domingo, 29 de dezembro de 2024

Non confundar in aeternum


“Deus é Ser infinito, Verdade infinita, Bondade infinita, infinitamente justo e infinitamente misericordioso. Assim ensina a Igreja, e a idéia é grandiosa e bela, portanto não tenho nenhuma objeção. Mas aí eu descubro que a Igreja também ensina que por causa de somente um único pecado mortal a alma pode ser condenada por toda a eternidade a sofrimentos severos e cruéis além da imaginação, e isso não é muito atraente. Eu começo a objetar.


Por exemplo, eu nunca fui consultado antes que meus pais decidissem me trazer à existência, nem fui consultado a respeito dos termos do contrato, por assim dizer, de minha existência. Se tivesse sido consultado, eu bem poderia objetar a uma alternativa tão extrema entre a felicidade inimaginável e o tormento inimaginável como ensina a Igreja, ambos sem fim. Eu poderia aceitar um “contrato” mais moderado, pelo qual em troca de um Céu de curta duração eu enfrentaria somente o risco de um Inferno abreviado, mas não fui consultado. Uma infinidade de qualquer deles me parece fora de proporção com esta breve vida minha sobre a terra: 10, 20, 50 ou até mesmo 90 anos estão aqui hoje e acabam-se amanhã. Toda a carne é como a relva – “que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca” (Sal LXXXIX, 6). Por essa linha de pensamento Deus parece ser tão injusto que eu seriamente chego a duvidar que ele realmente exista.

O problema nos obriga a refletir. Suponhamos que Deus exista; que ele seja tão justo quanto a Igreja diz que é; que seja injusto impor sobre alguém um fardo pesado sem o consentimento dessa pessoa; que esta vida seja breve, um simples sopro de fumaça comparado com o que a eternidade deve ser; que ninguém possa ser justamente condenado a um castigo terrível se não tiver consciência de haver cometido um crime terrível. Então como pode o suposto Deus ser justo? Se ele for justo, então logicamente toda alma que atinja a idade da razão deve viver bastante para pelo menos ter idéia da escolha eterna que está fazendo, e da conseqüência de tal escolha. No entanto, como isso pode acontecer, por exemplo, no mundo de hoje, onde Deus é tão universalmente abandonado e desconhecido na vida dos indivíduos, famílias e Estados?

A resposta só pode ser que Deus vem antes de indivíduos, famílias e Estados, e que ele “fala” dentro de toda alma, antes de todos os seres humanos e independentemente de todos eles, de modo que mesmo uma alma cuja educação religiosa tenha sido nula ainda tem idéia de estar fazendo uma escolha a cada dia de sua vida, que só ela está fazendo aquela escolha, e que a escolha tem conseqüências tremendas.

Mas outra vez, como é que isso pode acontecer, dada a impiedade de um mundo como o nosso atual?

Porque a “fala” de Deus às almas é muito mais profunda, mais constante, mais presente e mais atraente do que jamais poderá ser a fala de qualquer homem ou outro ser. Só ele criou nossa alma. Ele continuará a criá-la em cada momento de sua existência sem fim. Ele é portanto mais íntimo dela em cada momento seu do que até mesmo seus pais que simplesmente montaram seu corpo – dos elementos materiais cuja existência é mantida somente por Deus. E a bondade de Deus está da mesma forma atrás e dentro e embaixo de toda coisa boa que acontecer à alma nesta vida, e no fundo a alma está consciente de que todas essas coisas boas são meras derivações da infinita bondade de Deus. “Fique quieta”, diz Santo Inácio de Loiola a uma pequena flor, “eu sei de quem você está falando”. O sorriso de uma criancinha, o esplendor diário da Natureza a cada instante do dia, música, todo céu uma obra-prima da arte e assim por diante – mesmo se amadas com um amor profundo, essas coisas dizem à alma que existe algo muito maior, ou – Alguém.

“Junto de vós, Senhor, me refugio, não seja eu confundido para sempre” (Sal XXX, 2).”

(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Flowers Speak)

sábado, 28 de dezembro de 2024

Meditação de Santo Afonso de Ligório sobre o Juízo Final


“Considera que tão logo a alma saia do corpo será conduzida para diante do tribunal do Senhor Deus, para ser julgada. O Juiz é um Deus Onipotente, por ti maltratado, e encolerizado. Teus acusadores são os demônios inimigos; os processos são teus pecados; a sentença sem apelo; a pena o inferno... Não existem mais companheiros, parentes, amigos...

Deverás ter-te com Deus. Então perceberás a feiúra de teus pecados e não poderás desculpá-los como agora fazes. Serás examinado a respeito de teus pecados por pensamentos, por palavras, por complacência, por obras, por omissões e escândalos. Tudo será pesado na grande balança da Justiça Divina e se faltares em algo estarás perdido.

“Meu Jesus e meu juiz, perdoa-me antes de julgar-me”.

Considera como a Divina Justiça há de julgar toda a gente no vale de Josafá, quando (no fim do mundo) ressuscitarão os corpos para receber, junto com a alma, o prêmio ou a pena. Reflete que se fores danado pegarás de volta teu mesmo corpo que, então, servira de prisão para tua alma desventurada. Na ocasião deste amargo encontro a alma amaldiçoará o corpo e o corpo à alma, de maneira que a alma e o corpo, que agora concordam entre si na procura de prazeres proibidos, unir-se-ão à força, depois da morte, para serem verdugos de si mesmos. Se te salvares do dito encontro, teu corpo ressurgirá belo, impassível e resplandecente: e assim em corpo e alma serás digno da vida beata. E assim acabará tua cena neste teatro da vida. Acabar-se-ão todas as riquezas, os prazeres, as pompas desta terra; tudo acabou. Somente existem duas eternidades, uma de glória e outra de pena; uma bem-aventurada e outra infeliz: uma de alegrias, outra de tormentos. No Paraíso os justos, no inferno os pecadores. Pobre daquele que tiver amado o mundo e por causa dos míseros prazeres desta terra tudo terá perdido: a alma, o corpo, o paraíso e Deus.

Considera a eterna sentença. Cristo Jesus voltar-se-á contra os réprobos e a eles dirá: Acabastes? Já minha hora chegou, hora de verdade e de justiça, hora de desdém e de vingança. Eia, celerados, vós amastes a maldição, que ela caia sobre vós: Que vós sejais malditos nos tempos, malditos por toda a eternidade. Saí da minha frente, ide, privados de quaisquer bens e carregados de todas as penas, para o fogo eterno”. “Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum” (Mt 25,41). Depois Jesus se voltará para os eleitos e dirá:

“Vinde, filhos meus benditos, possuir o reino dos céus posto para vós. Vinde para ser herdeiros das minhas riquezas, companheiros de minha glória; vinde cantar, em eterno, as minhas misericórdias; vinde do exílio à Pátria, das misérias à alegria; vinde das lágrimas ao riso, vinde das penas ao eterno repouso: “Venite, benedicti Patris Mei, possidete paratum vobis regnum” (Mt 25,34)”. “Jesus meu, espero, eu também, ser um destes benditos. Eu Vos amo acima de todas as coisas; desta hora em diante bendizei-me; e bendizei-me Vós, Maria minha Mãe”.”




Os nazistas copiaram de Marx

 Os nazistas copiaram de Marx

“O marxismo afirma que a forma de pensar de uma pessoa é determinada pela classe a que pertence. Toda classe social tem sua lógica própria. Logo, o produto do pensamento de um determinado indivíduo não pode ser nada além de um "disfarce ideológico" dos interesses egoístas da classe à qual ele pertence. A tarefa de uma "sociologia do conhecimento", segundo os marxistas, é desmascarar filosofias e teorias científicas e expor o seu vazio "ideológico". A economia seria um expediente "burguês" e os economistas são sicofantas do capital. Somente a sociedade sem classes da utopia socialista substituirá as mentiras "ideológicas" pela verdade.

