quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Erros imputados ao Concílio Vaticano II - Descrição errada das religiões não cristãs.

 


A falsa atribuição a todas as religiões não cristãs de uma fé no Deus criador, semelhante à nossa: “Com efeito, a criatura sem criador se desvanece. Alem disto, todos os crentes, qualquer que seja a religião a que eles pertencem (cuiuscumque sint religionis) sempre escutaram a voz de Deus e sua manifestação, na língua das criaturas” (Gaudium et Spes, 36). A atribuição é falsa, porque o hinduismo e o budismo, para dar somente dois exemplos, ignoram completamente a noção de um Deus que criou a partir do nada e que “se manifesta” nas suas criaturas, já que eles estão convencidos de que a realidade procede por emanação de uma força cósmica impessoal e eterna que se repete identicamente em todas as coisas, da qual tudo vem e à qual tudo volta nela se dissolvendo.

A atribuição paralela e inconcebível de um certificado de verdade e de santidade a todas as religiões não cristãs, embora estas não contenham a verdade revelada mas sejam o fruto do espírito humano e, enquanto tais, não resgatam nem salvam ninguém: “A Igreja Católica não rejeita nada do que é verdadeiro e santo (Vera et sancta) nestas religiões. Ela considera com sincero respeito estas maneiras de agir e de viver, estas regras e estas doutrinas que apesar de diferirem em muitos pontos do que ela mesma sustenta e propõe, no entanto trazem muitas vezes um lampejo da Verdade que ilumina todos os homens” (Nostra Aetate 2).

É preciso notar a contradição contida nesta frase em tom manifestadamente deista: se estas religiões “diferem em muitos pontos” do ensino da Igreja Católica, como pode “trazer muitas vezes um lampejo da Verdade que ilumina todos os homens”? Isto significa que para o Concilio, a verdade “que ilumina todos os homens” pode ser trazida por regras e doutrinas que diferem, “em muitos pontos”, do ensinamento da Igreja! (Como um autentico Concilio ecumênico da Igreja Católica pode ter inspirado uma tal noção?).

A afirmação sem fundamento, sempre negada pela Tradição e pela Escritura (Sal. 95 (96), v. 5: “ Porque todos os deuses das gentes são ídolos vãos”; 1 Cor. 10, 20) segundo a qual as religiões pagãs , passadas e presentes, teriam sido de alguma forma incluídas na salvação. 

O artigo 18 do decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária, afirma, com efeito, que os “Institutos religiosos” nos paises de missão, alem de adaptar seus “tesouros místicos” ao gênio e ao caráter de cada nação, “devem examinar como as tradições ascéticas e contemplativas, cujos germes (semina) foram algumas vezes espalhados por Deus nas civilizações antigas [em geral, e pois também em suas religiões] antes da pregação do Evangelho, podem ser assumidas na vida religiosa cristã”. As “civilizações antigas”, cujos deuses eram “ídolos”, cujos sacrifícios eram oferecidos” aos ídolos  e não a Deus” (1 Cor.10, 20), são aqui injustamente revalorizadas pelo Concilio, que quer reconhecer nelas uma presença salutar das “semina Verbi”, dos “germes da Verdade revelada”. Mas isto viola uma verdade que sempre foi considerada como pertencente ao deposito da fé. (A mesma noção é aplicada a todos os povos não cristãos contemporâneos, ai compreendendo então os pagãos, na Lumen Gentium 17 e Ad Gentes 11: os missionários devem descobrir os “germes escondidos do Verbo” entre os povos confiados à sua evangelização).

A falsa descrição do hinduismo, porque se pode ler, em Nostra Aetate 2, que “no hinduismo, os homens escrutam o mistério divino e o exprimem pela fecundidade inesgotável dos mitos e pelos esforços penetrantes da filosofia; procuram a libertação das angustias de nossa condição, seja pelas formas da via ascética, seja pela meditação profunda, seja pelo refugio em Deus com amor e confiança”.

Falsa descrição, porque induz o católico a considerar como validas a mitologia e a filosofia hindus, como se elas “escrutassem” efetivamente o “mistério divino” e como se a ascese e a meditação hindus realizassem alguma coisa de semelhante à ascese cristã. Sabemos ao contrario que a mistura de mitologia, de magia e de especulação que caracteriza a espiritualidade hindu desde a época dos Veda (séculos XVI –X a.C.) é responsável por uma concepção da divindade e do mundo completamente monista e panteísta pois, concebendo Deus como uma força cósmica impessoal, ignora a noção de criação e por conseqüência não faz a distinção entre a realidade sensível e a realidade sobrenatural, entre a realidade material e a realidade espiritual, entre o todo e os elementos particulares, dissolvendo toda existência individual na indistinção do Um cósmico, de onde tudo emana e ao qual tudo retorna na eternidade, enquanto que o eu individual seria em si uma pura aparência. O que falta a esse pensamento, “penetrante” segundo o texto conciliar, é, por força das circunstâncias, a noção da alma individual (bem conhecida dos gregos, em contrapartida) e do que nós chamamos vontade e livre arbítrio.

Acrescentemos a esta doutrina a noção de reencarnação, concepção particularmente perversa (explicitamente condenada no esquema de constituição dogmática De deposito fidei pure custodiendo, que foi elaborado durante a fase preparatória do Concilio e que os progressistas e João XXIII fizeram encalhar durante o Concilio por seu caráter pouco “ecumênico”), e o fato de que a dita “ascese” hindu não é mais do que uma forma de epicurismo para brâmanes, uma procura egoísta e requintada de uma indiferença espiritual superior em relação a todo desejo, mesmo o bom e em relação a toda responsabilidade, indiferença justificada pela idéia de que todo sofrimento purga as faltas de uma vida  anterior, etc...O que podem aprender de bom os católicos com tal concepção do mundo? Gostaríamos realmente saber.

A falsa representação do budismo, variante autônoma parcialmente purificada do hinduismo. Pode-se, com efeito, ler em Nostra Aetate 2, que no budismo “a insuficiência radical deste mundo mutante é reconhecida e se ensina uma via pela qual os homens, com um coração devoto e confiante, poderão ou adquirir o estado de liberdade perfeita, ou atingir a iluminação suprema por seu próprio  esforço ou por um socorro vindo do alto”.

É a imagem de um budismo à la de Lubac, revista e corrigida para ser apreciada por católicos ignorantes que não sabem que “a insuficiência radical deste mundo” é enquadrada pelos budistas numa verdadeira “metafísica do nada”, segundo a qual o mundo e o eu são existências ilusórias e aparentes (e não simplesmente caducas e passageiras mas bem reais, como para o cristão). Para o budista, tudo “se compõe e se decompõe” ao mesmo tempo, a vida é um escoamento continuo cheio da dor universal e para ultrapassar esta dor é preciso se persuadir de que tudo é vão, é preciso se libertar de todo desejo e se fiar em uma iniciação intelectual, uma gnose semelhante à dos hindus (permitindo até o uso da “magia sexual” no budismo tântrico), gnose que deve fazer-nos chegar à indiferença completa de tudo, o Nirvana (“desaparecimento”, “extinção”): uma condição final de privação absoluta na qual só há o nada, o vazio, na qual o eu se extingue totalmente para se dissolver de modo anônimo no Tudo e no Um. Eis o “estado de libertação prefeita” ou de “iluminação suprema” que o Vaticano II ousou propor à atenção e ao respeito dos católicos!

A afirmação segundo a qual “a proposta da salvação (propositum salutis) engloba também aqueles que reconhecem o Criador e entre eles, primeiramente (in primis), os muçulmanos que declaram que guardam a fé de Abraão, adoram conosco o Deus único, misericordioso, que julgará os homens no ultimo dia (qui fidem Abrahae se tenere profitentes, nobiscum Deum adorant unicum etc...)” (Lumen Gentium 16).

Esta afirmação atribui falsamente aos muçulmanos a adoração de nosso Deus e os inclui enquanto tais na proposta da salvação; afirmação contraria ao dogma de fé, já que aquele que não adora o verdadeiro Deus não pode ser incluído no plano da salvação.E os muçulmanos não adoram o verdadeiro Deus porque se bem que reconheçam a Deus (Alá: “o Deus”) a criação do “mundo” e do “homem” a partir do nada, assim como os atributos tradicionais de onipotência e de onisciência e se bem que o reconheçam como Juiz do gênero humano no fim dos tempos,não o concebem como Deus pai, que na sua bondade criou o homem à Sua “imagem e semelhança” (Gen.1,26; Deut. 32, 6 etc...), e não crêem na Santíssima Trindade, da qual têm horror repetindo o erro dos judeus; negam por conseqüência a Graça, a divindade de Nosso Senhor, a Encarnação, a Redenção, a morte na cruz, a Ressurreição: negam todos os nossos dogmas e recusam ler o Antigo e o Novo Testamento, já que os consideram como textos falsificados, não contendo evidentemente nenhuma menção de Maomé.

Alem disso, os muçulmanos recusam o livre arbítrio (defendido somente por alguns exegetas minoritários considerados como heréticos), professando um determinismo absoluto, que não deixa lugar no mundo para as verdadeiras relações de causa e efeito, já que todas as nossas ações, boas e más, foram “criadas” pelo insondável decreto de Alá (Alcorão 54: 52-53).

O reconhecimento de LG 16 é repetido na declaração Nostra Aetate de modo mais detalhado e mais grave: “A Igreja olha também com estima os muçulmanos, que adoram o Deus uno, vivo e subsistente, misericordioso e todo poderoso, criador do céu e da terra, que falou aos homens (qui unicum Deum adorant etc..., homines allocutum). Procuram se submeter com toda sua alma aos decretos de Deus, mesmo se estão ocultos (cuius occultis etiam decretis toto animo se submittere student), como Abraão  foi submisso a Deus, a quem a fé islâmica se refere com boa vontade” (NA 3). Aqui se chega a afirmar que o Deus em que crêem os muçulmanos “falou com os homens”! O Concilio mostra então que considera como autentica a “revelação” transmitida por Maomé no Alcorão? Se for assim, não é uma apostasia implícita da Fé cristã que temos aqui, sabendo que a “revelação” exposta no Alcorão contradiz expressamente todas as verdades fundamentais cristãs?

Além do mais, se descreve a maneira de crer dos muçulmanos precisamente como eles a entendem, dando a entender que o Concilio a aprova. Com efeito, se emprega a imagem da “submissão a Deus”, que é o sentido do termo “islã” (submissão) e cujo adjetivo substantivado é muslim, muçulmano = submisso (a Deus). A frase inteira parece repetir o Alcorão 4:124: “E quem tem uma religião melhor que aquele que se remete inteiramente a Alá, faz o bem e segue a crença de Abraão, como um puro monoteísta (hanif)?” Enfim, a alusão à obediência aos decretos de Alá “mesmo os ocultos” tem um perfume fortemente islâmico, pois ela nos lembra que no Alcorão, Alá é definido como “o visível e o oculto” (57:3), visível em suas obras e oculto em seus decretos: como se o Concilio tivesse querido que compreendêssemos que sua “estima” não recuava em face do caráter ambíguo, perturbador, impenetrável da entidade que fala no Alcorão.

O elogio do Vaticano II à “fé” de Abraão professada pelos muçulmanos, como se ela constituísse uma característica que os aproxima de nós, esconde a verdade, já que se sabe que o Abraão do Alcorão, impregnado de elementos legendários e apócrifos, não corresponde ao verdadeiro Abraão, que é evidentemente aquele da Bíblia, porque o Alcorão atribui a Abraão um “monoteísmo puro” ou antitrinitário, anterior ao monoteísmo judaico e cristão e Maomé, enquanto profeta árabe, descendente de Abraão graças a Israel, teria sido enviado para restaurar esse monoteísmo puro, libertando-o das assim chamadas falsificações judias e cristãs!

Nostra Aetate toma também seriamente em consideração a veneração que os muçulmanos professam por Jesus e a Santa Virgem: “Se bem que não reconheçam Jesus como Deus, veneram-no como profeta; honram sua mãe virginal, Maria, e às vezes até a invocam com piedade” (NA 3)

Mas se sabe que a “cristologia” do Alcorão se funda sobre o Jesus alterado e deformado dos evangelhos apócrifos e das heresias gnosticas de toda sorte que pululavam na Arábia no tempo de Maomé. Mostra um Jesus (Isa) nascido de uma virgem, pela intervenção divina (do anjo Gabriel), profeta particularmente apreciado por Alá, um simples mortal a quem Alá permitiu fazer numerosos milagres, profeta que pregou o mesmo monoteismo que é atribuído a Abraão (57: 26-27), cuja formula declara: “não há nenhum Deus se não Deus, o único, o dominador” (38:65). É por isto que Jesus foi, para os muçulmanos, um servidor de Deus (19:31), um submisso a Alá, quer dizer um muslim, um muçulmano, como Abraão, a ponto de anunciar, como Abraão, a vinda de Maomé (51:6)!Quando os muçulmanos veneram Jesus como profeta, eles o entendem como “profeta do islã”, mentira que nenhum católico, tendo ainda a fé, pode evidentemente aceitar (cf. R. Arnaldez, Jesus filho de Maria, Profeta do islã,Paris, 1980, ps. 11-22, 129-141).

No que concerne à veneração muçulmana em relação à Santa Virgem, que “invocam às vezes com piedade”, é preciso dizer que é um “culto”, praticamente insignificante, de fundo supersticioso; um “culto”, qualquer que seja, que é prestado a Maria enquanto mãe de um “profeta do islã”, e não enquanto mãe de Deus; um “culto” que é então “ofensivo” para as orelhas católicas. 

