domingo, 27 de outubro de 2024

As três dificuldades dos intelectuais

 As três dificuldades dos intelectuais

“Identifico três tipos de dificuldade nos intelectuais que têm impedido praticamente todos eles de fazerem análises aceitáveis da realidade. Não me refiro a dificuldades relativas à aquisição de conhecimento mas a algo que está para além disso.

1. Sinceridade

Esta é uma dificuldade permanente na vida intelectual de todos os tempos. A sinceridade não depende apenas de uma decisão ou disposição mas é uma conquista que depende do aprofundamento da auto-consciência e do domínio da linguagem. Isto não está apenas nas mãos do indivíduo, porque se ele nasceu numa época ou num meio em que a linguagem é pobre, então, o seu nível de sinceridade é baixo porque ele não tem à sua disposição os instrumentos que lhe permitam descrever os seus estados internos ou as situações que pretende analisar.

2. Mentira e falsificação

Quando surgiram os instrumentos para conseguir fazer uma descrição mais sincera da realidade, ao mesmo tempo esses instrumentos podiam ser usados para a falsificação. De certa forma, este é o tema do ‘Górgias’, de Platão. O problema voltou a ressurgir em Roma e depois na Renascença, em que o mundo passou a ser visto como um teatro, mas algo muito pior estava ainda por vir com a emergência do discurso ideológico, sobretudo a partir do século XIX. A ideologia é uma elaboração de um discurso que oferece uma cosmovisão que dá respostas a todas as questões. O intelectual que adere a uma ideologia tem o seu trabalho imensamente facilitado (e fica logo integrado numa rede de influências), mas tem de negar sistematicamente a realidade, pelo menos naquilo que esta contraria a ideologia.

O problema não afecta somente aqueles que aderem formalmente a uma ideologia, porque pedaços das várias cosmovisões ideológicas ficam espalhados na cultura e aparecem como mero “bom-senso”, que nós usamos como lentes para enxergar a realidade sem perceber que estamos a ver tudo distorcido.

3. Coragem intelectual

De certa forma, a coragem intelectual (que é a coragem propriamente humana) é também um problema “de sempre”, já identificado por Platão como uma virtude necessária para manter a justiça e a verdade. Contudo, o problema agudizou-se muito nas últimas décadas e sobretudo nos anos mais recentes. Para distinguir a problemática da coragem intelectual dos pontos anteriores (que também têm implícita a coragem), vou relacionar este ponto com as dificuldades em enfrentar os problemas concretos e próprios da época em que o intelectual vive.

Praticamente todos os intelectuais de hoje mostram duas deficiências gravíssimas: apenas falam daquilo que já faz parte do debate académico ou do “debate público” instituído pelos jornalistas; e nunca levam em conta as implicações psicológicas contidas em todas as grandes manobras políticas e ‘sociais’ das últimas décadas.

No primeiro caso, o intelectual orgulhoso do seu diploma teme ser repudiado pela academia ou de aparecer como um “estranho” face à opinião pública fabricada. Pouco interessa que esse intelectual mostre competência em temas eruditos ou que seja cristão e conservador, porque a sua omissão vai alimentar a espiral do silêncio e empobrecer mortalmente a vida cultural. A estratégia dos revolucionários em democracia conta precisamente com a existência destes intelectuais “moderados” – que na realidade são cobardes – para validar os temas que eles mesmo colocam em pauta e que nunca deviam ter sido aceites como legítimos.

A falta de acuidade psicológica de quase todos os intelectuais é realmente confrangedora. Só um exemplo: na questão do “Brexit” as discussões andam à volta de economia ou de soberania, contudo, a principal efeito da permanência na União Europeia foi uma alteração sem precedentes na psicologia das populações e dos próprios intelectuais (a tão propalada riqueza cultural da Europa está seriamente ameaçada porque os povos perderam muito rapidamente identidade e passaram a reagir de forma assustadoramente uniforme e sempre de acordo com o politicamente correcto).

Existe forma de obter esta acuidade psicológica, mas para isso os intelectuais teriam de sair da sua “zona de conforto”, como se costuma dizer hoje. A auto-consciência é trabalhada em várias áreas – confissão, práticas ascéticas e místicas, artes marciais, alguns tipos de psicoterapia – mas há também riscos, porque nestas coisas há muitos charlatães e gente até perigosa. Mas aquele que quer ser um intelectual de verdade é como se estivesse tentando pertencer a uma elite guerreira, não é para ser carreirista ou algo do género, portanto, é alguém que tem que se arriscar a ir a onde outros não se atrevem.”

(Mário Chainho, As Três Dificuldades dos Intelectuais, e Uma Nota sobre Nacionalismo)

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