Este polilogismo, posteriormente, assumiu várias outras formas. O historicismo afirma que a estrutura lógica da ação e do pensamento humano está sujeita a mudanças no curso da evolução histórica. O polilogismo racial atribui a cada raça uma lógica própria.
O polilogismo, portanto, é a crença de que há uma multiplicidade de irreconciliáveis formas de lógica dentro da população humana, e estas formas estão subdivididas em algumas características grupais.

Os nazistas fizeram amplo uso do polilogismo. Mas os nazistas não inventaram o polilogismo. Eles apenas criaram seu próprio estilo de polilogismo.

Até a metade do século XIX, ninguém se atrevia a questionar o fato de que a estrutura lógica da mente era imutável e comum a todos os seres humanos. Todas as interrelações humanas são baseadas nesta premissa de que há uma estrutura lógica uniforme. Podemos dialogar uns com os outros apenas porque podemos recorrer a algo em comum a todos nós: a estrutura lógica da razão.

Alguns homens têm a capacidade de pensar de forma mais profunda e refinada do que outros. Há homens que infelizmente não conseguem compreender um processo de inferência em cadeias lógicas de pensamento dedutivo. Mas, considerando-se que um homem seja capaz de pensar e trilhar um processo de pensamento discursivo, ele sempre aderirá aos mesmos princípios fundamentais de raciocínio que são utilizados por todos os outros homens. Há pessoas que não conseguem contar além de três; mas sua contagem, até onde ele consegue ir, não difere da contagem de Gauss ou de Laplace. Nenhum historiador ou viajante jamais nos trouxe nenhuma informação sobre povos para quem A e não-A fossem idênticos, ou sobre povos que não conseguissem perceber a diferença entre afirmação e negação. Diariamente, é verdade, as pessoas violam os princípios lógicos da razão. Mas qualquer um que se puser a examinar suas deduções de forma competente será capaz de descobrir seus erros.

Uma vez que todos consideram tais fatos inquestionáveis, os homens são capazes de entrar em discussões e argumentações. Eles conversam entre si, escrevem cartas e livros, tentam provar ou refutar. A cooperação social e intelectual entre os homens seria impossível se a realidade não fosse essa. Nossas mentes simplesmente não são capazes de imaginar um mundo povoado por homens com estruturas lógicas distintas ente si ou com estruturas lógicas diferentes da nossa.

Mesmo assim, durante o século XIX, este fato inquestionável foi contestado. Marx e os marxistas, entre eles o "filósofo proletário" Dietzgen, ensinaram que o pensamento é determinado pela classe social do pensador. O que o pensamento produz não é a verdade, mas apenas "ideologias". Esta palavra significa, no contexto da filosofia marxista, um disfarce dos interesses egoístas da classe social à qual pertence o pensador. Por conseguinte, seria inútil discutir qualquer coisa com pessoas de outra classe social. Não seria necessário refutar ideologias por meio do raciocínio discursivo; ideologias devem apenas ser desmascaradas, denunciando a classe e a origem social de seus autores. Assim, os marxistas não discutem os méritos das teorias científicas; eles simplesmente revelam a origem "burguesa" dos cientistas.

Os marxistas se refugiam no polilogismo porque não conseguem refutar com métodos lógicos as teorias desenvolvidas pela ciência econômica "burguesa"; tampouco conseguem responder às inferências derivadas destas teorias, como as que demonstram a impraticabilidade do socialismo. Dado que não conseguiram demonstrar racionalmente a validade de suas idéias e nem a invalidade das idéias de seus adversários, eles simplesmente passaram a condenar os métodos lógicos. O sucesso deste estratagema marxista foi sem precedentes. Ele tornou-se uma blindagem contra qualquer crítica racional à pseudo-economia e à pseudo-sociologia marxistas. Ele fez com que todas as críticas racionais ao marxismo fossem inócuas.

Foi justamente por causa dos truques do polilogismo que o estatismo conseguiu ganhar força no pensamento moderno.

O polilogismo é tão inerentemente ridículo, que é impossível levá-lo consistentemente às suas últimas consequências lógicas. Nenhum marxista foi corajoso o suficiente para derivar todas as conclusões que seu ponto de vista epistemológico exige. O princípio do polilogismo levaria à inferência de que os ensinamentos marxistas também não são objetivamente verdadeiros, mas sim apenas afirmações "ideológicas". Mas isso os marxistas negam. Eles reivindicam para suas próprias doutrinas o caráter de verdade absoluta.

Dietzgen ensina que "as idéias da lógica proletária não são idéias partidárias, mas sim o resultado da mais pura e simples lógica". A lógica proletária não é "ideologia", mas sim lógica absoluta. Os atuais marxistas, que rotulam seus ensinamentos de sociologia do conhecimento, dão provas de sofrerem desta mesma inconsistência. Um de seus defensores, o professor Mannheim, procura demonstrar que há certos homens, os "intelectuais não-engajados", que possuem o dom de apreender a verdade sem serem vítimas de erros ideológicos. Claro, o professor Mannheim está convencido de que ele mesmo é o maior dos "intelectuais não-engajados". Você simplesmente não pode refutá-lo. Se você discorda dele, você estará apenas provando que não pertence à elite dos "intelectuais não-engajados", e que seus pensamentos são meras tolices ideológicas.

Os nacional-socialistas alemães tiveram de enfrentar o mesmo problema dos marxistas. Eles também não foram capazes nem de demonstrar a veracidade de suas próprias declarações e nem de refutar as teorias da economia e da praxeologia. Consequentemente, eles foram buscar abrigo no polilogismo, já preparado para eles pelos marxistas. Sim, eles criaram sua própria marca de polilogismo. A estrutura lógica da mente, diziam eles, é diferente para cada nação e para cada raça. Cada raça ou nação possui sua própria lógica e, portanto, sua própria economia, matemática, física etc. Porém, não menos inconsistente do que o Professor Mannheim, o professor Tirala, seu congênere defensor da epistemologia ariana, declara que a única lógica e ciência verdadeiras, corretas e perenes são as arianas. Aos olhos dos marxistas, Ricardo, Freud, Bergson e Einstein estão errados porque são burgueses; aos olhos dos nazistas, estão errados porque são judeus. Um dos maiores objetivos dos nazistas é libertar a alma ariana da poluição das filosofias ocidentais de Descartes, Hume e John Stuart Mill. Eles estão em busca da ciência alemã arteigen, ou seja, da ciência adequada às características raciais dos alemães.

Como hipótese, podemos supor que as capacidades mentais do homem sejam resultado de suas características corporais. Sim, não podemos demonstrar a veracidade desta hipótese, mas também não é possível demonstrar a veracidade da hipótese oposta, conforme expressada pela hipótese teológica. Somos forçados a admitir que não sabemos como os pensamentos surgem dos processos fisiológicos. Temos vagas noções dos danos causados por traumatismos ou por outras lesões infligidas em certos órgãos do copo; sabemos que tais danos podem restringir ou destruir por completo as capacidades e funções mentais dos homens. Mas isso é tudo. Seria uma enorme insolência afirmar que as ciências naturais nos fornecem informações a respeito da suposta diversidade da estrutura lógica da mente. O polilogismo não pode ser derivado da fisiologia ou da anatomia, e nem de nenhuma outra ciência natural.

Nem o polilogismo marxista e nem o nazista conseguiram ir além de declarar que a estrutura lógica da mente é diferente entre as várias classes ou raças. Eles nunca se atreveram a demonstrar precisamente no quê a lógica do proletariado difere da lógica da burguesia, ou no quê a lógica ariana difere da lógica dos judeus ou dos ingleses. Rejeitar a teoria das vantagens comparativas de Ricardo ou a teoria da relatividade de Einstein por causa das origens raciais de seus autores é inócuo. Primeiro, seria necessário desenvolver um sistema de lógica ariana que fosse diferente da lógica não-ariana. Depois, seria necessário examinar, ponto por ponto, estas duas teorias concorrentes, e mostrar onde, em cada raciocínio, são feitas inferências que são inválidas do ponto de vista da lógica ariana mas corretas do ponto de vista não-ariano. E, finalmente, seria necessário explicar a que tipo de conclusão a substituição das erradas inferências não-arianas pelas corretas inferências arianas deve chegar. Mas isso jamais foi e jamais será tentado por ninguém. Aquele gárrulo defensor do racismo e do polilogismo ariano, o professor Tirala, não diz uma palavra sobre a diferença entre a lógica ariana e a lógica não-ariana. O polilogismo, seja ele marxista ou nazista, jamais entrou em detalhes.