Além disso, é preciso tornar a dizer que a “mariologia” do Alcorão também é inteiramente corrompida, porque vem de uma mistura de fontes apócrifas e heréticas. A existência de São José e do Espírito Santo são completamente ignoradas. Alem disso, Maria é chamada “irmã de Aarão”, irmão de Moisés, e “filha de Inrão” (em hebreu Amrão) que era seu pai (Num. 26,59), confusão com a profetisa Maria (Ex. 15,21), que viveu mais ou menos doze séculos antes de Cristo! E como se isso não bastasse, ela é introduzida na Trindade dos cristãos, tão detestada e que é recusada com raiva porque ela é constituída, segundo o Alcorão, de Deus (Pai), Maria (Mãe) e Jesus (Filho): “Jesus não disse nunca: tomai-me a mim e a mãe como duas divindades, junto de Deus” (5: 116)!

Enfim, Nostra Aetate 3 parece louvar os muçulmanos e os dar como exemplo aos católicos, porque eles “esperam o dia do julgamento onde Deus retribuirá a todos os homens ressuscitados” e porque eles “têm estima pela vida moral e rendem um culto a Deus, sobretudo pela prece, a esmola  e o jejum”; razão pela qual – conclui o artigo – uma vez esquecidas as “numerosas dissensões e inimizades” que caracterizavam o passado, “o Concilio exorta a todos a esquecerem o passado e a se esforçar sinceramente à compreensão mutua, assim como proteger e promover juntos, para todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade”

Revoluciona-se aqui também o sentido dos fatos históricos, já que as lutas sangrentas, longas e cruéis, fé contra fé, que tivemos de sustentar no curso dos séculos para afastar o assalto do islamismo, são jeitosamente levadas para a dimensão de simples “dissensiones et inimicitiae”. Alem disso são passadas em silencio as diferenças abismais que existem entre a escatologia católica e a escatologia muçulmana (a ausência de uma verdadeira Visão Beatifica, a luxúria do paraíso, a eternidade das penas infernais reservada apenas aos infiéis), assim como as diferenças abismais entre a concepção muçulmana e a nossa sobre a “vida moral” e o “culto”: o islamismo é uma religião  que não somente admite instituições moralmente inaceitáveis, como a poligamia, com todos os seus corolários, mas pretende também garantir a salvação pelas simples praticas legais do culto; religião exterior e legalista, mais ainda do que o farisaísmo condenado formalmente por Nosso Senhor: cf. Mt. 6,5. Tudo isto foi silenciado para nos convidar a uma colaboração impossível, pela simples razão de que os muçulmanos só dão às noções de “justiça social”, “paz”, “liberdade, etc..., o sentido que se pode tirar do Alcorão ou daquilo que foi dito e feito por Maomé, sentido dado no curso dos séculos pela interpretação “ortodoxa”: um sentido “islâmico, totalmente diferente do nosso”. Os muçulmanos, por exemplo, não compreendem a paz do modo como o atual Pontífice reinante a compreende. Eles não admitem que os muçulmanos possam viver sob os infiéis; dividem  o mundo em duas partes: a parte onde domina o islamismo (casa do islamismo) e todo os resto, necessariamente inimigo enquanto não estiver convertido e submisso (casa da guerra); daí a comunidade muçulmana se considerar sempre em guerra. A paz não é para eles um fim em si, que permite os Estados e as religiões diferentes coabitarem; é somente um meio, imposto pelas circunstancias, que obrigam fazer armistícios com os infiéis. A paz deve ter uma duração limitada: não deverá nunca ultrapassar dez anos,; cada vez que se tem os meios, a guerra deve ser retomada – é uma obrigação moral religiosa jurídica para o muçulmano – até a inevitável vitória final, a instauração de um Estado islâmico mundial.

NOTA

A afirmação segundo a qual “os muçulmanos adoram conosco o Deus único, etc...”, parece ser justificada pelo Concilio pela citação em nota da carta pessoal de agradecimento que São Gregório VII, Papa de 1073 a 1085, escreveu em 1076 a Anazir, emir da Mauritânia, que se mostrava bem disposto em face de certos pedidos do Papa e generoso em relação a alguns prisioneiros cristãos que ele tinha devolvido. Nesta carta, o Papa afirmava que esse “ato de bondade” tinha sido “inspirado por Deus”, que exige o amor do próximo e o exige especialmente “de nós e de vós... que cremos e confessamos o mesmo Deus, se bem que de modo diferente (licet diverso modo), que louvamos e veneramos todos os dias o Criador dos séculos e senhor deste mundo” (PL, 148, 451 A). Como explicar tais afirmações? Pela ignorância que havia nessa época da religião fundada por Maomé.

No tempo de São Gregório VII, o Alcorão não havia ainda sido traduzido em latim, por isso os aspectos fundamentais de seu “credo” não eram compreendidos. Sabia-se que os muçulmanos, esses inimigos encarniçados do nome cristão, saídos subitamente dos desertos da Arábia em 633 com uma violência de conquistadores, mostravam, no entanto um certo respeito por Jesus, como profeta apenas e pela Santa Virgem; que eles acreditavam em um Deus único, no caráter inspirado das Sagradas Escrituras, no Julgamento e em uma vida futura. Podiam por conseqüência ser tomados por uma seita cristã herética (a “seita maometana”) equivoco que se manteve por muito tempo já que Dante, no começo de século XIV, colocou Maomé no inferno entre os heréticos e os cismáticos (Inferno XXVIII, v.31 ss).

É neste contexto que deve ser colocado o elogio pessoal dirigido por Gregório VII ao emir: a um suposto “herético” que nessa ocasião se comportava caridosamente, como se o verdadeiro Deus em que se considerava que ele acreditava, tivesse tocado seu coração. Com efeito, pode-se dizer de um herético que ele confesse o mesmo Deus que o nosso, mas de uma maneira diferente. O elogio, no entanto não impediu São Gregório VII de defender, com perfeita coerência, a idéia de uma expedição de todos os paises cristãos contra os muçulmanos, para socorrer a cristandade oriental ameaçada de aniquilamento, idéia realizada pouco depois de sua morte com a primeira cruzada, pregada por Urbano II.

A primeira tradução latina do Alcorão só ocorreu em 1143, cinqüenta e oito anos depois da morte de São Gregório VII, pelo inglês Robert de Chester para o abade de Cluny, Pedro o Venerável, que acrescentou a ela uma firme refutação ao credo islâmico; tratava-se na realidade de um resumo do Alcorão, que ficou como a única tradução durante séculos, até a versão critica e completa do padre Marracci em 1698. O Cardeal de Cusa se serviu dessa primeira tradução para escrever sua celebre Cribatio Alcorani (exame critico do Alcorão) na primeira metade do século XV, que precedeu de pouco a bula emanada, em outubro de 1458, de Pio II (Enea Silvio Piccolomini) para lançar uma cruzada (que nunca se realizou) contra os turcos que penetravam nos Bálcãs depois de terem se apoderado de Constantinopla; bula na qual o Papa se referia aos muçulmanos como aos discípulos do “falso profeta Maomé”, noção que ele reafirmou em 12 de setembro de 1459, em notável discurso pronunciado na catedral de Mantua, para onde tinha sido convocada a Dieta encarregada de aprovar a cruzada, discurso no qual se referiu de novo a Maomé como um impostor, dizendo que se o sultão Mehmed não parasse, este, depois de ter sujeitado todos os príncipes do Ocidente, teria “destruído o Evangelho de Cristo e imposto ao mundo todo a lei de seu falso profeta”(cf. C. De Frede A primeira tradução italiana do Alcorão,Nápoles, 1967; F. Babinger, Maomé o conquistador). Aí está a clara e forte condenação do Islamismo e de seu profeta pelo Magistério pontifical, uma vez eliminado o equivoco que teria feito dele uma “heresia” cristã. 

As proposições: “Ainda que as autoridades judias, com seus partidários, tenham levado à morte o Cristo, aquilo que foi cometido durante sua paixão não pode ser imputado nem indistintamente a todos os judeus então vivos, nem aos judeus de nosso tempo. Se é verdade que a Igreja é o novo povo de Deus, os Judeus não devem por isto, ser apresentados como reprovados por Deus nem malditos, como se isto decorresse das Sagradas Escrituras”(NA 4).

É preciso notar aqui a tentativa de limitar a responsabilidade do deicidio a um circulo estreito de pessoas quase particular, quando o Sinédrio, suprema autoridade religiosa, representava todo o judaísmo e por isso comprometia, na rejeição ao Messias e Filho de Deus, a responsabilidade coletiva da religião judia e do povo judeu, como isso aparece de modo indiscutível na Sagrada Escritura (“A partir desse momento, Pilatos procurou libertá-lo. Mas os judeus gritavam : “Se o soltas não és amigo de César”...” João 19,12 e Mt. 27,25: “Seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”).

Ficamos chocados pela a afirmação segundo a qual “os judeus... não devem ser apresentados como reprovados por Deus nem malditos, como se isto decorresse da Sagrada Escritura”. Falta aqui a distinção necessária entre os indivíduos e a religião judia. Se falarmos dos judeus indivíduos, a afirmação é verdadeira e demonstrada pelo grande numero de convertidos do judaísmo em todas as épocas. Mas se falamos do judaísmo como religião, a afirmação é errada e ilógica: errada porque contradiz os textos evangélicos e a fé constante da Igreja desde as origens (cf. Mt, 21,43: “Por isso vos digo que vos será tirado o reino de Deus e será dado a um povo que produza os frutos dele”); ilógica, porque se Deus não rejeitou a religião judia ou o povo judeu no sentido religioso (o que era uma só e mesma coisa no tempo de Jesus), então a antiga Aliança deve ser considerada como ainda valida, em concorrência com a Nova, assim como a espera injustificada do Messias, ainda alimentada na hora atual pelos judeus! Tudo isto constitui uma apresentação totalmente mentirosa do judaísmo e de sua relação com o cristianismo.

A afirmação inaceitável, contraria à doutrina eterna da Igreja como a toda exegese católica, segundo a qual os livros do Antigo Testamento esclarecem e explicam o Novo,  quando sempre foi ensinado que é o contrario que é verdadeiro, sem reciprocidade e que pois é o Novo testamento que esclarece e explica o Antigo: “...no entanto em sua totalidade os livros do Antigo Testamento utilizados na pregação evangélica adquirem e apresentam no Novo Testamento sua significação completa [afirmação até aqui correta – ndr], e reciprocamente o esclarecem e o explicam [afirmação falsa, em contradição com a precedente] (illud vicissim illuminant et explicant)” (Dei Verbum 16). 

A inversão da missão dos católicos em relação aos praticantes de outras religiões. 

Em lugar de exortar os fieis a um impulso renovado para converter o maior numero possível de infiéis, arrancando-os das trevas em que se encontram, o Concilio exorta os católicos a “reconhecer, preservar e fazer progredir os valores espirituais, morais e sócio- culturais que neles se encontram (quae apud eos invenientur)” (NA 2). A bem dizer, se esforçar para que os budistas, os hindus, os muçulmanos, os judeus, etc...continuem budistas, hindus, muçulmanos e judeus e mesmo “progridam” nos “valores” de suas respectivas religiões e culturas, todas hostis à verdade revelada! Esta exortação exprime um principio geral indicado pelo Concilio à “Igreja” que devia nascer de suas reformas e que se autodefine como “Igreja conciliar” (cardeal Benelli); principio pelo qual se mostra ao “povo de Deus” – padres e leigos – a atitude que devem ter em relação aos “irmãos separados” e a todos os não cristãos. Esta exortação pastoral e outras semelhantes (por exemplo, em LG 17; GS 28; UR 4) constituem uma traição aberta à ordem dada por Jesus ressuscitado aos Apóstolos ( “Ide e ensinai a todas as nações”, Mt. 28, 19), ordem que mutatis mutandis, é valida para todo crente, segundo suas capacidades, porque todo crente, em quanto miles Christi, deve dar testemunho de sua fé, segundo as obras de misericórdia corporal e espiritual.

Como se espantar do fato de que, pela aplicação desta funesta exortação, centenas de milhares de católicos já se tornaram budistas ou muçulmanos, enquanto que as conversões de budistas ou de muçulmanos para o catolicismo são praticamente inexistentes? Como negar que esta exortação é uma das provas do fato de que a crise pós-conciliar encontra suas raízes nas falsas doutrinas que penetraram nos textos do Concilio?

Erros imputados ao Concílio Vaticano II - membros de seitas heréticas e cismáticas (ditos "irmãos separados").

 


A tese historicamente infundada e doutrina perniciosa, segundo a qual “comunidades consideráveis” (haud exiguae) se separaram da Igreja Católica, melhor dizendo tornaram-se heréticas e cismaticas também por culpa de homens da Igreja: “muitas vezes por culpa das pessoas de uma e de outra parte” (Unitatis Reintegratio 3).

A afirmação “Os que hoje nascem em tais comunidades e que vivem da fé em Cristo, não podem ser acusados de pecado de divisão” (UR 3).

A afirmação é teologicamente errada, já que o “pecado de divisão” se consuma ainda hoje, quando o cismático e herético, que “vive” não da “fé em Cristo”, mas das doutrinas de sua seita, quando chega à idade adulta, dá a estas doutrinas a adesão consciente de sua inteligência e de sua vontade, passando do estado de herético e cismático material, de quem está no erro de boa fé, ao estado de herético e cismatico formal, de quem por um ato positivo pessoal, se recusa a submeter-se à doutrina revelada por Cristo e à autoridade que ele instituiu.

A afirmação “os que crêem no Cristo e receberam validamente o batismo, se acham em uma certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja Católica (quadam communione etsi non perfecta)” (UR 3) e a afirmação semelhante do artigo 4, segundo a qual os cismáticos e os heréticos “estão unidos pelo batismo” (baptismate appositi) à Igreja, “mas estão separados de sua plena comunhão” (UR 4), ambas contradizem a tradição universal da Igreja, reafirmada por Pio XII em Mystici corporis, a saber que” só se pode  contar no numero dos membros da Igreja os que receberam o batismo de regeneração e que professam a verdadeira fé e não se separaram, infelizmente, deste corpo por si mesmos ou que, por faltas gravíssimas, dela estão separados pela autoridade legitima”. E isto é valido para todos os heréticos e cismaticos públicos, mesmo que estejam de boa fé (heréticos e cismaticos materiais).

