Se Deus está em todas as coisas
A questão sobre se Deus está em todas as coisas é abordada de forma magistral por Santo Tomás na Suma Teológica. À primeira vista, poderia parecer que Deus, sendo excelso e superior a tudo, não estaria em todas as coisas. Porém, o Doutor Angelíco demonstra que a presença divina em todas as coisas é uma necessidade intrínseca à criação, não pela essência ou acidente, mas pela causalidade que a sustenta.
Antes de tudo, cumpre esclarecer o princípio fundamental: Deus age diretamente em todas as coisas enquanto a causa do ser. Assim como Aristóteles ensina que o motor e o móvel devem estar em conjuração no ato de mover, Deus, enquanto causa primeira, deve estar presente no ser criado para conferir-lhe existência. Santo Tomás argumenta que "o ser é o que de mais íntimo tem uma coisa e o que de mais profundo existe em todas as coisas", razão pela qual é necessário que Deus esteja em todas as criaturas, sustentando-as no seu ato de ser.
Tal presença não implica que Deus seja limitado pelas coisas, como observa Agostinho: "Todas as coisas estão, antes, nele, que ele, em qualquer delas." Deus não está contido pelas criaturas, mas as contém, assim como a alma contém o corpo. Portanto, dizer que Deus está nas coisas significa afirmar que Ele as sustenta, e dizer que as coisas estão em Deus é reconhecer que dependem completamente d'Ele para existir.
Ainda, a objeção de que Deus poderia agir à distância é refutada com clareza. Não há ação que se exerça sem contato com seu efeito. Por isso, a ação divina é imediata, alcançando todas as coisas diretamente, como o sol que ilumina sem intermediários. Assim, "nada há tão distante que Deus, por assim dizer, não contenha em si."
Quanto aos demônios, Deus está neles enquanto causa de sua natureza, mas não na deformidade moral que possuem. Como ensina Dr Angelíco: "Os demônios têm, de Deus, a natureza, não, porém, a deformidade da culpa." Por isso, podemos afirmar que Deus está neles "enquanto seres", mas não enquanto culpáveis, pois o pecado é uma privação do bem, incompatível com a perfeição divina.
Dizer que Deus está em todas as coisas, portanto, é reconhecer que Ele é a causa primeira que sustenta a criação continuamente, não de forma externa, mas como Aquele que confere o ser e o mantém em seu mais íntimo. Assim, compreendemos que a Criação inteira depende de Deus, não como um efeito distante de sua causa, mas como algo que existe apenas pela virtude divina que a penetra e a contém.
Como diz Santo Tomás, "enquanto subsistir uma coisa, é necessário que Deus lhe esteja presente, conforme o modo de existência próprio dela." Essa presença divina, íntima e contínua, não diminui a transcendência de Deus, mas manifesta sua sabedoria e poder ao sustentar todas as coisas em sua ordem perfeita.
Deste modo, Deus está presente em tudo que existe, como Autor que não abandona sua obra, mas a sustenta e governa em direção ao fim último, que é Ele mesmo.
Abaixo deixarei citações onde o Doutor Angelíco discute sobre essa questão em suas obras:
“O primeiro discute-se assim. — Parece que Deus não está em todas as coisas.
1. — Pois, o que é superior a tudo, não está em tudo. Ora, Deus é superior a tudo, conforme a Escritura (Sl 112, 4): Excelso é o Senhor sobre todas as gentes, etc. Logo, Deus não está em todas as coisas.
2. Demais. — O que está em outra coisa, por esta é contido. Ora, Deus não está contido nas coisas, mas antes, as contém. Logo, não está nelas, mas elas é que estão nele. Por isso diz Agostinho: Todas as coisas estão, antes, nele, que ele, em qualquer delas.
3. Demais. — Quanto mais intensa é a virtude de um agente, a tanto mais longe se estende. Ora, Deus é agente de máxima virtude. Logo, a sua ação pode estender-se a tudo o que dele dista, sem ser necessário estar em todas as coisas.
4. Demais. — Os demônios também são seres e, contudo, Deus não está neles, pois como diz a Escritura (2 Cor 6, 14), não há comércio entre a luz e as trevas. Logo, Deus não está em todas as coisas.
Mas, em contrário. — Um ser está onde age. Ora, Deus age em todas as coisas, segundo a Escritura (Is 26, 12): Senhor, tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras. Logo, Deus está em todas as coisas.
SOLUÇÃO. — Deus está em todas as coisas, não, por certo, como parte da essência ou como acidente de cada uma delas, mas como o agente está presente ao que aciona. Pois, é necessário que todo agente esteja em conjunção com o ser sobre o qual age imediatamente, e o atinja pela sua virtude; e assim Aristóteles prova que móvel e motor devem existir simultaneamente. Ora, tendo Deus a existência idêntica à essência, o ser criado há de necessariamente ser efeito próprio seu, assim como queimar é efeito próprio do fogo. Ora, tal efeito Deus causa nas coisas, não somente quando começam a existir, mas enquanto subsistem; assim como a luz é causada no ar pelo sol, durante todo o tempo em que permanece iluminado. Logo, enquanto subsistir uma coisa, é necessário que Deus lhe esteja presente, conforme o modo de existência próprio dela. Ora, o ser é o que de mais íntimo tem uma coisa e o que de mais profundo existe em todas as coisas; pois, comporta-se como forma em relação a tudo o que na coisa existe, conforme no sobredito se colhe. Logo, é necessário que Deus esteja, e intimamente, em todas as coisas.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Deus é superior a todos os seres pela excelência da sua natureza; e contudo está em todas as coisas e lhes é causa do ser, como antes se disse.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Embora se diga que uma coisa corpórea esteja em outra, quando nesta está contida, contudo, os seres espirituais contêm aquilo em que estão; assim, a alma contém o corpo. Por isso Deus está nas coisas por as conter. Todavia, por semelhança com as coisas corpóreas, dizemos que todas estão em Deus, porque as contém.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A ação de nenhum agente, por maior virtude que tenha este, atinge o distante, senão por intermédio de um meio. Ora, é pela sua virtude máxima que Deus age imediatamente sobre todas as coisas. Por isso nada há tão distante que Deus, por assim dizer, não contenha em si. Dizemos porém, que as coisas distam de Deus, por dissemelhança de natureza ou de graça, assim como dizemos que ele é superior a todas pela excelência da sua natureza.
RESPOSTA À QUARTA. — Os demônios têm, de Deus, a natureza, não, porém, a deformidade da culpa. Por onde, não se pode conceder, de modo absoluto, que Deus esteja neles, senão acrescentando-se: enquanto seres. Devemos porém dizer, absolutamente, que Deus está nas coisas cujos nomes designam uma natureza não deformada.”
(I Sent., dist. XXXVII, q. 1, a. 1; III Cont. Gent., cap. LXVII)

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