O polilogismo possui um método peculiar de lidar com opiniões divergentes. Se seus defensores não forem capazes de descobrir as origens e o histórico de um oponente, eles simplesmente taxam-no de traidor. Tanto marxistas quanto nazistas conhecem apenas duas categorias de adversários. Os alienados — sejam eles membros de uma classe não-proletária ou de uma raça não-ariana — estão errados porque são alienados. E os opositores que são de origem proletária ou ariana estão errados porque são traidores. Assim, eles levianamente descartam o incômodo fato de que há divergências entre os membros daquela que dizem ser sua classe ou sua raça.

Os nazistas gostam de contrastar a economia alemã com as economias judaicas e anglo-saxônicas. Mas o que chamam de economia alemã não difere em nada de algumas tendências observadas em outras economias. A economia nacional-socialista foi moldada tendo por base os ensinamentos do genovês Sismondi e dos socialistas franceses e ingleses.

Alguns dos mais velhos representantes desta suposta economia alemã apenas importaram idéias estrangeiras para a Alemanha. Frederick List trouxe as idéias de Alexander Hamilton à Alemanha; Hildebrand e Brentano trouxeram as idéias dos primeiros socialistas ingleses. A economia alemã arteigen é praticamente igual às tendências contemporâneas observadas em outros países, como, por exemplo, o institucionalismo americano.

Por outro lado, o que os nazistas chamam de economia ocidental — e, portanto, artfremd [estranho à raça] — é em grande medida uma conquista de homens a quem que nem mesmo os nazistas podem negar o termo 'alemão'. Os economistas nazistas gastaram muito tempo pesquisando a árvore genealógica de Carl Menger à procura de antepassados judeus; não conseguiram. É um despautério querer explicar o conflito que há entre a genuína teoria econômica e o institucionalismo e o empiricismo histórico como se fosse um conflito racial ou nacional.

O polilogismo não é uma filosofia ou uma teoria epistemológica. É apenas uma postura de fanáticos de mentalidade estreita que não conseguem conceber que haja pessoas mais sensatas ou mais inteligentes que eles próprios. Tampouco é o polilogismo algo científico. Trata-se da substituição da razão e da ciência pela superstição. É a mentalidade característica de uma era caótica.”

(Ludwig von Mises, Omnipotent Government: The Rise of Total State and Total War)

Pe. Paul Kramer - infalibilidade das canonizações

 Pe. Paul Kramer - infalibilidade das canonizações

“A opinião de que as canonizações são infalíveis é um desenvolvimento moderno. Não é ensinamento oficial e obrigatório da Igreja que as canonizações sejam infalíveis – continua sendo uma opinião para uma questão aberta. Santo Tomás de Aquino diz que pode ser “crido piamente” que os canonizados são santos, e existe certeza moral de que são realmente santos quando os procedimentos jurídicos de canonização são seguidos do início ao fim no processo de canonização. Os padrões jurídicos e procedimentos foram parcialmente dispensados na canonização do fundador da Opus Dei, Escrivá – um santo de segunda classe, no máximo.

Apesar de tudo, ‘obrigatório’ e ‘infalível’ são duas coisas diferentes. O que é infalível é de fé católica e divina, deve ser acreditado com assentimento de fé. O que é simplesmente obrigatório, mas não infalivelmente obrigatório, é, de acordo com o ensinamento católico, apenas condicionalmente obrigatório; desta forma, se houver razões válidas para dúvida positiva em um caso particular, deve-se suspender o assentimento.

É no máximo condicionalmente obrigatório que um determinado santo canonizado seja realmente digno de santidade. Que a canonização seja infalível jamais foi estabelecido definitivamente pelo supremo magistério, ou pelo magistério universal e ordinário, e é portanto sem sombra de dúvida uma questão aberta na melhor das hipóteses, mas, em última análise, certamente ‘não infalível’.”




sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Credo da Nova Ordem

 Credo da Nova Ordem

Pode-se rezar este novo Credo escrito segundo a nova religião do Vaticano II se se quiser adorar a Besta:

“Cremos em um só Deus, o mesmo dos protestantes, judeus, feiticeiros, pagãos etc, Pai/Mãe Todo(a)-Poderoso(a), que pode ter criado o céu e a terra, mas temos outras opções, também cremos na evolução porque os ateístas nos disseram para crer. O mesmo Deus que declaramos nos anos 60 ser um sexista em nossas antigas Bíblias. Cremos, quando nos convém, que Ele tem um Filho que pode ter tido irmãos e que nasceu da Virgem Maria, mas deixamos nossas opiniões em aberto nisso também, por causa de nossos irmãos separados que estão unidos à nossa nova Igreja desde o Vaticano II. Mas cremos que Ele definitivamente se fez homem, assim como nós. Sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morreu e foi sepultado, mas damos às crianças as opções em seus livros-textos escolares de que Seus apóstolos podem ter roubado Seu corpo e Ele pode não ter ressuscitado dos mortos.

Cremos no Espírito Santo que guia os protestantes e muitas outras igrejas em nossa Igreja do Vaticano II, liberal, dialogante, ecumênica e colegiada, na comunhão dos santos que João Paulo II fez sem os devidos milagres, nos mártires não-católicos declarados desde o Vaticano II, no perdão dos pecados sem um padre propriamente ordenado, na ressurreição dos corpos, mas desde o Vaticano II podemos ser cremados, e na vida no céu para todo mundo, sem nenhuma alma condenada ao inferno. Amém.”



É a misericórdia de Deus que nos converte

 É a misericórdia de Deus que nos converte

“É preciso que tenhamos sempre presente no nosso espírito o quanto todos os homens são rodeados por tantas manifestações do mesmo amor de Deus. Se a justiça tivesse precedido a penitência, o universo teria sido aniquilado. Se Deus estivesse pronto para o castigo, a Igreja não teria conhecido o apóstolo Paulo; não teria recebido um homem assim no seu seio. É a misericórdia de Deus que transforma o perseguidor em apóstolo; é ela que muda o lobo em cordeiro, e que fez de um publicano um evangelista (Mt 9,9). É a misericórdia de Deus que, comovida com o nosso destino, nos transforma a todos; é ela que nos converte.

Ao ver o glutão de ontem pôr-se hoje a jejuar, o blasfemador de outrora falar de Deus com respeito, o infame de antigamente não abrir a boca a não ser para louvar a Deus, pode-se admirar esta misericórdia do Senhor. Sim irmãos, se Deus é bom para com todos os homens, é-o particularmente para com os pecadores.

Quereis mesmo ouvir algo de estranho do ponto de vista dos nossos hábitos, mas verdadeiro do ponto de vista da piedade? Escutai: ao passo que Deus se mostra exigente para com os justos, para com os pecadores não tem senão clemência e doçura. Que rigor para com os justos! Que indulgência para com o pecador! É esta a novidade, a inversão, que nos oferece a conduta de Deus… E eis porquê: assustar o pecador, sobretudo o pecador inveterado, seria privá-lo de toda a confiança, mergulhá-lo no desespero; lisonjear o justo, seria embotar o vigor da sua virtude, fá-lo-ia afrouxar no seu zelo. Deus é infinitamente bom! O seu temor é a salvaguarda do justo, e a sua clemência faz mudar o pecador.”