Estes últimos, no entanto, diferentemente dos heréticos e cismáticos formais, são, por sua disponibilidade de professar a verdadeira fé na verdadeira Igreja (votum Ecclesiae), “ordenados”, “por um certo desejo inconsciente, ao Corpo místico do Redentor” e, se bem que se encontrem fora da entidade visível deste corpo, podem pertencer-lhe de modo invisível e chegar assim à justificação e à salvação. Entretanto, ficam “privados desses numerosos dons e dessas ajudas celestes dos quais só lhes é dado gozar na Igreja Católica”. Foi por isso que Pio XII, como seus predecessores, os convidaram “a favorecer os movimentos interiores da graça e saírem de seu estado, no qual não podem estar seguros de sua salvação”: “Que entrem então na unidade católica” (AAS 35 (1943) 242-243; DZ 2290/ 3821).

É preciso em seguida notar a falsidade da frase seguinte, contida na UR 3: “No entretanto, justificados pela fé recebida no batismo, [os “irmãos separados”] estão incorporados ao Cristo e levam a justo titulo o nome de cristãos”; frase pela qual se introduz a idéia de que em virtude só do batismo, os não  católicos estão “incorporados ao Cristo” e que podem ser contados no número dos membros da Igreja, independentemente da profissão da verdadeira fé e da obediência aos Pastores legítimos.

A frase é o resultado da manipulação de uma passagem do Concilio de Florença (1439), ao qual se faz referencia em nota, extraída do celebre decreto pro Armenis que restabeleceu a unidade com a Igreja armeniana. Mas o decreto em questão ilustra os sete Sacramentos, tais como devem ser compreendidos pelos Católicos, sem fazer nenhuma referencia ao batismo dos heréticos e à sua significação: “O primeiro de todos os sacramentos é o batismo, porta da vida espiritual: graças a ele nos tornamos membros do Cristo e parte do Corpo da Igreja (per ipsum enim membra Christi ac de corpore efficiamur Ecclesiae)” (DZ696/1314). Aqueles que estão “incorporados” ao Cristo, à Igreja, são aqui católicos e não os heréticos e os cismaticos.

A ilustração na Lúmen Gentium 8 (cf.§2.0) da falsa noção segundo a qual o patrimônio de valores dos “irmãos separados”, estaria incluido nos “elementa plura sanctificationis et veritatis” que, fora da Igreja Católica, “pertencem de direito à única Igreja do Cristo” (UR 3). Esses “elementos de santificação e de verdade” seriam: “a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo e de outros elementos visíveis”. Deveria-se, então, concluir que “essas Igreja e comunidades separadas, se bem que as cremos vitimas de deficiências [a heresia e o cisma tornaram-se simples “deficiências”], não são, de maneira nenhuma, privadas de significação e de valor no mistério da Salvação. O Espírito do Cristo, com efeito, não recusa se servir delas como meios de salvação cuja força deriva da plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica” (UR 3).

Não se chega a compreender como a “vida da graça” e as três virtudes teologais (fé, esperança e caridade) possam ser conservadas em comunidades heréticas e cismáticas, rebeldes à autoridade da única Igreja legitima do Cristo, sabendo-se que aqui se trata de “comunidades”, organismos estrangeiros e opostos à única Igreja do Cristo e não de indivíduos (para os quais cf. §8.1 e 8.2) Alem disso, gostaríamos de saber quais as possibilidades de “santificação” e quais as “verdades” que estão contidas nas doutrinas e no modo de viver dessas comunidades heréticas e cismáticas orgulhosamente opostas ao Pontífice Romano e a tudo o que é católico e nas quais muitos negam a própria idéia de “santificação” e defendem uma noção inteiramente subjetiva da verdade incluindo a verdade revelada.

A afirmação segundo a qual os “cristãos não católicos” (que são heréticos e cismáticos formais ou aos menos materiais) gozariam, em quanto tais, de “uma união real no Espírito Santo, (immo vera quaedam in Spiritu Sancto coniunctio), pois o Espírito age igualmente neles por seus dons e suas graças com seu poder santificador; e ele deu a alguns dentre eles uma virtude que os fortificou até a efusão  de seu sangue” (LG 15).

Afirmação doutrinariamente falsa porque os “irmãos separados” são “separados” precisamente porque se rebelaram contra o ensino da Igreja, resistindo assim ao Espírito Santo, que não pode então nem “se unir” a eles enquanto comunidades “separadas” e revoltadas, nem conferir a heréticos e cismáticos, enquanto os são, o dom do martírio pela verdadeira fé, que eles não professam e que até mesmo combateram. Os missionários protestantes mortos porque missionários não podem ser considerados como mártires, quer dizer testemunhos da verdadeira fé.

Certamente, um herético formal pode, pela graça de Deus, se converter e morrer pela verdadeira fé, mas então ele morre católico; um herético material pertence, de maneira invisível, pelo votum Ecclesiae, à Igreja Católica e pois, se for martirizado, morre também católico, não herético nem cismatico (mas isso – como diz Pio IX – é “o segredo de Deus”).Mas não é isso que os artigos citados querem dizer: estes afirmam suficientemente claro, ao contrario, que os “não católicos” seriam assistidos enquanto tais pelo Espírito de Verdade,  a ponto  de, alguns entre eles, terem “derramado seu sangue”, quer dizer suportado  o martírio por sua fé, o que implicariam em dizer: por seus erros! Os textos se prestam a pior interpretação, que é essa de querer, por sua alusão aos “mártires” sem referir a sua “fé”, se referir também aos heréticos obstinados, tenazes corruptores de almas, justamente condenados no passado pela Igreja (ver também Dignitatis Humanae, que condena o uso da força para defender a fé, que foi praticada outrora pela Igreja).

O novo dever pastoral confiado à Igreja de “colaborar com o gênero humano [no lugar de o converter ao Cristo] para a instauração de uma fraternidade universal” (GS 3); daí a exortação dirigida aos católicos (em realidade uma ordem) para colaborar com os heréticos e os cismaticos (os “irmãos separados”) para elaborar traduções ecumênicas das Santas Escrituras (Sacrosantum Concilium 22); para colaborar na obra do apostolado cristão, em nome do “patrimônio evangélico comum”, que comportaria até “o dever comum (officium) do testemunho cristão” (Apostolicam Actuositatem 27; UR 24); para orar com eles em certas circunstancias especiais (UR 8).

Trata-se de uma pastoral totalmente nova, porque ensina exatamente o contrario do que foi ordenado pelos Apóstolos quanto à atitude que se deve ter em relação aos heréticos: “Foge do homem herege, depois da primeira e segunda correção; sabendo que um tal homem está pervertido e peca, condenado pelo seu próprio juízo”(Tito 3, 10-11); “Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda, participa das suas obras más” (2 João, 10-11).

O erro doutrinal que subentende a “nova” pastoral é evidente: não existe e não pode existir “patrimônio comum” e “valores comuns” com os heréticos e os cismáticos. Os protestantes não reconhecem a Tradição como fonte do dogma, nem reconhecem a verdade de fé segundo a qual é o Magistério da Igreja, assistido pelo Espírito Santo, que define “o sentido e a interpretação das Escrituras” (DZ786/1507), Escrituras que eles deformam de mil modos, se fiando no livre exame individual, ao qual ousam submeter a aceitação de tal ou qual verdade revelada. Lutero, seu chefe, destruiu tudo o que ele pôde no dogma e na moral: negou a autoridade do Papa, da Tradição, o sacerdócio, alterou as Escrituras desnaturou a própria noção de Igreja, reduziu o numero dos Sacramentos de sete para dois e estes dois são abastardados, negou a transubstanciação e o sentido propiciatório do Santo Sacrifício, o Purgatório, a virgindade de Maria depois do parto, ridicularizou o principio da Santidade, a virgindade e a castidade, admitiu o divorcio, negou o livre arbítrio e o valor meritório da obras, fomentou os ódios entre cristãos incitando-os alem disso contra o principio da autoridade. Os anglicanos conservaram o episcopado, mas é como se não o tivessem porque suas consagrações e ordenações são nulas. Leão XIII declarou-o pelo julgamento dogmático em 1896 (DZ 1963/3315 ss. e 3317 a-b): são nulas por defeito de forma e de intenção.Os anglicanos são uma seita submissa ao poder político, uma “religião civil” com fachada cristã. Entre os protestantes está hoje espalhada a presença de “sacerdotisas”, forma de neopaganismo no qual os heréticos caíram depois da penetração do feminismo e que querem instaurar também na Igreja católica, tornada “ecumênica” (sobre os “ortodoxos” ver abaixo 8.6).

A terminologia ambígua “Igrejas ou comunidades eclesiais” ou ainda “Igrejas e comunidades separadas”, relacionadas “às denominações não católicas: “suas próprias Igrejas ou comunidades” (LG 15); “...estas Igrejas e comunidades separadas...”  (UR 3).

Uma tal terminologia qualifica de “Igrejas” as seitas heréticas e cismáticas com um erro teológico evidente já que somente a Igreja católica é a Igreja fundada por Cristo. Nenhuma comunidade separada desta Igreja, fundada por Cristo sobre Pedro, pode pretender ser, nem individualmente nem reunida nas outras comunidades separadas, esta Igreja única e católica que Jesus Cristo instituiu; nenhuma pode, alem disso, pretender ser membro ou parte desta, estando visivelmente separada da unidade católica o que é também a situação dos Orientais cismaticos, como foi reafirmado, contra as pretensões do ecumenismo não católico, por todos os Pontífices Romanos, de Pio IX a Pio XII.

A exortação dirigida aos teólogos católicos, a fim de que “expondo a doutrina, lembrem-se de que há uma ordem ou uma “hierarquia” das verdades da doutrina católica, em razão de suas diferentes relações com os fundamentos da fé cristã” (UR 11).

Esta exortação contem a idéia errada, expressamente condenada por Pio XI em “Mortalium animos” (1929 DZ 2199/1683), da existência de verdades reveladas, de dogmas, que sejam mais ou menos importante aceitar, quando, em razão da autoridade de Deus, temos de aceitar, com a mesma obrigação, todas as verdades contidas na Revelação Divina, porque “à razão repugna que não se creia mesmo que seja em uma só coisa se foi dita por Deus” (Leão XIII Satis  Cognitum).

A exortação leva à conclusão absurda de que, no “dialogo ecumênico”, se possa discutir com os hereges as “verdades doutrinais” que nessa pretensa “hierarquia”, ocupem uma posição menos importante; esta exortação desemboca, na continuação, no falso principio contido na conclusão do artigo 11, do qual falaremos no próximo parágrafo.

O principio segundo o qual, expondo as doutrinas da Igreja em face àquelas dos irmãos separados, levando em conta a “hierarquia” (inexistente) das verdades doutrinais, “será traçada a via que conduzirá a todos, por esta emulação fraterna, a um conhecimento mais profundo e uma manifestação mais evidente das insondáveis riquezas do Cristo (Efesios, 3,8)” (UR11).

Principio inaudito, no limite da heresia, porque confia o dever de “um mais profundo conhecimento” e “uma manifestação mais clara” das “insondáveis riquezas do Cristo” ao estudo teológico em comum com os heréticos. Como se não fosse o Magistério infalível encarregado de transmitir fielmente e de definir claramente a Verdade revelada e como se a Verdade católica pudesse andar ao par com os erros dos membros das seitas e dos cismáticos e até se colocar em uma “emulação fraterna” para nos fazer conhecer melhor as riquezas insondáveis de Nosso Senhor! São Paulo nos diz em Efesios 3,8 (traiçoeiramente citado pelo Concilio) que “lhe foi dada a graça de anunciar aos Gentios a insondável riqueza do Cristo”: de anuncia-la pela pregação da sã doutrina (2 Tim. 4,2-3), não pelo “dialogo” com os heréticos e os cismáticos, expressamente interdito por ele e por São João (e por todos os Papas) (cf. § 8.5)

O enfraquecimento, a deminutio, para satisfazer os protestantes, do dogma definido pelo Concilio de Trento, segundo o qual só a Igreja é encarregada de “julgar a verdadeira significação e interpretação das Santas Escrituras” (DZ 786/507). O enfraquecimento deste dogma tem lugar na frase: “segundo a fé católica, o magistério autentico ocupa um lugar particular (peculiarem locum) para a explicação e a pregação da Palavra de Deus escrita” (UR 21). Somente um “lugar particular” na “explicação” e na “pregação” da Palavra escrita? Mas é bem mais do que isto que cabe ao Magistério, porque ele é sobrenaturalmente fundado e assistido, é o único juiz da “verdadeira significação e da interpretação das Escrituras”.

A afirmação errada segundo a qual os protestantes “querem, como nós, se apegarem à Palavra do Cristo como a fonte da força cristã, etc...” (UR 23). Esta afirmação está errada porque os protestantes querem, na realidade, se prenderem à “palavra do Cristo” não como católicos, quer dizer, não como a Igreja Católica ensina, mas segundo o falso principio do “livre exame”, que permite “proclamar livremente tudo o que [lhes] parecer verdadeiro” (confidenter confitendi quidiquid verum videtur) principio formalmente condenado como herético em 1520 por Leão X, na bula Exurge Domine, que condenou as heresias de Lutero (DZ769/1479).



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Erros imputados ao Concílio Vaticano II - Santa Igreja e a Santíssima Virgem

 



 Uma falsa noção da Santa Igreja (conhecida como erro do subsistit in): A Igreja não é mais concebida como a única e verdadeira Igreja do Cristo (assim como sempre foi ensinado), já que a "Igreja do Cristo" — ousaram escrever — "subsiste" na Igreja Católica assim como subsiste "pelo dom de Deus" em "múltiplos elementos de santificação e de verdade" que são exteriores a ela (Lumen Gentium 8; e mais: Dignitatis Humanae 1; Unitatis Redintegratio 3).


