 10). Os demais devem ouvir a Escritura: "Quem conhece o bem e não o pratica, comete pecado" (Tg 4, 17).

É como se, numa comparação, disséssemos: tomar alimento e não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal cozinhado, produz maus humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o. Assim também pode dar-se o caso de o estômago da alma, que é a memória, ingerir muitos conhecimentos que não foram cozinhados pelo fogo do amor e nem passaram para ser elaborados pelo aparelho digestivo da alma (no caso, os atos e costumes), a fim de que a alma se torne boa pelo bom conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos costumes). E acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal como um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus humores do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a sofrer de inchaços e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o pratica?

Acaso não se lhe aplicará a sentença de morte e condenação, toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: "O servo, que conhece a vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se digno de muitos açoites" (Lc 12,47)?

E não será em nome desta alma, o pranto do profeta (Jer 4,19): "Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas"? Gemidos geminados que - salvo outra interpretação - apontam para o que dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber, inflamado de amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não encontrou quem se interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o peso de um saber que não pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor da Igreja, tanto por aqueles que menosprezam a busca do saber que dirige o bem viver, como pelos que, embora sabendo, no entanto, vivem mal. E, por isso, o profeta repete seu lamento.

V

Compreendes agora quão verdadeira é a sentença do Apóstolo: "O saber incha"? Por isso, convém que a alma antes se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade.

Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na humildade não se agüenta em pé.

E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.

Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria - uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para as virtudes?

Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl 41,5). Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.
VI
Eu, quando olho para mim mesmo, fico imerso em amargura; logo, porém, que alço a vista para o auxílio da misericórdia divina, suaviza-se meu amargor com a alegria da visão de Deus e Lhe digo: "Minha alma está conturbada interiormente, por isso me lembro de Ti" (Sl 42,7).
Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é próprio d'Ele perdoar e ter misericórdia sempre.
Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me glorificarás" (Sl 50,15).

Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.

VII

Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?

(Neste momento, o auditório murmura: "Não, não!").

Fizestes bem de indicar-me o "não" absoluto de vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo... Nem vale a pena continuar falando sobre o óbvio.
Mas, prestai atenção a um outro ponto...

Ou será melhor parar, por causa dos que já estão pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que tinha prometido: falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me parecesse que este discurso já está demasiadamente longo para os que o acham cansativo. E vejo alguns bocejando e outros dormitando. E não é de admirar, pois a longuíssima vigília de oração que tivemos hoje os desculpa.

O que direi, porém, daqueles que dormem agora, mas dormiram também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero, porém, levar isto adiante e envergonhá-los, baste ter mencionado o fato... Penso que de hoje em diante cuidarão de estar atentos, advertidos que foram pela nossa correção.

Com esta esperança e em atenção a eles, em vez de continuar, partamos, suspendendo por clemência o discurso, e demos-lhe fim, embora não tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez, tendo sido objeto de nossa compreensão, associem-se a nós em glorificar o Esposo da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém.”

(São Bernardo de Claraval, Sermão sobre o Conhecimento e a Ignorância)

Tradução de Luiz Jean Lauand


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