(São João Crisóstomo, 7ª Homilia sobre a Conversão)


quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

São João Eudes e o maior sinal da ira de Deus

 São João Eudes e o maior sinal da ira de Deus

“O maior sinal da ira de Deus sobre um povo e a mais terrível punição que sobre ele pode descarregar neste mundo é permitir que, em castigo por seus crimes, venha a cair nas mãos de pastores que mais o são de nome do que de fato, que mais exercitam contra ele a crueldade de lobos famintos que a caridade de solícitos pastores, e que, em lugar de o alimentar cuidadosamente, o dilacera e devora com crueldade; que, em vez de levar o povo a Deus, o vende a Satanás; que em lugar de o encaminhar para o Céu, o arrasta com eles para o inferno; e, em vez de serem o sal da terra e a luz do mundo, são seu veneno e suas trevas.

Porque nós, sacerdotes e pastores, disse São Gregório, o grande, seremos condenados diante de Deus como "assassinos das almas que, todos os dias, vão para a morte eterna pelo nosso silêncio e nossa negligência". Diz também este mesmo Santo: “Nada há que tanto ultraje a Nosso Senhor (e, por conseguinte, que mais provoque Sua ira e atraia mais maldições sobre os pastores e sobre o rebanho, sobre os sacerdotes e sobre o povo) como os exemplos de uma vida depravada dados por quem Ele estabeleceu para correção dos demais; quando pecam os que devem reprimir pecados; quando os sacerdotes não cuidam da salvação das almas, quando não se preocupam mais do que em satisfazer as suas inclinações, quando todas as suas afeições terminam em coisas da terra; quando se alimentam com avidez da vã estima dos homens; quando para satisfazerem as suas ambições abandonam os trabalhos de Deus para se entregarem aos do mundo; quando, ocupando um lugar de santidade, se ocupam de questões terrenas e profanas e não mais pregam a verdadeira fé, a única que indica o Caminho, a Verdade e a Vida.

Quando Deus permite que isto suceda é prova muito certa de que está encolerizado contra o seu povo, sendo este o maior castigo que lhe pode enviar neste mundo. Por isso Nosso Senhor diz incessantemente a todos os católicos: "Convertei-vos a Mim e dar-vos-ei pastores segundo o Meu Coração". O maior efeito da misericórdia de Deus dirigido a Seu povo e a mais preciosa graça que pode outorgar-lhe é dar-lhe sacerdotes segundo Seu Coração, que não buscam mais do que Sua glória e a eterna salvação das almas.”

Sinais dos tempos

 Sinais dos tempos

“Em 2005, um 'crucifixo' deformado, feito pelo escultor judeu Enrico Job para celebrar a visita de João Paulo II a Brescia, foi erguido próximo à aldeia vizinha de Cevo.

O 'crucifixo' deformado, que trazia uma imagem dependurada de Cristo, subia de uma base de chamas de metal esculpidas e não para cima em direção ao céu, mas arqueava para frente, caindo em direção ao chão, talvez como símbolo da teologia antropocêntrica deformada de João Paulo II.

Naquela ocasião, João Paulo II pronunciou um discurso no qual teve como certa uma futura “beatificação” e “canonização” de Paulo IV, que presidiu ao antropocêntrico, em vez de teocêntrico, Concílio Vaticano II.

O ‘crucifixo’ de Cevo daquele dia em diante tornou-se um símbolo da intenção e determinação da Igreja Conciliar de ‘canonizar’ Paulo VI, cuja ‘beatificação’ está marcada para outubro de 2014.

Em 24 de abril de 2014, apenas três dias antes das ‘canonizações’ de João XXIII e João Paulo II, esse símbolo horroroso que ofende a Redenção de Cristo e o mais sagrado sinal da Fé quebrou-se e espatifou-se.

O ‘crucifixo’ deformado, erguido em homenagem a João Paulo II e ‘dedicado’ por ele a Paulo VI, rompeu-se e veio abaixo, matando um jovem que vivia em uma rua curiosamente chamada João XXIII.”


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

O mau-caráter e a filosofia

 O mau-caráter e a filosofia

“Pode um mau-caráter ser exímio matemático. Pode também notabilizar-se como astrofísico, gramático, geneticista, cirurgião, enxadrista, músico ou lixeiro. Mas ao mau-caráter a filosofia está formalmente vedada, se por filosofia se entende a inquirição das verdades íntimas e últimas da ordem do ser, as quais dão sentido e perspectiva à vida humana — partícipe do ser.

Em resumo, a filosofia pressupõe um tão grande amor à verdade que leva o homem a tomá-la como o fim a ser buscado, o fundamento de todos os valores. Ora, isto exclui ipso facto o mentiroso, o caluniador, o vanglorioso professor cuja atividade consiste em induzir os seus discípulos a venerá-lo como a um guru, o retórico embusteiro, o sofista ávido por vencer um debate a qualquer custo, fazendo uso dos mais deploráveis expedientes e truques. Como adiante veremos, o que se afirma aqui não é pura e simples opinião, mas uma verdade cientificamente demonstrável em clave metafísica.

No mau-caráter — ou seja, no sujeito que habitualmente fere a verdade e o bem para obter vantagens —, a razão especulativa e a razão prática estão dramaticamente afetadas, embora não possam ser suprimidos os primeiros princípios que lhes servem de esteio, pois radicam na forma entis humana como hábitos naturais inatos. E o sintoma primário da doença que afeta as potências superiores da alma do mau-caráter é o seguinte: com os seus reiterados atos movidos pela vanglória, pelo orgulho, pela cupidez, etc., ele priva-se da virtude supracapital no âmbito da razão prática, que é a prudência, definida por Santo Tomás de Aquino como reta razão no agir (recta ratio agibilium).

Ora, perdida a prudência, todas as demais virtudes, inclusive as intelectuais, contaminam-se, visto que estão radicadas na prudência como numa espécie de fonte comum. Sim, pois não pode o imprudente ser habitualmente sábio, nem justo, nem temperante, nem veraz, etc., embora possa ser detentor de alguma ciência particular — da qual faça uso em ocasiões específicas. Não pode, portanto, ser filósofo, porque a inquirição da verdade típica do labor filosófico exclui absolutamente os três principais frutos da imprudência: a inconsideração, a precipitação e a inconstância. Ao contrário, ela exige deliberação profunda, paciência e constância, pois, devido ao dificultoso modo humano de apossar-se da verdade, o filósofo precisa ser alguém cauteloso e perseverante.

Em poucas palavras, o mau-caráter age contra a natureza da razão, e com isso torna-se culpavelmente incapaz de perceber a hierarquia dos valores que devem reger as ações humanas; padece ele, portanto, de um gravíssimo déficit cognitivo que afetará a vontade na escolha dos bens com que depara cotidianamente. Neste contexto, vale aludir a dois luminosos artigos da Suma Teológica nos quais o Aquinate se pergunta se é possível haver virtude moral sem virtude intelectual, e se é possível haver virtude intelectual sem virtude moral. Sua demonstração filosófica para este problema nada desprezível parte de algumas premissas:

Ø a de que, para o homem agir bem, se requer que a razão esteja bem disposta pelas virtudes intelectuais, e que as faculdades apetitivas estejam bem dispostas pelas virtudes morais. Estas são precondições ontológicas para a inteligência e a vontade alcançarem os seus objetos formais próprios: a verdade e o bem, respectivamente;

Ø a de que as faculdades apetitivas não obedecem à razão com total disponibilidade, mas sim com certa resistência, ao ponto em que muitas vezes as paixões ou os hábitos radicados nos apetites obliteram o uso da razão. Daí ser necessário educar o apetite, orientá-lo aos seus fins devidos, o que pressupõe o conhecimento desses fins;

Ø a de que, se a virtude aperfeiçoa a razão especulativa ou prática, é virtude intelectual (ex.: a ciência enquanto hábito mental da verdade); se aperfeiçoa as potências apetitivas, é virtude moral (ex.: a temperança, que é certa continência no fruir alguns prazeres sensitivos).