Isto implica em afirmar, contra o dogma da fé, que pode haver salvação para as almas fora da Igreja Católica que, portanto, não é mais o único "meio de salvação", e que as comunidades heréticas e cismáticas são elas também "instrumento de salvação" (UR 3), apesar de suas "deficiências", porque o Espírito Santo não recusa se servir delas como meios de salvação cuja força deriva da plenitude de graça e de verdade que foi confiada à Igreja Católica (UR 3 cit.).

Deixa-se por enquanto para a Igreja Católica "toda a plenitude dos meios de salvação" já que ela é generale auxilium salutis, "o meio geral da salvação" (ib.). Contudo a Igreja passa assim de único meio de salvação para simples "meio geral" (expressão obscura), que fornece "toda a plenitude dos meios de salvação", mas somente a plenitude e não mais a unicidade destes. Isso significa que in mente Concilii, existem meios, por assim dizer, menos plenos mas que contudo conferem a salvação; salvação que, em si, não pode ser menos plena já que não se pode conceber se salvar pela metade; meios esses que se encontrariam junto aos irmãos ditos "separados", uma vez que estes últimos gozariam da assistência do Espírito Santo, não enquanto indivíduos, mas enquanto comunidades separadas de heréticos e de cismáticos.

Encontramo-nos em face de um erro teológico manifesto, já que as comunidades "separadas" o são precisamente porque recusaram a assistência do Espírito Santo para correrem atrás de seus próprios erros, os quais as conduziram à separação. Esta nova doutrina do Concílio é, além disso, incoerente no plano lógico, pois não se compreende como meios de salvação que comportariam "deficiências", menos plenos do que os da Igreja Católica, podem dar a mesma salvação que aqueles oferecidos por esta última: a meios desiguais deveriam corresponder resultados desiguais, não o mesmo resultado.

Nota sobre a declaração "Dominus Iesus"

Numerosos católicos se alegraram com a Declaratio "Dominus Iesus" (AD 2001), que reafirmou o "subsist in" da Igreja de Cristo na Igreja Católica e o princípio pelo qual a Igreja Católica é a única a possuir a "plenitude" dos meios de salvação. No entanto, para estar conforme ao depósito da fé, a Declaratio deveria dizer que a Igreja do Cristo subsiste unicamente na Igreja Católica, no lugar de dizer — em perfeito acordo com Lumen Gentium e Unitatis Redintegratio — que a "Igreja do Cristo, apesar das divisões entre os cristãos, continua a existir plenamente somente na Igreja Católica" (DJ 16). É o advérbio "plenamente" que não se pode manter, já que quer significar que a Igreja do Cristo continuou e continua a existir, mesmo não plenamente, nos "elementos" que, apesar de se acharem fora da Igreja Católica, contudo conferem a salvação. É justamente essa noção que contradiz o dogma bilimenar do Extra Ecclesiam nulla salus. Com efeito, a verdade proclamada neste dogma (nulla salus = nenhuma salvação) é a seguinte: fora da Igreja Católica, única legítima Igreja do Cristo nos séculos, não existem nem podem existir "meios de salvação", plenos ou não plenos, que sejam meios, isto é, que possam obter a salvação porque postos em ação pelas "Igrejas" ou "comunidades" de heréticos e cismáticos enquanto tais. Fora da Igreja existe somente a possibilidade de uma salvação individual do herético ou do cismático material, quer dizer do herético de boa fé, que adere à doutrina de sua seita por ignorância não culpável da doutrina católica e que procura fazer sinceramente a vontade de Deus em tudo. Tal é a doutrina do batismo de desejo implícito, que se aplica também aos não cristãos: se o infiel ou o herético de alma piedosa e devota tivesse conhecido a Igreja ou a verdadeira doutrina da Igreja, teria aderido a ela. Extra Ecclesiam (visível) só existe, pois, a possibilidade de uma salvação individual que pode se realizar, por obra do Espírito Santo, apesar do cismático, do herege, do infiel pertencerem materialmente a suas seitas, comunidades ou religião e não porque tal ou tal seita ou comunidades representasse um elemento da Igreja do Cristo no qual agiria, se bem que de maneira imperfeita (!) "a mesma plenitude da graça e da verdade, que foi confiada à Igreja Católica" (Unitatis Redintegratio).

E isso não é tudo. Tanto o Vaticano II como a Declaratio Dominus Iesus tendem a aplicar este gravíssimo erro doutrinal igualmente a todas as religiões não cristãs, como também aos pagãos, porque todos os dois expõem a falsa doutrina segundo a qual "semina Verbi", "sementes do Verbo", de algum modo, seriam encontradas e se encontrariam nessas religiões. Que se compare Lumen Gentium 17; Gaudim et Spes 36; Ad Gentes 11,18; Nostra Aetate 2 com DJ 12,13,14. Os "elementos" de verdade e de santificação supostamente presentes nas comunidades de heréticos e de cismáticos têm, pois, seu paralelo nas "sementes do Verbo" as quais querem imaginar que estão presentes no paganismo antigo e moderno e nas religiões que se auto-proclamam reveladas.

A falsa doutrina das "semina Verbi" deriva de uma manipulação do pensamento dos Padres da Igreja (são Justino e Clemente de Alexandria), que tinham visto nas intuições de certas verdades especulativas e éticas, próximas da ordem moral estabelecida pelo verdadeiro Deus no mundo e no homem, por parte de certos filósofos (Platão, Aristóteles) e de certos poetas gregos, como uma "semente do Verbo divino"; reconhecimento limitado às justas intuições de certos filósofos e poetas, mas nunca atribuído à religião pagã, considerada desde sempre, de acordo com a Escritura, como "culto do demônio" (Sl 95; I Cor 10,20). Foi a "Nova Teologia" que incluiu arbitrariamente a religião pagã na atestação dos Padres (cf. Le Sel de la Terre, 38, outono 2001, p. 1-4).

O erro do Vaticano II permanece, pois, na declaração Dominus Iesus. Continuam a ensinar que as comunidades heréticas e cismáticas fazem parte da "Igreja do Cristo", se bem que gozando ex sese de (supostos) meios de salvação que apresentam "deficiências", e que seriam, portanto, menos plenos, se achando por essa razão em uma posição de inferioridade em relação à Igreja Católica; inferioridade que, no entanto, não exerce influencia no que concerne à obtenção da salvação — inferioridade, portanto, meramente teórica. Tudo isso é absurdo e incoerente e representa a negação da verdade de fé divina e católica segundo a qual só a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja do Cristo, imutável e fiel nos séculos, e fora dela não há salvação (DZ 802, 3866-3872).

 A obscura noção de "Igreja do Cristo" como "mistério trinitário", a obscura eclesiologia trinitária, segundo a qual há uma sucessão da Igreja do Pai para a Igreja do Filho e, portanto, para a Igreja do Espírito Santo (Lumen Gentium 2-4); noção desconhecida do depósito da fé e graças à qual, deformando santo Irineu (adv. Haer. III, 24,1), se professa abertamente um rejuvenescimento e uma renovação da Igreja por obra do Espírito Santo, como se estivéssemos em uma terceira idade final da própria Igreja (LG 4); perspectiva que parece reafirmar erros de Joaquim de Fiore condenados pelo Concílio de Latrão (1215), décimo segundo da série de concílios ecumênicos (DZ 431-3 / 803-807).

Uma noção errônea da colegialidade, juridicamente anormal pois comporta, contra a Tradição e a constituição da Igreja, dois titulares da autoridade suprema de jurisdição: o Soberano Pontífice e o colégio dos Bispos tendo em sua cabeça o Pontífice, sendo que somente este último pode exercê-lo livremente (Lumen Gentium 22 e nota praevia). Além disso, esta colegialidade errônea comporta o desaparecimento de fato da responsabilidade pessoal exclusiva do Bispo no governo de sua diocese, substituída pela responsabilidade coletiva das conferência episcopais (Christus Dominus 37), que agora também gozam de poderes legislativos (CD 38, 4o.), e que se vêem reconhecer uma larga autonomia em numerosos domínios tradicionalmente reservados à competência exclusiva da Santa Sé (cf. infra, 3.4, 13.6, 14.0, 15.9).

Uma representação gravemente errada e ambígua da definição tradicional da Igreja como "Corpo místico do Cristo" no artigo 7 da constituição Lumen Gentium que lhe é consagrada. Efetivamente, pode-se ler ali que "o Filho de Deus, na natureza humana à qual está unido, alcançando a vitória sobre a morte por sua morte e sua ressurreição, resgatou o homem e o transformou para dele fazer uma nova criatura (hominem redemit et in novam creaturam transformavit) (cf. Gal. 6,15; II Cor. 5, 17)" (Lumen Gentium 7).

Parece que se considera aqui a redenção como já tendo tido lugar para cada homem, a partir do momento em que se declara que o homem foi transformado "em uma nova criatura" não porque acreditou no Cristo, nem porque se converteu, tornou-se cristão com a ajuda do Espírito Santo, nem por sua fé e suas obras sustentadas pela Graça (como aparece claramente em Gal. 6, 15 e II Cor 5,17 impropriamente citadas pelo Concílio), mas pelo próprio fato da Encarnação, do sacrifício e até da ressurreição do Cristo. O "Corpo místico" seria, portanto, constituído de "novas criaturas", que são consideradas redimidas dessa maneira: é o erro da redenção objetiva e anônima, cavalo de batalha da "Nova Teologia" (cf. §5.0 e 5.1 desta sinopse), que faz total abstração do papel do livre arbítrio, da fé e das obras para a obtenção da salvação. Evidentemente, quiseram assimilar, sic et simpliciter, o "Corpo místico do Cristo" ao gênero humano (cf. Lumen Gentium 1).

Outra falsa noção da Igreja: concebê-la como "povo de Deus" e não como "Corpo místico do Cristo" (Lumen Gentium 9-13). Esta definição, de um lado, toma a parte pelo todo, quer dizer, toma o "povo de Deus" mencionado em I Pedro 2,10, pela totalidade da Igreja, quando se trata de uma expressão de louvor dirigida por são Pedro aos fieis convertidos do paganismo ("Vós que outrora não éreis seu povo, mas agora sois povo de Deus"), e que conduz a uma visão "democrática", "comunitária" da própria Igreja, visão totalmente estranha à Tradição Católica, mas próxima, ao contrário, da maneira de sentir dos protestantes heréticos. Por outro lado, essa definição inclui também na noção de "povo", e portanto em uma desabitual e indefensável perspectiva "comunitária", a Hierarquia, cujos elementos são considerados "membros" do "Povo de Deus" (Lumen Gentium 13) e a este título parecem participar com o "povo" do Corpo místico do Cristo.

Essa falsa noção do "povo de Deus" está sobreposta à noção ortodoxa do "Corpo místico", no qual se participaria agora dentro do coletivo representado pelo "povo de Deus". Nesta ótica, o sacerdócio perde seu sentido autêntico, porque se torna uma simples função do "povo de Deus", que é exercida sob as duas formas do "sacerdócio comum dos fiéis" e do sacerdócio "ministerial" ou "hierárquico" (que é o verdadeiro sacerdócio, o dos padres: sobre este ponto de vista ver infra §4.1, 4.3).

O obscurecimento da noção da santidade da Igreja, que pertence ao depósito da fé. Lê-se, efetivamente, que a "Igreja [do Cristo — N. da R.], que encerra em seu seio os pecadores, que é santa e, ao mesmo tempo, sempre deve ser purificada, procura sem cessar a penitência e a renovação" (Lumen Gentium 8), o que é um erro teológico evidente, já que é o pecador que tem necessidade de purificação e não a Igreja, graças à qual o pecador a obtém.

A santidade e a perfeição pertencem à Igreja Católica, enquanto Corpo místico do Cristo, fundada por Ele e governada por intermédio do Espírito Santo: e o mesmo vale para o depósito da fé e os Sacramentos, dos quais a Igreja tem a guarda. Elas têm para nós um valor religioso, metafísico e teológico que as faltas dos homens da Igreja ou dos fiéis não podem ex definitionemanchar. É, portanto, completamente errado escrever, nisso persistindo, que aqueles que se confessam "se reconciliam com a Igreja que seu pecado tinha ferido (quam peccando vulnaverunt)" (Lumen Gentium 11) ou que a Igreja é "aureolada por uma santidade verdadeira mas imperfeita" (Lumen Gentium 48) por causa do pecado que a fere continuadamente: é errado porque o pecado ofende a Deus, mas fere e portanto prejudica somente àquele que o comete e isso é tão verdade que a pena só se aplica a ele (o Julgamento é individual). A Igreja Católica, enquanto tal, não pode ser ferida pelo pecado de um de seus membros, muito menos ainda o depósito da fé.

Uma deformação antropocêntrica da noção de pecado, já que se afirma, no fim do artigo 13 da Lumen Gentium, que "o pecado é, por fim, uma diminuição do próprio homem na medida em que o impede de chegar à sua própria plenitude (a plenitudine consequenda eum repellens)", no lugar de dizer que ele "o impede de alcançar sua salvação", como se a "plenitude" do homem, a ausência de contradições consigo mesmo, fossem valores principais e mais ainda constitutivos da noção de pecado que, ao contrário, é a ofensa feita a Deus, pela qual merecemos a justa sanção, compreendendo nela a danação eterna. Esta é uma verdade de fé que não foi lembrada pelo Concílio em nenhum de seus textos.

