quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Da dilação da penitência

      Da dilação da penitência


Não pode o pecador contar com a penitência no fim da vida? 

Não!, diz S. Agostinho, que a ordinária punição dos presumidos na misericórdia divina é esquecerem-se de si na enfermidade, depois de se terem esquecido de Deus em saúde.

“Voltaram-me as costas, e não o rosto, e dirão no tempo da aflição: Levantai-vos e livrai-nos! Onde estão os teus deuses que fabricaste para ti? Levantem-se e te livrem no tempo da aflição”! (Jer. 2, 27-28).

Referem as Sagradas letras o consolador exemplo da tardia conversão do bom ladrão, para que não desespere pecador algum; porém, nota S. Agostinho, é este só, para que ninguém seja temerário de diferir[1] a penitência.  

Que conceito devemos fazer dos que só na hora da morte se convertem? 

Muito bom e favorável [conceito], se for verdadeira a conversão; mas é coisa rara, mui rara. “De cem mil pessoas”, diz S. Jerônimo, “que vivem na impiedade, uma talvez haverá que se converta deveras na hora da morte e alcance o perdão”! Entende S. Vicente Ferrer que a boa morte depois de má vida é milagre maior que a ressurreição de um morto! 

E não há em isto [nada a] estranhar; porquanto a penitência no fim da vida é, por via de regra, forçada; não é o pecador que deixa o pecado, senão o pecado ao pecador, que não tratara este da emenda se o não obrigasse a morte. Nestas condições, que podemos esperar? 

Quando, pois, deve ser a penitência?

Quando estamos em saúde, no pleno gozo das nossas faculdades; “pois”, diz S. Agostinho, “também é enferma a penitência do enfermo”. Mostra a experiência que os achaques, os remorsos da consciência, os assaltos do demônio, o cuidado da família etc., de tal modo vexam o doente e o atormentam e lhe perturbam o espírito que mal pode ele pensar em séria penitência. Se tanto custa a alguns a penitência quando sadios e que nada lhes estorva o levantar o espírito a Deus, quanto mais custosa se lhes tornará quando estiverem com o corpo e espírito debilitados pela moléstia!

Vários doentes declaram, depois de restabelecidos, que de nada se lembram do que se deu com eles no tempo da doença e que não têm consciência de terem recebido os Sacramentos como lhes afirmam. 

“Buscai o Senhor, enquanto se pode achar; invocai-O enquanto está perto” (Is 55, 6). “Tempo virá em que me buscareis e não me achareis... e morrereis no vosso pecado” (Jo 7, 34; 8, 21). Anda, pecador, não agraves com novas ofensas o peso já grande dos teus pecados; acode prontamente, hoje mesmo, ao tribunal da reconciliação; hoje, pois o amanhã não é teu; com as delongas esvaem-se as forças e crescem as do inimigo; não te rias de Deus, que de ti rir-se-ia na hora que Ele sabe; “Ridebo et subsannabo”[2]! (Prov I, 26).

Nota: 
1. Diferir significa adiar. Não é nada inteligente. Ninguém sabe quando e como morrerá, se terá tempo e disposição, consciência e vontade de se reconciliar com Deus. 
2. Rirei ezombarei de vós.

Extraído do Manual do Cristão, de Goffiné, in IX Dominga depois de Pentecostes. Sacristia da Imaculada Conceição, 15ª edição, 225º milheiro, RJ, 1944, pp. 643-645.

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