Consideradas, pois, todas estas coisas, o Aquinate chegará à conclusão de que as virtudes morais podem de fato não estar acompanhadas de algumas virtudes intelectuais — como a da ciência, por exemplo. Mas não pode existir virtude moral sem a efetiva atualização dos primeiros princípios da razão especulativa, que, como se observou acima, é prejudicada em cheio pela perda da prudência (e, aqui, entenda-se por atualização dos princípios a sua simples aplicação aos casos particulares). Assim, é possível haver pessoas boníssimas ignorantes em várias ciências, mas não é possível haver pessoas boas privadas do entendimento atual dos primeiros princípios, que são reitores da ação humana.

Com relação às virtudes intelectuais, elas até podem existir sem algumas virtudes morais, mas não sem a virtude supracapital da prudência — recta ratio agibilium. Ora, a prudência não apenas aconselha bem, mas também julga bem. Ocorre que, de acordo com Santo Tomás, a prudência só pode existir, ou seja, julgar convenientemente, se as paixões que perturbam o juízo forem removidas (cf. Suma Teológica, II-IIª, q. 58, a.5, ad. 3).

Pode-se depreender de tudo o que acima se disse o seguinte: o mau-caráter jamais poderá transformar-se num verdadeiro filósofo, ou seja, no detentor da sabedoria dos princípios e dos fins que regem a ordem do ser. E tal conclusão está totalmente de acordo com a premissa de que a clara visão da verdade pressupõe que as potências superiores da alma humana não estejam acidentalmente impedidas de lograr os fins aos quais tendem.

Sendo assim, o mau-caráter, quando imiscuído nas coisas filosóficas, será na melhor das hipóteses uma espécie de prestidigitador, alguém que pode até enganar a alguns incautos persuadindo-os, a preços nada módicos, de que é um grande filósofo, e de que seus discípulos necessitam tanto da luz de sua excelsa “sabedoria” como de água para sobreviver.

De Górgias — que, segundo consta, cobrava caríssimo por seus ensinamentos — até os dias atuais, esse tipinho jactancioso é bastante encontradiço na história da filosofia.

Mas não nos enganemos: ao perder a reta razão no agir, perdeu ele também a reta razão no pensar.”

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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Pe. José María Mestre: O sentido do Natal

 Pe. José María Mestre: O sentido do Natal

“Que pena nos tem que dar nestes dias que se tenha conseguido difamar totalmente, em todas as partes, o sentido religioso do Natal! Silencia-se olimpicamente que o Natal é o Nascimento do Filho de Deus, do Criador, do nosso Redentor, e consegue-se fazê-lo da maneira mais astuta e maliciosa: inundando tudo com propagandas de presentes, de compras, de grandes lojas; pondo por todas as partes o papai Noel consumista dos protestantes; explicando de mil maneiras o “sentido do Natal”, que são as compras, a champanhe, a comida em família, os presentes... E Nosso Senhor? Ah!, mas existiu? Por isso, nós não podemos nos esquecer desta importantíssima festa, e deixar de celebrá-la completamente pelo que é, pelo que vale: por ser o aniversário de nossa Redenção, da hora feliz em que, depois de mais de quatro mil anos de espera impotente, de gemidos de liberação, de sofrimentos e de pecados, nos chega por fim o Salvador prometido. Por fim! Já era hora! Bendito seja Deus e sua Santíssima Mãe! Que seria de nós sem esse nascimento?

Deixemos que o mundo lute pelo que é seu; deixemos que Herodes se perturbe; deixemos que em Jerusalém ninguém se dê conta de nada, que cada um esteja em seus negócios, em seus prazeres, em seus caprichos. Façamos como Maria e José: toda nossa atenção esteja focada nesse Menino que há de nascer, e há de mudar tão profundamente nossa história com seu nascimento. Façamos como os pastores, que deixam todas as ovelhas no campo e correm ao único importante: ver com os próprios olhos o Salvador recém-nascido, a quem encontram... em um palácio, rodeado de guardas, cuidado ricamente? Não: em uma manjedoura, envolto em fraldas... Façamos como os Magos, que se separam de tudo, partem de sua corte real, e sacrificam tudo em aras de um Menino, que devem procurar no Ocidente, na direção de Jerusalém... 

Ninguém lhes faz caso, mas que importa? Eles seguem sua estrela, essa estrela que os conduz a Belém, e em Belém, à casa em que encontram um Menino junto a sua Mãe e a São José, e no entanto adoram n’Ele Deus, oferecendo-lhe incenso, reconhecem n’Ele o Rei do Universo, ofertando-lhe ouro, e confessam sua natureza mortal e passível, apresentando-lhe mirra...”

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Concílios anulados da Igreja

 Concílios anulados da Igreja

"Muitos concílios da Igreja no passado foram declarados nulos e sem efeito pelos papas, entre eles:


O Concílio de Éfeso (449) foi regularmente convocado e dele participaram todos os bispos ortodoxos e emissários do Papa Leão Magno. Esse papa anulou os decretos do concílio e chamou-o Latrocinium, ou “Concílio de Ladrões”, termo depreciativo pelo qual é conhecido até o dia de hoje.

O Concílio Quinissexto (692) foi declarado um “sínodo reprovável”. Como autoridade para tal veredito, temos São Beda, o Venerável.

O Concílio de Hieria (754) introduziu e abençoou o Iconoclasma herético, com as conhecidas e catastróficas conseqüências para a Igreja. O Papa Estêvão II anulou os decretos desse concílio em 769.

O Concílio de Pistóia (1794), envolvendo o Sacro Imperador Romano José II, os bispos galicanos da França e alguns bispos da Itália, abençoou mudanças litúrgicas que se parecem em grau impressionante com as inovações corrompidas do Novo Ordinário da Missa após o Vaticano II. O Concílio prescreveu que houvesse apenas uma “mesa” em cada igreja; condenou procissões em honra da Santa Virgem e dos Santos, o Rosário, a Via Crúcis, as santas imagens; instituiu uma missa “simplificada” pronunciada inteiramente no vernáculo. O Papa Pio VI anulou os decretos desse concílio em sua bula Auctorem fidei do mesmo ano como “falsos, escandalosos, ofensivos aos ouvidos pios, injuriosos à Igreja, favoráveis aos ataques dos hereges [à Missa Latina tradicional].”

Portanto, muitos concílios da Igreja no passado foram anulados pelos papas, e não será um problema incluir nesse número o Vaticano II, que sequer foi convocado e promulgado como um concílio dogmático, mas meramente como um concílio pastoral. No passado, normalmente levava um século para que esses períodos turbulentos na Igreja fossem resolvidos, e passamos apenas quarenta anos no período pós-conciliar. Mas a resolução dos períodos turbulentos da Igreja envolve bem mais que apenas um papa.

Há tanta confusão hoje em dia que não podemos esperar por uma resolução em breve. Eis porque devemos nesse ínterim seguir o que São Paulo disse: “State et tenete traditiones, quas didicistis sive per sermonem, sive per epistulam nostram” [Sendo assim, irmãos, permanecei firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, tanto de viva voz, quanto por meio das nossas cartas]. O exemplo da Igreja em tempos turbulentos no passado ensina que devemos encontrar a fé católica onde ela hoje existe, fora da seita do Novus Ordo, ou seja, fora da missa conciliar."

(Christopher Pieretti, em postagem no Facebook de 12.04.2013)

A exclusiva implicância satânica com o catolicismo

 A exclusiva implicância satânica com o catolicismo

“O Harvard Extension Cultural Studies Club tentou realizar nesta semana uma missa negra, paródia satânica do santo sacrifício da missa. Eles chegaram até mesmo a anunciar que profanariam uma hóstia consagrada durante a sua “celebração”.

Agora, porém, o grupo responsável pela missa negra está afirmando que não tem hóstia nenhuma, porque eles “respeitam todas as religiões e não querem que ninguém se sinta ofendido”. Dizem eles: “Entendemos o poderoso papel da Eucaristia na religião cristã e de forma alguma queremos parecer desrespeitosos das suas tradições”.