A atribuição à Santa Sé de uma nova missão, que não corresponde ao que sempre foi ensinado: realizar a unidade do gênero humano (v. supra, sobre a alocução de abertura de João XXIII). Lumen Gentium afirma que "a Igreja do Cristo" é "um sinal e um meio de operar a união íntima com Deus e a unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium 1). Ao processo de unificação do mundo que se considerava então em curso de realização, a Igreja deveria trazer sua contribuição permitindo ao mundo atingir "igualmente sua plena unidade no Cristo" (ibidem). E isto não tinha nada de espantoso, já que "promover a unidade" do gênero humano — escrevia-se — "corresponde à missão íntima da Igreja" (Gaudium et Spes 42). Mas não se trata de uma unidade em função da salvação das almas, unidade a ser atingida portanto pela conversão ao Catolicismo (como qualquer ingênuo poderia eventualmente pensar), pois essa unidade parece simplesmente resultar da "íntima união com Deus" de todo o gênero humano enquanto tal. E esta noção é introduzida nos textos do Concílio graças a uma reinterpretação heterodoxa, típica da "Nova Teologia", dos dogmas da Encarnação e da Redenção, subvertidos até deles se retirar uma noção dita "objetiva" da Redenção se realizando, graças à Encarnação, em todos os homens, independentemente de sua consciência e de sua vontade, como se eles fossem cristãos "anônimos" (v. supra, sobre a alocução de abertura de João XXIII, e infra seção 5).

Mas "a missão íntima da Igreja", é aquela que lhe deu Nosso Senhor ressuscitado: "ide e ensinai a todos os povos, batizando-os, etc" (Mt 28,19): quer dizer, converter ao Cristo o maior número possível de almas antes da Parusia, sem se preocupar em realizar a unidade do gênero humano, ideal quimérico, intrinsecamente anticristão, porque é uma forma de divinização do homem, que se procura exaltar e contemplar na Unidade, ideal importado da filosofia do Iluminismo e professado com devoção pela franco-maçonaria.

A noção segundo a qual a Santíssima Virgem "progride no caminho da fé" (Lumen Gentium 58), como se Ela não tivesse sabido depois da Anunciação que Jesus era o Filho de Deus, consubstancial ao Pai, o Messias anunciado.

Uma outra noção gravemente insuficiente da Igreja, porque a reduz a apenas seu aspecto sociológico, descritivo, de simples "associação de homens (societas hominum) tendo o direito de viver, na sociedade civil, segundo os preceitos da fé cristã" (Dignitatis Humanae 13), deixando cair no esquecimento sua natureza de societas genere et iure perfecta, conforme sua instituição divina e o fim supremo para o qual ela tende, "tanto que sua potestas é muito superior a todas as outras e não pode ser considerada como inferior ao poder civil, nem lhe ser submetida de modo algum" (Leão XIII Imortale Dei 1885, DZ 1865 / 3167). Esta doutrina tradicional do primado e da potestas indirecta da Igreja sobre a sociedade civil e sobre o Estado, Vaticano II tratou cuidadosamente de não reafirmar.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Se toda mentira é pecado mortal

 


O quarto discute assim. – Parece que toda mentira é pecado mortal.

1. – Pois, diz a Escritura: Perderás a todos os que proferem a mentira. E noutro lugar: A boca que mente mata a alma. Ora, a perdição e a morte da alma vem só pelo pecado mortal. Logo, toda mentira é pecado mortal.

2. Demais. – Tudo o que contraria um preceito do decálogo é pecado mortal. Ora, a mentira é contra o seguinte preceito do decálogo – não dirás falso testemunho. Logo, toda mentira é pecado mortal.

3. Demais. – Agostinho diz: Quem mente não o faz de boa fé, pois, ao mesmo tempo quer que aquele a quem mente lhe dê fé e não lhe dá a ele, mentindo. Ora, todo o que viola a boa fé pratica uma iniquidade. Mas, ninguém viola a boa fé e comete uma iniquidade, por ter praticado um pecado venial. Logo, nenhuma mentira é pecado venial.

4. Demais. – A recompensa eterna só pelo pecado mortal a perdemos. Ora, mentindo, perdemos a recompensa eterna, que se transforma em temporal. Assim, diz Gregório: Pela recompensa que receberam as parteiras sabemos a culpa que recai sobre a mentira. Pois, a recompensa que mereceriam pela benignidade com que procederam, e que lhes podia dar a vida eterna, foi transformada numa recompensa terrena, pela culpa da mentira que disseram. Logo, mesmo a mentira oficiosa, como a das parteiras, considerada levíssima, é pecado mortal.

5. Demais. – Agostinho diz: É mandamento para os perfeitos não só não mentir, de nenhum modo, mas nem mesmo querê–lo, Ora, agir contra o preceito é pecado mortal. Logo, toda mentira dos perfeitos é pecado mortal. E pela mesma razão a de qualquer outro, pois, do contrário, estariam em pior condição.

Mas, em contrário, Agostinho: Há dois gêneros de mentira que não encerram grande culpa, embora não sejam isentos dela: a que proferimos por brincadeira e a que dizemos com a intenção de sermos útil ao próximo. Ora, todo pecado mortal implica uma culpa grave. Logo, a mentira jocosa e a oficiosa não são pecados mortais.

SOLUÇÃO. – Pecado mortal é propriamente o que repugna à caridade, que nos faz viver a alma, unindo–a com Deus, como dissemos. Ora, a mentira pode contrariar à caridade de três modos: em si mesma, relativamente ao fim intencionado ou acidentalmente.

Em si mesma, contraria à caridade pelo sentido falso que inclui. – O que, se for concernente à coisas divinas, contraria à caridade de Deus, cuja verdade fica oculta ou corrompida por quem assim mente. Por onde, a mentira, neste sentido, não só se opõe à virtude da verdade, mas também à da fé e da religião. Logo, tal mentira é gravíssima e pecado mortal. – Se, porém a significação falsa for em matéria, cujo conhecimento diga respeito ao bem de outrem, por exemplo, à perfeição da ciência e à informação dos bons costumes, tal mentira, na medida em que danifica o próximo, inculcando–lhe uma opinião falsa, contraria à caridade, quanto ao amor do próximo. Por isso é pecado mortal. – Se porém a opinião falsa, gerada pela .mentira, é em matéria que não importa seja conhecida de tal modo ou de tal outro, então essa mentira não danifica o próximo. Por exemplo, se nos enganarmos em relação a fatos contingentes, que não nos interessam pessoalmente. Por onde, essa mentira não é em si mesmo pecado mortal. Quanto ao fim intencionado, há uma certa mentira que contraria à caridade; por exemplo, a que é proferida para injuriar a Deus. E é sempre pecado mortal por ser contrária à religião. Ou ela redunda em dano do próximo, na sua pessoa, riquezas ou bom nome. O que também é pecado mortal, pois, pecado mortal é danificar o próximo; e já pecamos mortalmente só por ter a intenção de cometer um pecado mortal. Mas, não sendo o fim intencionado contrário à caridade, também a mentira, nesse caso, não será pecado mortal. Tal o que se dá com a mentira jocosa, com a qual só temos a intenção de divertir passageiramente; e com a mentira oficiosa, com a qual visamos alguma utilidade do próximo.

Enfim, acidentalmente, a mentira pode contrariar à caridade em razão do escândalo ou de qualquer dano consequente. E então será também pecado mortal, desde que não se teme, por causa de escândalo, mentir publicamente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Os lugares citados se entendem relativamente à mentira perniciosa, como a explica a Glosa sobre o lugar: Perderás a todos os que proferem a mentira.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Todos os preceitos do decálogo, ordenando–se ao amor de Deus e do próximo, como se disse, a mentira é contra o preceito do decálogo, na mesma medida em que é contra o amor de Deus e do próximo. Por isso, ele proíbe sinaladamente o falso testemunho contra o próximo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Também o pecado venial, em sentido Jato, é uma iniquidade, por estar fora da igualdade da justiça. Por isso, diz a Escritura: Todo pecado é uma iniquidade. E é nesse sentido que fala Agostinho.

RESPOSTA À QUARTA. – A mentira das parteiras pode ser considerada a dupla luz. Primeiro, quanto ao afeto de benevolência para com os Judeus, e ao temor de Deus, sentimento que revelam nelas disposições virtuosas. E eram por isso merecedoras da recompensa eterna; nesse sentido Jerônimo explica um lugar da Escritura dizendo, que Deus lhes edificou moradas espirituais. – Noutro sentido, o caso das parteiras pode ser considerado quanto ao ato mesmo anterior, da mentira. E por ele não puderam merecer a recompensa eterna; mas talvez alguma remuneração temporal, cujo mérito não repugnava à deformidade da mentira que proferiram como repugnava ao mérito da recompensa eterna. E assim se devem entender as palavras de Gregório; e não corno pretende a objeção, que, por causa da mentira as parteiras mereceram perder a remuneração eterna, que já tinham merecido pelo afeto precedente.

RESPOSTA À QUINTA. – Certos dizem que, para os varões perfeitos, toda mentira é pecado mortal. Mas não têm razão. Pois, nenhuma circunstância agrava o pecado ao infinito, senão a que o transfere de uma espécie para outra. Ora, a circunstância de pessoa não opera essa transferência, salvo talvez em razão de algum elemento anexo, por exemplo, se contrariar o voto feito; o que não se pode dizer da mentira oficiosa ou jocosa. Por onde, a mentira oficiosa ou a jocosa, dos varões perfeitos, não é pecado mortal, salvo talvez e por acidente, em razão do escândalo. E neste sentido podem entender–se as palavras de Agostinho, quando diz que é mandamento para os varões perfeitos, não Só não mentir, de nenhum modo, mas, nem mesmo querê–lo. Embora Agostinho não o afirme de maneira assertória, mas em sentido dubitativo, pois acrescenta: Salvo talvez se aos perfeitos, etc. – Nem obsta que estejam colocados num estado, a que é próprio respeitar a verdade, aqueles que tem a obrigação de a dizer em juízo ou no ensino, e que cometerão pecado mortal, contrariando a esse dever, quando mentem. Mas, isso não implica necessariamente que cometam pecado mortal, mentindo, em matéria diferente.

(S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q.110, art.4.)

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Tudo é pó

 


Abordando o problema da matéria sob o ponto de vista do Uno e do Múltiplo, que para William James, acompanhado de Paul Grenet, é um dos testes cruciais do pensamento filosófico, chegaremos à conclusão de que o materialismo fica embaraçado, não diante da hipótese de Deus e de anjos, mas justamente diante da mobilidade do ser que, nos dizeres dessa filosofia, tem a hegemonia do Universo. É o próprio ens mobile que deixa o materialista tonto e que o obriga logicamente a seguir o caminho do mecanicismo, que nega a mudança intrínseca e profunda, concedendo apenas a mobilidade extrínseca, enquanto, no lado extremo do problema o espiritualista Bergson, que libertou Maritain e Raissa da opressão do empirismo, afirma que a mudança completa e profunda é a principal e até a única realidade.
 
O materialista coerente, como já vimos em conversas anteriores, é obrigado a pensar num elemento fundamental que produziria todas as formas do Universo pela multiplicidade e pela variedade das posições dos grãos de matéria, e assim explicará as mudanças extrínsecas pela variação de arranjo das mesmas partículas, resolvendo destarte o antigo paradoxo do devenir, pelo qual tudo muda ou pelo qual da mesma coisa se diz que não mudou e no mesmo momento se diz que mudou. Quando um dia apareceu no limiar da minha porta um cidadão barbado, meio calvo, que no decorrer da conversa revelou-se adepto do marxismo e que, após a primeira hesitação, identifiquei como o menino deixado trinta anos atrás num pátio de colégio, o meu primeiro pensamento foi este: Como o Inácio mudou! Mas o primeiro elemento da proposição diz que Inácio é Inácio e continua a ser Inácio; mesmo porque se não houvesse identidade do sujeito que mudou eu não poderia dizer que mudara. O caso seria de substituição e não de modificação.

Qualquer estudante de Filosofia sabe que foi esse o grande problema que Aristóteles resolveu com a famosa fórmula da composição de todos os seres criados em potência e ato; e não ignora também que essa composição de todos os seres, para ter sentido, deve estar pendurada no Ser sem composição e sem vicissitudes, que os filósofos chamam de Ato Puro e os crentes chamam de Deus. Assim, na linha filosófica aristotélico-tomista a potência exprime a pobreza, a indeterminação, um ser que ainda não é o que será ou pode ser, uma espécie de nada relativo, enquanto o ato exprime a riqueza e a plenitude do ser. Será, portanto, na direção oposta às puras potencialidades da matéria que encontraremos, segundo aquela escola de pensamento, o Ser pleno explicador e garantidor de todos os seres.

O Materialista segue o trajeto oposto e vai buscar na própria matéria a imutabilidade e a simplicidade fundamentais que devem dar a razão de ser de cada coisa e de suas transmutações. E o materialista mecanicista, que é o mais coerente e sincero dos materialistas, em face do problema das mudanças, explicará todas as transformações do universo pelo movimento das partículas que o compõe e pelas posições que tomam em determinado instante. Mas para tal pensamento ter consistência terá de se deter diante de tais elementos fundamentais ou de tais átomos, que serão átomos, indivisíveis e inquebrantáveis, e sem nenhuma composição. Digo que terá de se deter por achar indispensáveis esses grãos de matéria pura, explicadora por suas potencialidades de todas as formas observadas e garantidora de todos os seres pela imutabilidade, pela eternidade, pela infinita dureza e indestrutibilidade dos grãos. Será preciso dizer ao leitor que esse atomismo, o dos antigos e dos modernos materialistas, nada tem com a Física corpuscular, onde os corpúsculos, na medida em que são alguma realidade corpórea, continuam a ter matéria e forma como qualquer ser da escala humana? A rigor, e filosoficamente, opõe-se o átomo etimológico e filosófico ao átomo composto e explosivo que assusta o mundo de hoje. Mas não deixa de ser estranho o destino do pensamento que chega a ver no mesmo elemento fundamental a pura potencialidade e ao mesmo tempo o ato puro. Sim, esses grãos indecomponíveis e imutáveis que são o ser potencial de todo o universo seriam, para si mesmos, na sua própria existência inevitável, indiscutível, o ser em ato puro.

