O desejo que define o homem

As convicções religiosas asseguram a felicidade do espírito, acabais de ver; ouvi como asseguram também a felicidade do coração, enchendo-o dos mais nobres sentimentos e dos mais apropriados a satisfazer inteiramente suas aspirações. Lancemos primeiramente alguns princípios - se a verdade é objeto adequado de nosso espírito, o bem o é de nosso coração.
Aristóteles definiu o bem: é o que todas as criaturas desejam, quod omnia appetunt.
Ao nosso ver, não se pode indicar com maior precisão e energia a natureza da lei do bem, que domina despoticamente todo ser.
Assim é que o filósofo assinala em três palavras o fim, de algum modo fatal, para o qual se precipitam todas as criaturas em seu estado normal.
E assim é que ele marca em sua breve, mas admirável definição, o caráter das forças múltiplas que arrastam todo ente, sem que lhe seja possível resistir à influência eternamente dominadora; isto é, a influência destas mesmas forças múltiplas.
Ora, já que o desejo está nas profundezas do nosso ser e determina todos os nossos movimentos, basta considerar, com a luz da reta razão, o desejo a que obedece um homem, para sabermos qual é o valor de seus sentimentos e reconhecer com exatidão a nobreza e a dignidade de suas inclinações.
Quando consideramos o que se passa sob nossos olhares, vemos que os homens se dividem em dois campos: os que desejam simplesmente o finito, e os que desejam o infinito: o mundano e o verdadeiro cristão, o pecador e o justo.
Estudai, na verdade, todos os homens que não vivem senão da vida do mundo, da vida dos sentidos; só procuram as riquezas, correm atrás dos prazeres, estendem seus negócios, aumentam seus haveres, embelezam suas casas e, se saíram da obscuridade para os primeiros lugares sociais, fundam sistemas, fazem leis, conseguem vitórias, governam povos.
Mas, porque esta agitação e este alarde? Qual é o fim de esforços tão perseverantes, de vida tão ativa e tão atormentada? Em que terminam tantos perigos, tantas fadigas e penas, tantos trabalhos? No gozo de bens que passam, de prazeres que enganam, de honras ilusórias, em um simulacro de poder e de glória, em um repouso mal seguro de uma vida que toca ao seu termo.
Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, "Carta pastoral: Sobre o segredo da nossa felicidade", 6 de fevereiro de 1922
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