A minha primeira impressão ao ler isso foi de que se trata da perfeita imagem da academia do século XXI: eles querem realizar nada menos que uma missa negra satânica, mas sem ofender ninguém!

Depois de uma reflexão mais aprofundada, no entanto, ocorreu-me que este é um poderoso argumento em favor do catolicismo. Vamos pensar da seguinte maneira:

1. A Eucaristia ou é Jesus ou é o mal.

A Eucaristia ou é Jesus ou é mero pão e vinho. Se a Eucaristia é Jesus, então todos deveriam ir à missa para adorar o Senhor. Se a Eucaristia é Jesus, não deveria haver protestantismo, mormonismo, islamismo, ateísmo, etc. Mas se a Eucaristia não é Jesus, então, durante dois mil anos, os pretensos seguidores de Jesus Cristo foram idólatras. E, se este fosse o caso, ninguém deveria ser católico.

Estas são, portanto, as duas apostas. Todo mundo, diante de Jesus de Nazaré, se confronta com uma questão crucial: Ele é Deus, de alguma forma misteriosa, ou não é? Os primeiros cristãos formularam esse dilema como “aut Deus aut malus homo” (ou Deus ou um homem mau). Todo mundo, diante da Eucaristia, se confronta com a mesma disjuntiva: ou é Deus ou é idolatria.

E, é claro, se a Eucaristia é idolatria pagã, então ela é demoníaca! Lembremo-nos de I Coríntios 10,20: “O que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios, não a Deus”. A Eucaristia é Jesus ou é um ídolo? O sacrifício da missa é oferecido a Deus ou aos demônios?

2. Satanás odeia a Eucaristia

A missa negra satânica é uma inversão ritual (e uma zombaria) do santo sacrifício da missa, realizada por satanistas. Existem dois tipos de satanistas: os “satanistas de LaVey” e os “satanistas teológicos”. O Templo Satânico, entidade por trás da missa negra anunciada (e cancelada) nesta semana, é formado por satanistas da corrente de LaVey. Em outras palavras, são ateus que não acreditam em Satanás e que usam o “satanismo” como simples ferramenta para provocar e assediar os cristãos (ao contrário dos “satanistas teológicos”, que de fato acreditam em Satanás e o adoram). Essa história da missa negra nas dependências da Universidade de Harvard, assim como o monumento satânico em Oklahoma, é uma provocação deliberada. Agora: estejam os praticantes desse culto brincando com o ocultismo ou agindo a sério, não há dúvida de que eles estão lidando com forças espirituais perigosamente obscuras. Satanás está agindo nessa história.

E é importante ressaltar que, quando os satanistas (de ambos os tipos) querem zombar de um ritual religioso, podemos apostar que o alvo vai ser o santo sacrifício da missa. Quantas vezes você já ouviu falar que rituais muçulmanos, hindus, judeus ou mesmo protestantes foram submetidos a algum escárnio satânico tão intenso quanto a missa católica?

E esse direcionamento satânico contra a missa não tem nada de novo. Já no século IV, Santo Epifânio de Salamina descreveu uma seita gnóstica que parodiava pervertidamente a santa missa. Sem entrar em detalhes, basta dizer que os membros daquela seita ficaram conhecidos como “borborianos” (“os imundos”).

3. Satanás não expulsa Satanás

A Eucaristia, portanto, ou é Jesus ou é o mal, já que, se não é Jesus, é idolatria. Uma vez que o diabo odeia a Eucaristia, podemos riscar a alternativa “mal”. Vamos considerar, além disso, o Evangelho de Mateus 12,22-28:

“Apresentaram-lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus o curou de tal modo que este falava e via. A multidão, admirada, dizia: Não será este o filho de Davi? Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: É por Beelzebul, chefe dos demônios, que ele os expulsa. Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, disse: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino? E se eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus”.

Esta passagem é importante: ela mostra, por exemplo, que os exorcistas católicos agem por obra do Espírito de Deus quando expulsam demônios. E isso também significa que, se Satanás odeia a missa, podemos ter certeza de que a missa não é do mal.

Se a missa não é demoníaca, se ela não é idolatria, só resta uma opção: a Eucaristia é Jesus Cristo e o sacrifício da missa apresenta Jesus ao Pai. Isto, e, creio eu, apenas isto, é o que explica a tentativa satânica tão teimosa de zombar da missa católica.

Se a única coisa que soubéssemos do catolicismo é que sua forma central de culto, a missa, é alvo da ira satânica, já teríamos uma boa razão para acreditar que o catolicismo é a religião verdadeira. Mas considerando todas as outras provas que a Eucaristia é Jesus, de que a missa é um sacrifício instituído por Deus e de que a Igreja católica é a Igreja fundada por Cristo, Satanás é apenas mais uma testemunha (involuntária) da verdade de Jesus Cristo e da Sua Igreja.”

(John Heschmeyer, The Satanic Case for Catholicism)



Catolicismo y esoterismo

 Catolicismo y esoterismo

“Jesus nos ensinou: “não há nada escondido que não venha a ser conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz, e o que escutais ao ouvido, proclamai sobre os telhados” (Mt. X, 26-27). Essa é a natureza do catolicismo genuíno e realmente anti-subversivo e anti-revolucionário. O segredo do catolicismo é de não ter segredos, tudo o que é escondido, secreto, esotérico não tem nada a ver com o cristianismo e com a verdade, que em grego se diz a-leteia, ou seja, não-escondido. Igrejas católicas estão abertas a todos, os sacramentos são públicos, os sacerdotes se fazem conhecer como tais, a sua doutrina é pregada toda inteira a todos os fiéis. Não existe um nível iluminado, superior ou desconhecido, reservado aos eleitos, aos iniciados ou àqueles que sabem, quer dizer, aos “gnósticos”. O esoterismo é totalmente estranho ao catolicismo. Pode haver pequenos lunáticos marginais ou “iluminados” tentados pelo ocultismo considerado aristocrático, mas eles estão fora da estrada do catolicismo e do Evangelho. Os gnósticos, os iniciados, os esotéricos ostentam, por vaidade, supostos segredos que eles não têm, mas que são fábulas e rejeitam a Revelação pública divina dos verdadeiros segredos ou mistérios sobrenaturais, que superam infinitamente a capacidade do conhecimento humano. A semelhança de Cristo é o caminho da salvação para todos os homens. Mas esse é um dom gratuito de Deus à criatura, que, imitando o Verbo encarnado que se tornou o Homem das Dores, pode se tornar um filho adotivo de Deus. A pretensão esotérica de ser semelhante a Deus, mais do que aos outros homens e crentes comuns, é a estrada que leva à danação. O esoterismo é a contradição per diametrum do cristianismo. De fato, o cristianismo é a religião de Deus que se fez homem para salvar o homem pecador, enquanto o esoterismo é a contra-igreja do homem que pretende fazer-se Deus de si mesmo por meio da gnose. Santo Agostinho nos adverte: “Tu, homem, quiseste ser Deus e te perdeste; Ele, Deus, quis fazer-se homem para recuperar o que tinha se perdido.” (Sermão 188, c. 3, PL XXXVIII, 1004). Então, nós proclamamos com São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (I Cor , I, 23).”

(Don Curzio Nitoglia, Il Tradizionalismo Esoterico: Joseph de Maistre, Una Nuova Edizione de “Le Serate di Pietroburgo”


O ensino da gnose

 O ensino da gnose

“Para entender corretamente as “Revelações” dos Gnósticos, é necessário libertá-las de toda a miscelânea mitológica com que estão ornadas ou, de preferência, emaranhadas, libertá-las também de um vocabulário obscuro que tinha a pretensão de torná-las veneráveis.

Não falaremos nem de Éons, nem de Arcontes, nem de Pleroma, etc...