Essas considerações um tanto áridas nos levam à conclusão já anunciada em outra conversa. O materialismo, sobretudo o materialismo mecanicista, parecendo ser uma visão mais fácil, uma aproximação mais tranqüila de todas as coisas, é na verdade uma desordenada extravagância que vai encontrar um deus uno e infinitamente múltiplo nos átomos. Ao contrário do que geralmente se pensa — desde que se ultrapasse a linha do grosso bom-senso destorcido, que mais deveríamos chamar mau-senso — cabe o ônus da prova aos que negam a espiritualidade de Deus. As provas positivas, arduamente elaboradas pelo pensamento filosófico, são títulos de nossa nobreza e mais servem para provar a largueza da alma que conhece do que a grandeza do objeto conhecido, porque esse objeto  — alma espiritual, anjo, Deus — já era conhecido, em termos de profundas intuições ou de fé, antes de terem a existência demonstrada. Têm também para nós as demonstrações filosóficas, ou valor próprio de claridade intelectual que confirma as intuições crepusculares. Seja porém como for, se o problema se coloca em termos polêmicos é indiscutível que o ônus da prova cabe aos materialistas. E se não possuíssemos o compêndio de disparates já publicados pela intemperança intelectual de tais pensadores, poderíamos imaginar a estranha aventura do espírito que parte para a cruzada que consiste na sua própria negação. Convém lembrar aqui o grande paradoxo histórico: foi na corrente cientificista e racionalista derivada de Descartes que tomou corpo a doutrina que nega a espiritualidade da alma humana e a filosofia que reduz a pó o filósofo em plena atividade de filosofante: tudo são partículas que se movem ou mudam de posição ou de velocidade. Tudo é pó.

Esta conclusão aparentemente coincide com aquela que a Igreja faz na Quaresma, para lembrar ao homem que é pó e ao pó volverá. Na verdade, porém, o Verbo de Deus só nos lembra nossa miséria para avivar em nós a humildade diante do Senhorio de Deus, e a gloriosa convicção que somos muitíssimo mais do que o pó de nossa carne.    

(O Globo, 19/05/73)


Contra o Evolucionismo dos evolucionistas

 


“Parece-nos indispensável marcar bem a intolerância em relação à Evolução dos evolucionistas, que tira o mais do menos, que faz passar a potência ao ato sem nada que esteja em ato, o que consiste precisamente em ser um processo autocriador que torna sub-repticiamente aceitável a criação “ex-nihilo” sem um Deus Todo Poderoso, desde que essa criação se torne infinitesimal e suficientemente lenta para que as inteligências tardas não percebam o mecanismo do absurdo, e fiquem, de tantos em tantos metros, ou de tantos em tantos séculos, diante de uma situação de fato.
 
É preciso denunciar a absoluta inaceitabilidade do evolucionismo dos racionalistas e dos empiristas”.
 
Gustavo Corção

A Variedade dos Seres
 
Consideremos agora o conjunto da criação, os reinos da natureza, os seres espirituais, visíveis e invisíveis, pois nos resta percorrer os demais degraus que formam a escala ascendente de perfeições nos diversos seres vivos, para tentarmos mostrar que eles são também dispostos em níveis ontológicos irredutíveis. As descontinuidades da criação virão reforçar a impossibilidade metafísica de uma evolução que levaria a ameba a virar peixe, o peixe a virar réptil, este passando a mamífero para chegarmos ao homem.
 
Podemos aqui evocar a idéia de dimensão nascida na geometria e alargada para abranger as entidades físicas mensuráveis. Dizemos que uma entidade tem uma só dimensão quando é expressa por uma só medida, que só tem um modo de ser: assim, por exemplo, o comprimento é unidimensional, a corrente elétrica, medida em ampéres é também unidimensional, enquanto que a área na geometria e a potência (em watts ou outra unidade) na física têm duas dimensões e podem ser realizadas de uma infinidade de modos que são produtos de dois fatores. O produto pode manter-se constante com fatores variáveis: 1x10 = 2x5 = 4x2,5 = 0,1x100 etc. O volume na geometria e o trabalho ou energia na física têm três dimensões. Dois princípios governam a disciplina chamada análise dimensional: o da homogeneidade, pelo qual só podemos equacionar grandezas da mesma natureza e mesma dimensão e o da irredutibilidade, pelo qual uma entidade de “n” dimensões não pode passar para o nível “n+1” por gradativa e continua elevação, embora as entidades de nível mais alto contenham em suas partes entidades de nível mais baixo. Exemplifiquemos: a área de um triângulo pode ser igual à de um pentágono, mas não pode ser sequer comparada ao volume de um tetraedro. Por outro lado, por mais complicada que seja a figura desenhada num plano, jamais terá três dimensões, jamais será volumétrica. Do mesmo modo, jamais passarei de uma entidade volumétrica para uma plana por menor que seja uma das dimensões. É uma idéia falsa dizer, por exemplo, que um paralelepípedo tende para uma superfície (de duas dimensões) quando sua altura ou espessura se tornam muito pequenas. A idéia da continuidade vale em cada nível, mas é falsa quando se estabelece entre níveis irredutíveis. Matematicamente, geometricamente, e enquanto nos mantemos fiéis à abstração própria dessa ciência, não há nenhuma diferença essencial entre um paralelepípedo de um bilionésimo de espessura e um outro de um quilômetro, mesmo porque o matemático não sabe (matematicamente) o que é um milímetro ou um quilômetro; essas unidades pertencem ao mundo físico.
 
E o que se passa com entes matemáticos ocorre também com os físicos; apenas aqui a “dimensão” é uma perfeição nova, uma qualidade específica, ou um nível substancial como o que “mede” o ser corpóreo e o distingue irredutivelmente do ser espiritual.
 
Proponho essa imagem, emigrada do mundo geométrico, por me parecer que a algum leitor ela será sugestiva e impulsionadora; mas devemos deixá-la se quisermos galgar abstrações metafísicas mais elevadas.
 
Consideremos o universo no seu quadro atual, e percorramos os vários níveis com os recursos que a ciência atual nos proporciona, e com os critérios e princípios que temos da filosofia perene. Eis o quadro de gradativas dimensões das coisas que compõem o universo criado:

DEUS
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Forma Espiritual                                             =                 Anjos
M + Forma (vida + sensibilidade + razão)            =                 Homem
M + Forma (vida + sensibilidade)                       =                 Animal
M + Forma (vida)                                           =                 Vegetal
Matéria + Forma                                            =                 Inanimado
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M = Matéria Prima

Antes de mais nada convém lembrar que as sucessivas perfeições, de baixo para cima, se acrescentam à forma compondo uma nova forma. Nossa representação algébrica não deve ser tomada ao pé da letra.
 
A dupla barra superior separa absolutamente o criado do Incriado: esta descontinuidade máxima é a transcendência de Deus e a infinita superioridade do Ser Necessário sobre o contingente, do Incausado sobre o causado, do Imutável sobre o móvel. A criação, abaixo da dupla barra superior está submetida, em todos os patamares, a Deus Causa Primeira criadora e sustentadora de todos os seres visíveis e invisíveis.
 
Abaixo da dupla barra inferior está a “matéria prima”, em sentido aristotélico. Não é um ser, mas princípio potencial de todos os seres corpóreos que só emergem na existência sob alguma determinação ou “forma”.
 
Entre as duas barras arrumam-se os diversos degraus de seres criados que compõem os reinos da natureza. É fácil constatar que cada degrau se distingue do outro por um acréscimo de perfeição. Porém, antes de aproximarmos nossa lupa de cada reino para examinarmos de perto o comportamento de seus habitantes, acrescentemos aqui algumas considerações sobre a diversidade dos seres.
 
O problema que armamos neste tópico, como o da origem do universo, não encontrará jamais na ciência, e mesmo na filosofia, uma resposta adequada. Temos de buscar outro grau de saber, que aliás é o que norteia todo este capítulo. E este grau de saber mais alto não depende, senão “per accidens”, das pesquisas e das descobertas científicas. Não é de admirar, então, que consultemos Santo Tomás, como já consultamos Santo Agostinho, que tem dobrada antiguidade.
 
Santo Tomás: “A multidão das coisas e sua variedade vêm de Deus? Os filósofos atribuíram a diversas causas a distinção dos seres. Atribuem-na uns à matéria, isolada ou associada a um agente. Demócrito e todos os antigos filósofos da natureza não admitiam outra causa além da material. No dizer deles, a distinção dos seres era fortuita e provinha do movimento da matéria.” (Ia/47/1).
 
Como se vê, o probabilismo e a civilização do acaso são antigos como o mundo. Anaxágoras, que Aristóteles dizia ser um único sóbrio andando no meio de embriagados, exigiu uma Inteligência que tivesse a função de filtrar, selecionar o que a matéria produzisse. A “Inteligência” de Anaxágoras quer ter função análoga à do demônio de Maxwell, que conseguia, graças a uma filtragem de moléculas lentas, desmentir a irreversibilidade térmica. Ouçamos o que diz Santo Tomás a respeito da idéia de Anaxágoras:
 
Santo Tomás: “... mas isso não se pode sustentar, por duas razões. Primeiro porque já provamos que a própria matéria foi criada por Deus, e por conseqüência, se alguma distinção vem da matéria, mesmo assim deve ser referida a uma causa mais alta. E segundo porque a matéria é ordenada para a forma, e não inversamente, e como a distinção das coisas se faz pelas formas que lhe são próprias, essa distinção não se pode explicar pela matéria; ao contrário, é preciso dizer que as disposições variadas foram criadas na matéria a fim de que ela possa receber formas diversas.”
 
“Outros atribuíram a distinção das coisas a agentes secundários. Para Avicena, por exemplo, Deus, tomando consciência de si mesmo, produziu a Inteligência Primeira que, pelo próprio fato de não ser sua existência, é necessariamente composta de potência e ato, como se verá adiante. Essa primeira inteligência, na medida que conhece a Causa Primeira, produz a Inteligência Segunda; e na medida em que ela se conhece a si mesma como estando em potência, produz o corpo do céu, causa do movimento, e na medida em que se conhece em ato, produz a alma do céu”.
 
Mas isto não se pode sustentar, por duas razões. Primeiro, nós vimos que só Deus pode criar, e por conseguinte só pode ter Deus por autor o que se produz por via de criação. É o caso dos seres estranhos à geração e à corrupção [1]. Além disso, em tal hipótese, a universalidade dos seres não proviria de uma intenção do primeiro Agente, mas do concurso duma pluralidade de causas agentes, e é isto que dizemos vir do acaso. Concluiríamos assim que a perfeição do universo, que se funda na diversidade de seres, seria fruto do acaso, o que é impossível”.
 
“É preciso então, dizer que a distinção das coisas e sua multidão provêm da intenção do primeiro agente, que é Deus. Deus deu ser às coisas por sua bondade, que ele quer nelas comunicar e representar. Já que uma só criatura não bastava, produziu múltiplas e diversas, a fim de que o que falta a uma para representar a divina bondade seja por outra suprida. Assim, a bondade que em Deus é simples e uma, nas criaturas é múltipla e fracionada. De tal sorte que o universo inteiro participa e representa a bondade divina mais perfeitamente do que uma só criatura. E é por isso, por ser a distinção das coisas causada pela sabedoria divina, que Moisés atribui ao Verbo de Deus, concepção de sua Sabedoria. Lê-se no capítulo I do Gênesis: “Deus disse: que a luz seja. E Ele separou a luz das trevas”. (idem)
 
A variedade das coisas criadas é assim o reflexo que a criatura pode proporcionar da simplicidade de Deus. E esse reflexo não surgiu, digamos assim, por via de conseqüência, como se dos próprios seres nascesse tal virtude. Como Santo Tomás assinala, essa diversidade e esse modo de chamar a si esta criação, que por assim dizer Ele projeta longe de si, estavam na intenção do primeiro Agente.

Ainda o Primeiro Degrau
 
Poderíamos, para maior clareza, agrupar os diversos seres do primeiro degrau de nossa escala no que chamaríamos de quadros de dispersão por caracterizarem eles a crescente possibilidade de os elementos naturais se combinarem entre si.
 
No primeiro quadro de dispersão encontramos os elementos químicos: hidrogênio, hélio, lítio, boro, centúrio... Sabemos que são mais de cem os elementos conhecidos e que diferem entre si pelo número crescente dos elétrons e dos equivalente prótons nucleares, ou seja, pela diferença de peso atômico principalmente. Varia neles a quantidade: estado físico, aspecto, cor, densidade, gosto, cheiro, e principalmente varia o comportamento das substâncias ao longo da escala dos pesos atômicos. Os diversos elementos terão maior ou menor capacidade combinatória segundo o estado de sua última órbita de elétrons. Assim, o hidrogênio tem uma capacidade de combinações só menor que a do carbono. Ele perfaz mais de 90% da massa total do universo. Ao contrário, o hélio é raro e refratário, com sua órbita ocupada por dois elétrons enquanto o hidrogênio só tem um.
 
Acrescentemos um elétron e o correlato próton e encontraremos no lítio um metal de extrema leveza e com grande facilidade em se oxidar. Já o Néon, tendo preenchido a segundo órbita, que no lítio é incompleta, será um gás inerte e fechado sobre si mesmo.
 
Pulemos até o carbono, com quatro elétrons na sua camada exterior. Sua disposição combinatória é incomparável. Para dar uma pequena idéia de tal sociabilidade química, basta lembrar que o lítio, o berílio e o flúor só formam combinação com átomos de hidrogênio. O oxigênio tem dois compostos, o boro e o nitrogênio têm sete. O carbono tem mais de dois mil compostos com o hidrogênio.
 
Nosso primeiro quadro de dispersão abre-se assim, como um leque que acrescenta uma coleção progressiva na razão aproximada de 1 para 100.
 
Todos nós sabemos que na realidade os corpos físicos das substâncias simples não são formados de átomos isolados e sim de átomos agrupados em moléculas, que assim constituem a menor porção do corpo dotada da mesma composição, ou seja, de átomos iguais.
 