Dom Lagier, em sua obra sobre “O Oriente cristão” – L’Orient chrétien - enumera várias proposições nas quais pode-se resumir todo o ensino de nossos hereges. Veremos que, a partir destas afirmações estranhas, podem-se extrair todos os grandes erros do mundo moderno.

1º “O Deus de que nos fala o Antigo Testamento é provavelmente uma divindade inferior, ele não é o verdadeiro Deus. Muito acima Dele está o Ser supremo, único princípio de tudo o que existe”.

Os Gnósticos têm praticado um antibiblismo sistemático. Eles inverteram todas as afirmações do Gênesis. Sua cosmologia é uma máquina de guerra construída contra Javé, o Deus criador. O mundo em sua essência é divino. O Ser supremo é um abismo original donde saíram todas as potências espirituais. Esta já é uma primeira forma de panteísmo.
 
Yahavé Sabaoth, o Deus criador do Gênesis, é uma emanação do Ser supremo; ele se revoltou contra ele prendendo numa matéria degradada e má os seres puros, espirituais, emanados do grande abismo. Ele foi um demiurgo (= arquiteto) inábil. Ele é a fonte de todos os males. Eis uma explicação para a origem do mal e a designação do grande culpado, o Deus que os Cristãos adoram.

2º “A matéria, em si, se opõe a Deus”.

Compreendamos bem que esta matéria não é uma emanação do Ser supremo, mas uma criação do demiurgo, obra inábil que vai se opor à perfeição do poder divino, entravar sua expansão. Houve então neste ato criador um erro, uma desfiguração dos seres espirituais, uma “queda original”, não a do pecado de Adão, mas a do Pecado de Javé.

3º “Deus se desdobra e se revela gradualmente por potências celestes, por seres divinos em sua origem”.

Esta é a doutrina da emanação (emanare = difundir-se para fora de si). O mundo é uma divindade que se difunde para fora de si mesmo, por uma extensão de seu ser; o mundo é um Deus-Ser supremo em perpétuo crescimento. Do abismo original, esse Deus engendra uma multidão de seres que são apenas parcelas de si mesmo. O mundo é um perpétuo tornar-se. Ele é divino por natureza, visto que engendrado, e não criado. Infelizmente! Javé formou a matéria, ele desfigurou esse mundo, ele assim entravou a expansão dele, a evolução rumo a essa plenitude divina que os Gnósticos chamam de “Pleroma”.

Ademais, Deus se revela no interior do mundo por seus enviados, seres divinos, engendrados por ele, que, em intervalos regulares, vão recordar aos homens decaídos e prisioneiros da matéria que eles também são divinos. É preciso, portanto, uma revelação contínua: vê-se surgirem aí os primeiros lineamentos da lenda dos Grandes Iniciados. A Gnose é uma “revelação” de uma realidade oculta.

4º “A matéria está mesclada com centelhas divinas; essas centelhas saem de sua prisão material graças ao Cristo que age nos ritos sagrados da magia”.

A alma humana é, portanto, divina (centelha ou brilho de um Deus que se estende a todos os seres). O corpo é um invólucro de terra, uma prisão de que é preciso se livrar para fazer surgir esta divindade que reside em nós. O Cristo é o maior dos Iniciados enviados do alto.

Ele vai ensinar aos homens que eles são divinos. “Olhai no interior de vós mesmos e vereis aí vossa própria divindade”, tal é a fórmula repetida no evangelho de Tomás. Por isso, é preciso libertá-los desta prisão material que esconde deles sua verdadeira natureza.

Despertai-vos! Entendei, enfim! Conhecei então vosso caráter divino! Não é necessário conquistar à força de vossa ascese uma semelhança com Deus. Já sois divinos, mas não o sabeis. Este conhecimento vos libertará. Esta é a “Salvação pela Gnose” (= conhecimento).

Reencontramos aqui quase as fórmulas modernistas da emanação vital: Deus permanece no homem (manere in = reside em), o homem só precisa voltar seu olhar para o interior de si mesmo para aí encontrá-lo.

5º “A ação do Cristo foi real, mas sua humanidade carnal nunca foi senão uma aparência enganadora: a paixão e a ressurreição são apenas símbolos irreais”.

Evidentemente, um enviado divino não pode ter sofrido a degradação de um corpo material. Ele precisou então tomar a forma material para se fazer conhecer e poder agir de forma eficaz junto dos homens, eles também prisioneiros de seus corpos físicos. Contudo Cristo não tinha de resgatar por uma paixão os pecados dos homens, visto que estes não existem. Há somente um único pecado, o “pecado do mundo”, o pecado deste Javé que desfigurou por sua criação a expansão da divindade. Cristo não veio libertar os homens de suas faltas: ele não lhes ensinou um “caminho”, um caminho a ser percorrido para atingir uma perfeição possível futura. Ele lhes “revelou”, ou seja, “desvendou” o que eles não sabiam, que eles eram Deus, já, desde sempre.

6º “O divino que está acorrentado na matéria, ou seja, a alma humana, não é responsável pela carne que o oprime. O espírito continua puro: ele não é solidário das paixões, nas faltas cometidas”.

Eis enfim onde é preciso chegar! O gnóstico recusa aos homens a responsabilidade de seus atos. Visto que a matéria é má, nosso corpo carnal só pode produzir atos maus. Porém esse corpo é nossa prisão. Nossa alma, “centelha divina”, não pode ter a menor relação com qualquer mal que seja. Como explicar tudo isso? Decompondo o homem em três partes: um corpo material, o “soma”, uma animação propriamente fisiológica, “a psique”, e uma alma espiritual de essência divina, o “pneuma”. Esta estrutura ternária do homem é uma invenção genial: a sede das paixões, a “psique”, é uma potência má ligada à matéria, que ela apóia na existência; é preciso se livrar dela o mais cedo possível. O “pneuma” permanece impassível, espectador indiferente das vãs agitações do corpo.

Esta divisão ternária do homem é encontrada no ocultismo moderno, que utiliza outro vocabulário para designar as mesmas realidades: eles concebem um mundo espiritual, um mundo astral, um mundo material. O homem é composto por um corpo, por um dúplice e por uma alma! Velho procedimento para tirar do homem sua verdadeira responsabilidade e lhe recusar o domínio de seus atos.

Reencontra-se nesta exposição todo o protestantismo. Lutero não afirmou que o homem era incapaz de um ato bom, que as obras são inúteis e que só nos salvamos pela fé?

7º “As leis escritas e as leis naturais foram concebidas por deuses inferiores e não são sempre homologadas pelo verdadeiro Deus, cuja essência ultrapassa qualquer pensamento e cuja natureza é indizível”.

Os Gnósticos são por definição antinomistas, ou seja, eles recusam qualquer lei. Um ser de essência divina não necessita de lei, esta sendo um meio para atingir um fim. Ora, o ser divino é ele próprio seu fim. Além do mais, uma lei é recebida por uma autoridade que os submete a ela. Um ser divino é totalmente mestre de si e não precisa de submissão. Esta lei natural de que falam os Gnósticos é uma construção arbitrária de um espírito malevolente que quer submeter os demais seres aos seus caprichos, é uma sujeição indigna de uma “centelha divina”. Javé quis prender nossa natureza divina num corpo material e nos impor seus caprichos. Eis um grande motivo de indignação para nossos sectários. O verdadeiro Deus é a plenitude da Divindade, o “Pleroma”. Sua essência é conter todos os seres, englobá-los num imenso “Todo”. Não se pode defini-Lo, porque ele transcende todos os limites; ele é o “Grande Tudo”, o “Abismo inominado”. A salvação para a alma divina é se perder nele.

Encontra-se nesta última proposição a revolta daquele que pronunciou o “Non serviam” e que disse para Adão e Eva: “Eritis sicut Deis“, se comerdes da Árvore do Conhecimento (= Gnose).
8º O culto da serpente.

Existia entre as seitas gnósticas a dos Ofitas ou Naasanes (ophis em grego e naas em hebreu significam serpente): estes são os grandes Gnósticos, aqueles que mais longe penetraram no mistério das revelações: “Veremos a serpente, dizem eles, porque Deus a criou por causa da Gnose, para a humanidade: ela ensina ao homem e à mulher o conhecimento completo dos mistérios do alto”. Eles se reúnem em torno de uma mesa, eles dispõem os pães, em seguida eles chamam, com encantamentos, a serpente que vem se enrolar entre as oferendas. Somente então eles compartilham os pães… Eis aí, pretendem eles, o sacrifício perfeito, a verdadeira eucaristia…

Assim, o círculo é fechado. Todas estas elucubrações pretensamente sábias são destinadas, na realidade, a desviar os Cristãos da adoração do verdadeiro Deus e levá-los rumo à adoração da Serpente, supremo fim da seita: esta celebração satânica se parece, ao ponto de se confundir, com a cena rosacruciana praticada na sexta-feira santa nos rituais maçônicos do 18º grau.”

(Étienne Couvert, De la Gnose à l’Oecumenisme)



domingo, 22 de dezembro de 2024

“Se os maus podem fazer milagres” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 178, a. 2)

 “Se os maus podem fazer milagres” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 178, a. 2)


“Quanto ao segundo, assim se procede. Parece que os maus não podem fazer milagres.

1. Com efeito, os milagres obtêm-se pela oração. Ora, a oração do pecador não merece ser ouvida, como se diz no Evangelho de João (9, 31): “Nós sabemos que Deus não ouve os pecadores”, e no livro dos Provérbios (28, 9): “De quem desvia seus ouvidos para não ouvir a Lei, até a oração será execrável”. Logo, parece que os maus não podem fazer milagres.

2. Ademais, os milagres atribuem-se à fé, segundo o de Mateus 17, 19: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Transporta-te daqui para lá, e ele transportar-se-á”. Ora, “a fé sem obras é morta”, diz a Epístola de Tiago (2, 20); assim, ela não parece ter operação própria. Por conseguinte, parece que os maus, que não praticam boas obras, não podem fazer milagres.

3. Ademais, os milagres são testemunhos divinos, pois se lê na Epístola aos Hebreus (2, 4): “comprovando Deus seu testemunho por meio de sinais e maravilhas e vários milagres”. Por isso, na Igreja alguns são canonizados pelo testemunho dos milagres. Ora, Deus não pode ser testemunha do erro. Parece, portanto, que os maus não podem fazer milagres.

4. Ademais, os bons estão mais unidos a Deus que os maus. Ora, nem todos os bons fazem milagres. Logo, muito menos os maus. MAS, EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Apóstolo na primeira Epístola aos Coríntios (13, 2): “Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada”. Ora, todo aquele que não tem caridade é mau; “É este só dom do Espírito Santo o que distingue os filhos do Reino dos filhos da perdição”, diz Agostinho em XV de Trin. Parece, portanto, que até os maus podem fazer milagres.

RESPONDO. Deve dizer-se que, entre os milagres, há os que não são verdadeiros, mas [meros] fatos fantásticos, que enganam o homem fazendo-o ver o que não é. Outros são fatos reais, ainda que não mereçam verdadeiramente o nome de milagres, pois que são produzidos por certas causas naturais. E estas duas categorias de milagres podem ser feitas pelos demônios. Mas os verdadeiros milagres não podem ser feitos senão pela virtude divina, pois Deus os produz para utilidade do homem. E isto de dois modos. Primeiro, para confirmar a verdade sagrada. Segundo, para manifestar a santidade de alguém, que Deus quer propor como exemplo de santidade. Ora, no primeiro caso, os milagres podem ser feitos por todos os que pregam a verdadeira fé e invocam o nome de Cristo, o que, às vezes, pode ser feito pelos próprios maus. Por isso, a respeito das palavras de Mateus (7, 22): “acaso não profetizamos em teu nome?”, etc., diz Jerônimo: “Profetizar ou fazer milagres e expulsar demônios às vezes não vem do mérito de quem o faz, senão que é a invocação do nome de Cristo o que o faz para que os homens honrem a Deus, por cuja invocação se fazem tantos milagres”. No segundo caso, só se fazem milagres pelos santos, para manifestação de sua santidade, já durante sua vida já depois de sua morte, tanto por eles mesmos como mediante outros. Assim, lemos nos Atos dos Apóstolos: “Deus fazia milagres pela mão de Paulo; de tal modo que, até quando se aplicavam aos enfermos os lençóis que tinham tocado seu corpo, saíam deles as doenças” (19, 11-12). E, desse modo, nada impede que algum pecador faça milagres por invocação de algum santo. Mas tais milagres não deverão atribuir-se ao pecador, mas àquele cuja santidade Deus pretende manifestar por meio deles.

1. À PRIMEIRA OBJEÇÃO, portanto, deve dizer-se, ao tratar a oração de súplica, que se ela é atendida não o é por causa do mérito de quem a faz, mas da misericórdia divina, que se estende até aos maus. Por isso, às vezes Deus ouve também a oração dos pecadores. A esse respeito, diz Agostinho em super Ioan.: “O cego pronunciou aquelas palavras antes de ser ungido”, isto é, antes de ter sido perfeitamente iluminado, “pois Deus ouve os pecadores”. – O que diz o livro dos Provérbios, a saber, “a oração do que não ouve a lei é execrável”, é preciso entendê-lo como referente ao mérito do pecador. No entanto, essa oração às vezes alcança a misericórdia de Deus, quer para a salvação daquele que ora, como aconteceu com o publicano de que fala Lucas, quer ainda para a salvação dos outros e para glória de Deus.

2. À SEGUNDA deve dizer-se que a fé sem as obras é morta, quando aquele que crê não vive por ela a vida da graça. Mas nada impede que um vivo opere por um instrumento morto, assim como um homem que age por meio de um bastão. E é assim que Deus utiliza como de um instrumento a fé do pecador.

3. À TERCEIRA deve dizer-se que os milagres são sempre verdadeiros testemunhos daquilo que confirmam. Por isso, os maus que ensinam falsas doutrinas não poderiam jamais fazer verdadeiros milagres para confirmar seu ensinamento, embora, às vezes, possam fazê-los em nome de Cristo, que eles invocam, e pela virtude dos sacramentos que administram. Mas aqueles que anunciam doutrinas verdadeiras fazem às vezes verdadeiros milagres, para confirmá-las, mas não para atestar sua santidade. Por isso, diz Agostinho no livro Octoginta trium Quaest.: “Há grande diferença entre os milagres dos magos, os dos bons cristãos e os dos maus cristãos: os magos fazem-nos por pactos particulares com os demônios; os bons cristãos, em virtude da justiça pública; os maus cristãos, por sinais desta justiça”.

4. À QUARTA deve dizer-se o que diz Agostinho no mesmo lugar: “Não se concede a todos os santos fazer milagres, para que os fracos não caiam no erro perniciosíssimo de pensar que em tais fatos haja dons maiores do que nas obras de justiça, que se ordenam à vida eterna”.

OBSERVAÇÃO DE C. N. Está suposto neste artigo de Santo Tomás que somente ao magistério da Igreja (quando cingido, propriamente ou analogamente, das quatro condições vaticanas) se reserva a certeza ou infalibilidade quanto ao caráter de todo e qualquer milagre. – Ademais, no artigo de Santo Tomás “maus” está antes por “pecadores” em geral do que por “heréticos” em particular (embora estes também se incluam: “os maus que ensinam falsas doutrinas...”). Mas nos dias atuais grassa a heresia como nunca antes. Especialmente nestes dias, por conseguinte, havemos de armar-nos da mais fina prudência diante de fatos ou eventos aparentemente miraculosos. De ordinário havemos de calar-nos.”

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Meditações de Santo Tomas de Aquino - Sábado santo

 Utilidade da descida de Cristo aos infernos Da descida de Cristo aos infernos podemos tirar quatro ensinamentos para nossa instrução. 1. —...