O segundo quadro de dispersão será formado pelas combinações, isto é, pelas substâncias resultantes das trocas recíprocas dos átomos das diferentes substâncias simples. Este resultado, chamado substância composta, terá sua molécula formada de átomos desiguais. Assim é que o hidrogênio e oxigênio formam a água; o cloro combinado com o sódio forma o sal de cozinha. E daqui por diante o leitor facilmente imaginará a variedade possível de combinações. Não contando os compostos de Carbono que merecem um quadro à parte, passam de dez mil os compostos possíveis e aqui temos neste segundo quadro, a razão de 100 para mil.
 
O quadro de compostos até aqui considerados pertence à categoria das chamadas substâncias inorgânicas. A partir da síntese da uréia, realizada em 1828 pelo químico alemão Wohler, a chamada química orgânica alcançou avanços espantosos. Este feito, realizado pela reação térmica de uma substância inorgância, o cianato de amônia, e sobretudo os trabalhos de Liebig e Berthelot levaram o número de compostos orgânicos conhecidos a mais de um milhão. É o terceiro quadro de dispersão. Não somente constatamos aqui a grande facilidade e diversidade de combinações dos compostos orgânicos, como também admiramos a complexidade dos imensos edifícios moleculares com milhares de átomos, perto dos quais a molécula de cloreto de sódio faria figura de um tijolo ao lado do Empire State Building.
 
Já o quarto e último quadro de dispersão dos seres inanimados será formado pelas misturas várias de todas as substâncias homogêneas em várias proporções. É o caso das amostragens brutas da natureza. Um punhado de terra, um seixo, um graveto, uma pétala de rosa realizam um prodígio de mistura de substâncias diversas. Se nos laboratórios encontram-se substâncias de apurada homogeneidade, cá fora o regime é o da mistura, ou melhor, é dos aglomerados, com formas acidentais e resultantes de cruzamentos acidentais nos itinerários das coisas. Os geólogos procuram nas rochas certos elementos que as caracterizem, que as diferenciem, que as “especifiquem” a seu modo, mas uma rocha não passa de um amontoado sem regra, ou com umas poucas regras que só funcionam depois do encontro acidental.
 
E o planeta inteiro, e o sol e as galáxias outra coisa não são. E aqui neste quarto quadro de variedades e dispersões falta-nos o critério, escapa-nos o cálculo, e o leque dos seres se abre numa prodigiosa variedade. Como passar daí para o degrau seguinte?
 
Ora, o degrau seguinte é o ser vivo vegetal, ou seja, dotado já de uma perfeição ontológica inexplicável. Já vimos que essa perfeição ontológica faz do ser vivo um ser uno. Vimos que esta unidade formal segue um curso oposto ao da matéria inerte, que tem tendência a se desagregar, a se decompor. É a lei da entropia crescente. Vemos agora por esses quadros de dispersão, que um novo abismo separa o não vivo do vegetal. Aquele se dispersa, se combina, varia, mistura-se. Este é uno, fecha-se, se preserva, é sempre o mesmo. Mas na verdade há um só abismo nesta descontinuidade da criação. O que fizemos foi apenas iluminá-lo sob dois ângulos diferentes. Primeiro, quanto à tendência energética de cada elemento em si mesmo. Agora, quanto às interações destes mesmos elementos com vizinhos: sua sociabilidade. E se quisermos arrematar esta descontinuidade e fechar este tópico devemos concluir de novo que só uma causa rica da nova perfeição seria capaz de atravessar o abismo. Só um ser possuindo a vida por excelência poderia comunicar à matéria uma tal ruptura com suas tendências inatas.

Operatio Sequitur Esse
 
Em termos de probabilidade, o ser vivo é um escândalo. Se quiséssemos calcular suas chances a partir da idéia do puro acaso, chegaríamos a números completamente loucos. Lecomte de Nouy, reagindo contra a filosofia do probabilismo, e valendo-se de cálculos feitos por C. E. Guye “Les Frontières de la Physique et de la Biologie”, Ed. Hermann et Cie. mostra que uma simples molécula de proteína, dotada de um grau de asimetria igual a 0,9 e constituída (para simplificar os cálculos) de 2.000 átomos de duas espécies, tem uma probabilidade de surgir, por acaso, espantosamente pequena.
 
Lecomte de Nouy — “Com efeito, se supomos quinhentos trilhões de jogadas por segundos — o que corresponde à ordem das periodicidades luminosas — acha-se que o tempo necessário para que se forme, em média, uma molécula semelhante de dissemetria igual a 0,9 num volume material igual ao do globo terrestre, é de cerca de 10243 anos. Lembremos que a idade da Terra, a partir do começo de seu resfriamento, é certamente inferior 2x109 anos, e observemos que este “acidente” teve de ocorrer forçosamente no primeiro bilhão de anos, pois tudo indica que a vida existe no globo há mais de um bilhão de anos” (“L’Homme Devant la Science”, Flammarion, 1956, pg. 137 ss).
 
Neste ponto da discussão tudo é favorável para o defensor do criacionismo; e tudo parece extremamente desfavorável aos materialistas que queriam ser rigorosamente coerentes. O rendimento apologético que se pode tirar desses números de fantásticas improbabilidades de coisas que todavia nasceram e estão diante de nós, sem falar no que está dentro de nós, é tão grande que deveria despertar desconfiança. Pobre quando vê muita esmola desconfia... E na verdade, nós somos pobres na visão das coisas espirituais, e paupérrimos na evidência de Deus. É bem verdade que desde o nível do senso comum o homem sempre teve a crença teísta; mas é também verdade que a demonstração cabal da existência de Deus constitui o mais alto e difícil problema metafísico. A maior parte dos pensadores e filósofos de outras escolas não hesita em negar valor apodítico às famosas Cinco Vias de São Tomás, e por aí se vê que, ressalva feita da certeza sobrenatural da Fé, nós somos efetivamente míopes, quase cegos para as coisas espirituais.
 
Nossos “olhos de coruja”, como já dizia Aristóteles, são proporcionados para a meia luz, ou para a penumbra do fenômeno sensível. Em termos filosóficos, o objeto conatural da inteligência humana é o inteligível das coisas sensíveis. E é por isto, torno a dizer, que devemos desconfiar da apologética clara e convincente demais.
 
No caso vertente Lecomte de Nouy reage contra o materialismo probabilístico, com argumentos do materialismo probabilístico. Seu raciocínio será bom “ad hominem”, mas não é bom em si mesmo, e sobretudo não é bom para deixar, como única e última reserva para o problema da origem da vida, o milagre puro, a criação sem nenhum contexto do universo já criado. Em outras palavras, a argumentação probabilística nos acua num criacionismo maravilhosamente incoerente nas partes.
 
Jules Charles, no seu excelente opúsculo da coleção “Que sais-je” que citamos atrás, viu muito bem o defeito das “simplificações” dos cálculos de Guye, usados por Nouy:
 
Jules Charles — “Nós pensamos que esta conclusão, a impossibilidade do surgimento da vida por acaso, é exata; mas temos o direito e até o dever de perguntar se essas bolas pretas e brancas podem ser comparadas aos átomos. É preciso não esquecer que os átomos têm valências desiguais e nunca passam indiferentes perto dos outros” (op. cit. Pg. 69).
 
Mais exatamente, o que os físicos costumam esquecer mais depressa do que os químicos, e o que Lecomte de Nouy também esqueceu para rebater os físicos com suas próprias armas, não é apenas a “valência”, não é a maior ou menor “stickness” desta ou daquela molécula, é a forma, princípio de operação dos átomos, das moléculas, e de todos os seres corpóreos em todas as escalas.
 
Nas experiências das duas câmaras de gases com uma comunicação, onde a probabilidade de assimetria é praticamente infinita, ainda podemos comparar as moléculas rápidas e lentas, as bolas brancas e pretas em agitação absolutamente aleatória; mas aí mesmo é preciso ter consciência da quase abstração, do esquecimento-limite em que se tem a forma, a natureza e as inclinações dos átomos.
 
“Operatio sequitur esse”. O ser opera segundo sua natureza ou segundo sua forma, já que no composto corpóreo é na forma que se encontra o princípio de sua operação. Por onde se vê que todo o monismo materialista, que está subjacente à filosofia da natureza dos cientistas modernos, é uma escamoteação semiconsciente, ou uma “tricherie” do mal. O jogo das bolas brancas e pretas em regime de pura “randomness” é um ente de razão, ou um jogo de espírito, que corresponde ao mais profundo mergulho que a inteligência pode fazer na direção da matéria. Ou é um modelo limite sem correspondência ontológica com o real.
 
No mundo real, em qualquer milímetro cúbico de espaço do universo, o que temos sempre é uma composição de acasos e necessidades: as coisas operam segundo suas inclinações, e nesta linha percorrem itinerários de causalidade; mas também as coisas se cruzam, se interceptam, se chocam, se magoam, sem que tais intercessões das linhas de causalidade sejam exigidas por esta ou aquela natureza. É conhecido o exemplo que dá Aristóteles: um homem que morava perto de um rio e de uma estrada come comida salgada, esgotando a provisão de água, vai se abastecer no rio; uma quadrilha de salteadores que passava, mata-o para roubar-lhe as roupas e os utensílios. Será lícito dizer que o sal da comida foi a causa da morte? Há lineamento de causa e efeito entre o sal e a sede, entre a sede e o ato de ir ao rio; há linha causal entre o ato de os salteadores verem o homem e de o matarem; há linha de causalidade entre a facada e a morte. E assim por diante. Mas cada uma destas linhas de leis necessárias se cruza com outras, estando tal cruzamento desligado de ambas, como cruzamento e como efeito. A imagem da intercessão é fraca, porque duas linhas que se cruzam têm um ponto comum. No caso das linhas de causalidade o ponto de encontro não pertence, como tal, a nenhuma das linhas. É um acaso que só terá causa na Causa Primeira; mas é preciso acrescentar que, a partir desse acaso, novas linhas de causalidade se articulam na rede geral.
 
Todo o universo é uma trama urdida de necessidades e de acasos, ou de natureza e aventura como diz Maritain. A tentativa de isolar uma das faces do real contingente será sempre malograda. Na história da Ciência moderna começou-se por pretender totalizar leis necessárias, e a Astronomia, ou mais precisamente a Mecânica Celeste, foi o ponto alto, o modelo excelente de tal epistemologia; hoje é a Física corpuscular, a micro-astronomia que nos pretende inculcar um modelo de universo feito somente de acasos.
 
Não acredito que um físico como Boltzmann, Born, Heisenberg, pensem realmente que a realidade cósmica seja essencialmente estatística. Parece-me antes que a atitude mental desses físicos é a de uma renúncia de real realismo. Contentam-se com o jogo remunerador, e vingam-se do senso comum com os resultados espetaculares da técnica.

Tomemos um exemplo de operação ou valência que invalida uma supercósmica improbabilidade. Uma das modernas hipóteses cosmogônicas sugere a explicação da formação dos astros e dos planetas pela condensação da poeira cósmica. Imaginemos o espaço imenso de uma nuvem de poeira cósmica. Se admitirmos que os grãos de poeira se movem desordenadametne, sem nenhuma lei, concluiríamos que a probabilidade de uma assimetria apreciável e fecunda seria desprezível. Quando porém se considera a nuvem de poeira na sua realidade física, somos forçados a admitir algumas decorrências dessa realidade, sem o que estaremos manipulando entes de razão. O primeiro dado que se impõe é a existência da massa, isto é, da capacidade operacional que tem cada grão e que se traduz num campo de gravitação. O menor desequilíbrio que se processar na suposta assimetria igual a 0,5 ou na suposta uniformidade da distribuição de grãos, resultará numa zona de maior densidade. A zona de maior densidade passará a ser imediatamente um centro de atrativos para os grãos de pó vadios, e então a assimetria crescerá provavelmente segundo uma lei parabólica, isto é, crescerá aceleradamente podendo outro episódio da “entourage” interromper ou ajudar o processo de concentração. Verifica-se assim no espaço cósmico a mesma coisa que se verifica no campo econômico: as regiões pobres tendem a ficar mais pobres, as regiões mais concentradas tendem a se tornar mais concentradas. E isto acontece porque as partículas em jogo não são neutras, não são puramente passivas, mas operam segundo a forma que têm. “Operatio sequitur esse”.

Não há efeito sem causa
 
Não temos uma objeção principal de ordem probabilística a opor aos cientistas que emendam hipóteses em hipóteses com o intuito de mostrar um progresso de crescente multiplicação de formas; não nos opomos à sopa quente progressivamente engrossada dos oceanos da Terra primitiva; nem mesmo nos escandalizamos com o facilitário um pouco excessivo oferecido às moléculas de proteína. Tudo pode ter acontecido aproximadamente como sugerem Prenant, Haldane, Oparin.
 
Note bem o leitor que não nos apegamos demais ao “milagre da improbabilidade” do ser vivo; nem tiramos as subseqüentes reflexões daqueles números que ultrapassam em espaço e tempo as dimensões de um milhão de universos armados, a partir do nosso, em progressão geometria igual à relação entre U1 e o átomo de hidrogênio. Devemos notar de passagem, que a improbabilidade de uma molécula de proteína não é mais espantosamente grande do que a improbabilidade de um próton, ou de um nêutron. Sejam o que forem estas partículas, se existem de algum modo, existem com matéria e forma, e se tentássemos explicar a forma como um acontecimento estatístico surgido de assimetrias dos componentes do corpúsculo, ou melhor, se tentássemos explicar o surgimento da forma pelo lado da matéria, chegaríamos aos mesmos números fantásticos que só significam uma coisa: a pista errada que seguimos.
 
Acabamos de fazer um jogo muito franco, quando poderíamos ficar no deleite da perplexidade dos materialistas. De certo modo vimos em socorro dos probabilistas: não será tão grande assim a improbabilidade das moléculas de proteína ou melhor, não é legítimo calculá-la com aquela simplificação que é uma indevida abstração. Será possível ter idéia da ordem de grandeza de tal improbabilidade? Receio muito que seja impraticável.
 
Mas torno a dizer que não faço nenhuma questão de regatear improbabilidades. Se em lugar de 10-321 chegarmos a uma improbabilidade um trilhão de vezes maior, teríamos 10-309, que está muitíssimo longe de nos consolar. Mas não é nesta direção que contamos confundir definitivamente o pensamento materialista neste problema; é noutra direção, e é com recursos muito mais decisivos, mas também muito mais finos que contamos mostrar que é verdadeiramente milagrosa a aparição da vida no planeta.
 
O que falta de um modo alarmante em toda aquela descrição, mesmo hipotética, da origem da vida, é a noção mais justa e mais profunda de causa. Os cientistas que muito meritoriamente se esfalfam em pesquisar o que terá acontecido na Terra há três ou quatro bilhões de anos, e conseguem organizar uma engenhosa concatenação de hipóteses, de verosimilhança aqui e ali apoiada em alguma experiência famosa, não parecem perceber um equívoco filosófico colossal: eles estão procurando entender a ocorrência feliz de vários fatores que convergem todos para as circunstâncias favoráveis, para a “conditio sine qua non”; e de repente, sem dizer água vai, eles dão um pulo infinito, sim, o pulo que separa as condições favoráveis, ou até as condições indispensáveis, da causa eficiente capaz de produzir a forma em questão.
 
Senão vejamos. Achamos uma razão para o planeta ter tido uma atmosfera de hidrogênio, vapor d’água, metano e amônia, à semelhança da atual de Júpiter, já que a atmosfera de oxigênio e azoto seria mortal para a formação dos depósitos prévios de proteína; achamos relâmpagos e raios que o cientista Miller mui engenhosamente reproduz no seu laboratório, e com os quais se precipitam nos mares primitivos as primeiras moléculas do grupo dos aminoácidos; engendramos hipóteses para passar do aminoácido para a proteína mil vezes mais complexa; e depois disto inventamos (agora o russo Oparim) a hipótese dos coacervados, que são coágulos ou condensações de matéria orgânica já delimitada, já dotada de unidade quantitativa. E daí pulamos a infinita distância que separa esse aglomerado de um ser misteriosamente, majestosamente centrado numa nova unidade, numa totalidade, numa inaudita perfeição até aqui desconhecida no universo físico.
 
Esse salto que parte da condição, ou até da causa material, para dar a razão de ser de uma forma é uma cambalhota cômica freqüentemente apresentada no circo da cultura moderna. Imaginemos um viajante que, visitando as regiões polares, encontrasse lá um iglu, e lá dentro vestígios de peixe e de fogo, além de outros objetos. Como explicaria ele, com o método materialista, aquela construção? Muito simplesmente pela matéria de que é feita, e que não falta nas cercanias. O gelo, o vento, as chuvas, a rotação da Terra, e mais dez ou doze fenômenos explicam o iglu sem necessidade de lembrar o esquimó. Creio que seria um pouco mais difícil explicar a catedral de Chartres pela existência de pedra a distâncias acessíveis. A natureza, ou se quiserem, a Natureza é mestra em fazer amontoados com formas bizarras. A nossa Guanabara é protegida por um gigante de pedra, que tem o nariz e queixo perto do Andaraí e pés na entrada da barra. Mil fenômenos convergiram nessa “forma acidental”.
 
O coacervado de Oparin, por mais engenhoso que seja, pertence à ordem dos amontoados, mais múltiplo do que uno; ora, o ser vivo é mais do que um múltiplo.
 
Sim, a pesquisa do primeiro vivo foi feita, nessa linha de hipóteses que chega ao coacervado de Oparin, na direção de uma reunião de matéria de complexidade crescente; diríamos, como adiante repetiremos, que a pesquisa foi feita na direção da complexidade, ou então, na direção de uma dispersão de elementos quando muito trazidos para uma unidade de volume. Temos ali, protegidos por películas de matéria coloidal, todos os ingredientes da vida.
 
Mas a vida nos traz uma perfeição nova que nenhum daqueles ingredientes possui; não apenas uma qualidade nova, mas um nível de ser jamais antes realizado. O ser vivo é um todo em que cada parte está interessada na perfeição do todo; o ser vivo é complexo, sem dúvida, é riquíssimo de elementos, mas só é vivo enquanto é capaz de manter uma atividade imanente que assegure a vitória da unidade sobre a diversidade. Se nos permitem, diríamos que antes mesmo de possuir a ciência sensível, ainda no vegetal cego, surdo e insensível, antes portanto da ciência, o ser vivo inaugura um modo de ser que se caracteriza por uma consciência de si. Ora, esta perfeição é nova, surpreendentemente nova. É descontínua e irredutível. Cabe pois a indagação: De onde veio?  A idéia de que surgiu por gradação muito lenta não explica coisa nenhuma, já que não é uma complexidade, uma soma que nos espanta, é uma unidade que, para ser feita, exige uma descontinuidade, e portanto uma ação instantânea.
 
Se eu chegar ao delírio de querer fazer um gato, e no delírio mantiver intacto um mínimo de bom senso, afastarei resolutamente a idéia de fazer o meu gato aos poucos; terei de me entregar ao desatino de querer fazê-lo de uma só vez.
 
De onde vem a perfeição nova do ser vivo? A resposta trivial que os livros dão é que veio do encontro feliz de vários fatores e da lenta elaboração desse encontro. O leitor inteligente perceberá que minha pergunta não foi respondida. Responderam-me, sim, que o ser vivo se originou dentro de tais e quais circunstâncias pelo encontro feliz de vários e numerosos fatores; mas não me disseram de onde vem a “perfeição nova” do ser vivo, ou de onde lhe foi comunicado esse novo modo de ser.
 
Vejam bem: o ser vivo, que a experiência abundantemente nos proporciona, é o modelo excelente de causalidade com todas as grandes exigências de tal convicção: só o ser vivo produz o ser vivo. Ainda mais, dentro de pequenas flutuações genéticas, que serão talvez as gradações que explicam as lentas transformações da espécie, a geração de vivo por vivo se enquadra dentro dos limites da espécie: só um cão gera outro cão, só um homem gera um homem. E ainda mais, dentro dos quadros da espécie, como a ciência moderna nos revela, há ainda uma transmissão de forma mais estrita: o código genético pelo qual, por assim dizer, o pai transmite ao filho, como primeira lição, o modo de estruturar suas proteínas.
 
A vida aparece assim como o domínio exuberante da causalidade eficiente e da causalidade formal. E ainda não falamos da causa final, na perigosíssima idéia que o materialista terá de evitar cuidadosamente para não encontrar algum ser transcendente na curva do caminho.
 
Como tão bem assinala Dominique Dubarle O.P., a noção do saber, isto é, do conhecimento ordenado e mais alto do que o conhecimento espontâneo do senso comum, está mais diretamente ligado à idéia da causalidade: o saber é um conhecimento pelas causas, e mais precisamente pela causa adequada. Em Aristóteles, II Phys, cap. 3, 194b, 18-20 lemos: “Nós não cremos saber algo antes de haver apreendido o porque de cada coisa em detalhe, o que é, a bem dizer, o mesmo que conhecer a causa adequada”. É o próprio dominicano acima referido que traduz o grego την πρώτηυ αιιαυ por “causa adequada”.
 
Em cada nível do saber impera, por assim dizer, uma causa adequada. Na matemática tudo se reduz à causalidade formal: os seres de razão são concebidos como puras formas despojadas da materialidade mas não despojadas da categoria quantitativa que só tem existência extramental nos seres materiais. Como já assinalamos em outros lugares, a matemática, sobretudo em suas formas mais modernas, tem duas faces, uma que corresponde à clássica definição da ciência do “ens quantum”, e outra que mais se configura como linguagem, lógica de símbolos esvaziados de sua procedência genética por via de abstração.
 
Nas ciências físicas predomina ainda a causa formal na medida em que ela se matematiza; não apenas como quem usa o funcionamento matemático, mas como quem inverte seus critérios. A física matemática dos tempos modernos constitui uma realização epistemológica desconhecida dos antigos. É tão profunda a assimilação da alma matemática da física-matemática moderna que tornou possível a descoberta de um ente físico-matemático, o positron, um elétron positivo, por meios matemáticos. A descoberta de Dirac é, nesse sentido especial que aqui abordamos, profundamente diferente da famosa descoberta de Netuno por Le Verrier.
 
É bem verdade que Le Verrier não saiu de seu escritório e não chegou a colar o olho à ocular de um telescópio; descobriu Netuno pelo cálculo, mas por um cálculo de perturbações físicas observadas na órbita de Urano. A descoberta de Dirac foi puramente matemática, e só posteriormente traduzida em conveniência física.
 
Nas ciências físicas propriamente ditas impera a idéia de movimento, de devenir, de transformação, e por conseguinte impera, queiram ou não queiram seus praticantes, a idéia de causa eficiente. Nas ciências da vida, enquanto atendemos mais às transformações, ou enquanto não vemos o ser vivo em todo o seu fulgor, ainda predomina a causa adequada produtiva, geradora; mas logo emerge com singular realce a majestosa causa final.
 
Metafisicamente, sabemos que “tudo o que age, age em vista de um fim”. Mas o mundo físico inanimado é por demais obscuro em seus processos para o discernimento da finalidade. O espetáculo do universo físico, dos átomos às galáxias, nos parece desprovido de propósito. Ordenado será, se quiserem, seus mecanismos de órbitas, massas, valências, mas ordenado para que? A fenomenologia no nível do ser inanimado obscurece a idéia de causa e obscurece especialmente a causa final.
 
No ser vivo, ao contrário, além da causa eficiente de que falamos atrás, surge a causa final. E de dois modos se vê o finalismo, a presença do “para que” no ser vivo.
 
Primeiro assinalaríamos o finalismo funcional que explica os órgãos à maneira que explicamos os artefatos. Garrigou-Lagrange O.P. (Le Sens Comum, La Philosophie et l’étre; Desclée, Paris) pergunta ao senso comum: Para que temos olhos? E o senso comum lhe responde: Para ver. E aqui o verdadeiro e elaborado saber, que é o conhecimento pelas causas, confirma rigorosamente o que diz o senso comum, obrigando o afinalista a esta bisonha sentença: Não. Nós não temos olhos para ver, nós vemos porque temos olhos.
 
Prefiro exemplificar com o ouvido que nos proporciona um maravilhoso exemplo de finalidade funcional.
 
Na audição do homem e dos animais superiores há um pequeno problema de engenharia e outro de tecnologia. Por uma razão que diríamos tecnológica, a parte interna do ouvido, chamada órgão de Corti recebe as vibrações do som em meio líquido. A energia sonora tem de passar do meio aéreo para o meio líquido; e para realizar essa transmissão com o máximo de rendimento, a energia tem de ser configurada com outra impedância. Expliquemo-nos: a energia da vibração é um produto de força F por velocidade V, mas o mesmo produto, e portanto a mesma energia pode ser realizada com uma infinidade de fatores diferentes. Suponhamos que a energia de 10 unidade seja o produto F x V; é claro que podemos ter F=1 e V=10, F=2 e V=5, ou até F= 1.000 e V= 0,01. Todos os produtos são iguais. Chama-se impedância acústica, em cada caso, a relação F/V.
 
A experiência acústica mostra que a impedância do ar é muito menor do que a do líquido do ouvido interno. Digamos que seja 100 vezes menor, de onde se segue que a força F deve ser 10 vezes maior e a velocidade V 10 vezes menor, para que a boa transmissão de energia do meio externo para o ouvido interno. E como poderemos realizar praticamente esse ajuste de forças e velocidades, ou melhor, esse ajuste de impedância?
 
Qualquer estudante de física responderá: com uma alavanca calculada com aquela redução de velocidade 10:1 e aumento de força 1:10. Ora, é exatamente essa alavanca que encontramos no ouvido médio.
 
Poderá alguém mostrar razoavelmente o conteúdo inteligível de tal fato, deixando-o explicado por uma série de acasos filtrados pela sobrevivência do mais apto?
 
Mas não é só nessas finalidades de instrumentos que se vê, como acima dissemos, o fulgor da causa final. A principal feição do ser vivo, como atrás dissemos, é a inteireza, a unidade que se traduz numa espécie de consciência vital, análoga inferior da consciência racional. O ser vivo tem em sua imanência, em todas as suas atividades, uma experiência de si mesmo que se traduz imediatamente num comportamento de defesa orgânica (e num correlato comportamento de agressão) que pode ser visto como uma inclinação, uma procura veemente de seu próprio bem. Ora, esse bem próprio, esse bem intrínseco que movimenta todo um feérico processo de defesas, de astúcias, de táticas, tem evidentemente caráter de fim.
 
Creio que foi Gustave Thibon quem disse que o homem é um ser que se valoriza. Podemos estender a definição até a ameba: o ser vivo se valoriza com essa consciência vital, na proporção em que o homem se valorizará com a consciência racional.
 
Acho melhor dizer que o ser vivo é o que se finaliza de um modo ostensivo e fulgurante, e nisto ele se separa infinitamente do inanimado.
 
São conhecidas as perfeições com que os vivos defendem a integridade do indivíduo e a bandeira genética da espécie que poderia ter, contra um fundo azul celeste, o emblema de cromossomos, e de moléculas de proteínas. A “inteligência” das flores, descontado todo o entusiasmo apologético de Maeterlinck, ainda é bastante para nos espantar. De onde vem a astúcia da planta que fabricou cápsulas de petardos que explodem arremessando o mais longe possível as sementes? De onde a idéia de prender a semente a um paraquedas para deixar que o vento a leve, “menina e moça a longes terras...”
 
Um dos recursos de que se vale instintivamente o materialismo é o de deslocar a aptidão para a espécie, ou melhor, para o Gênio da Espécie, e assim, pela porta da mitologia foge-se à teologia que já começa a se impor.

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 Notas

[*] Os fragmentos aqui apresentados não estão em sua ordem original. Diante da impossibilidade de reproduzir aqui o livro integralmente, nos vimos obrigados, por razões didáticas, a adotar esta disposição da argumentação. 

Fonte: Permanência


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