Se as canonizações são sempre infalíveis
Feito por: Jordan de Tomás, T.O.P
Ad primum sic proceditur. Parece que toda canonização da parte da igreja seja infalível, pois, segundo Santo Tomás (III Sent., dist. 25, q. 1, a. 1), “honrar os Santos é uma profissão de fé”, e não parece conveniente que a igreja erre em matéria de fé. Logo, toda canonização pareceria infalível.
Sed contra, consta que, nos primeiros séculos, certos homens foram honrados como Santos, cuja doutrina mais tarde se reconheceu duvidosa ou mesmo errônea, como o caso de Clemente de Alexandria. Ademais, a igreja mesma, com o amadurecimento do seu juízo, cessou o culto de tais homens, o que não se coaduna com um juízo absolutamente infalível.
Respondeo dicendum quod, a infalibilidade da igreja, enquanto assistida pelo Espírito Santo, estende-se formalmente àquelas proposições que pertencem ao seu objeto primário, a saber: as Verdades Reveladas por Deus e propostas como tais pela igreja, bem como aquelas que são necessariamente conexas com elas (objeto secundário), de modo que sem estas não se pode guardar íntegro o depósito da fé.
Ora, a canonização de um santo, enquanto proclama que determinada alma se encontra em glória e pode ser venerada com culto público, pertence ao juízo prudencial da igreja, fundado em sinais exteriores — como as virtudes heróicas, a ortodoxia doutrinal e os milagres — e, por conseguinte, só participa da infalibilidade de modo derivado, ou seja, enquanto se funda em princípios infalíveis, bem aplicados ao caso concreto.
Donde se conclui que a infalibilidade em matéria de canonização não é absoluta, mas acidental, id est, deriva da devida observância das condições necessárias ao juízo infalível: exame minucioso da vida e doutrina do fiel, comprovação de virtudes heróicas, ausência de heresias ou doutrina duvidosa, sinais miraculosos confirmados com rigor.
Se, porém, tais condições não são integralmente satisfeitas — seja por negligência, por critérios teológicos pouco firmes, ou por contaminação modernista nos processos — então não há certeza moral suficiente para afirmar que esse juízo de canonização participa da infalibilidade da igreja.
Por isso, Santo Tomás mesmo, na citação tantas vezes recortada pelos modernistas (Quodl.IX, a.16), diz que ”piedosamente se deve crer”, mas não afirma que se deve crer de fé divina e católica, como se fosse verdade revelada. Isto mostra que não se trata de uma definição dogmática, senão de um juízo prudencial elevado, ao qual se deve reverência, mas que não impõe fé teologal.
Ademais, como a infalibilidade não é propriedade do ato em si, mas da assistência prometida ao exercício legítimo do Magistério em determinadas condições, se estas condições não existem — como, por exemplo, em canonizações influenciadas por critérios sentimentais ou ideológicos, e não estritamente teológicos — não se pode falar propriamente de infalibilidade
Ad primum ergo dicendum quod a honra prestada ao santos é sinal de fé, sim, mas isso exige que aqueles que se honram tenham sido verdadeiramente santos, o que se verifica pelos critérios da igreja em sua Tradição. Quando esses critérios se corrompem ou relativizam, a canonização corre o risco de não se fundar sobre a verdade infalível, mas sobre prudência humana falível.
Ainda gostaria de citar, Dom Óscar Romero, um dos canonizados recentemente pelo Papa Francisco, foi por muito tempo considerado perigoso e controverso pelo próprio Vaticano (informação facilmente encontrável na Internet) e tinha certa relação com a teologia da libertação, além de ser considerado um mártir pela esquerda. Pergunte-se, pois, outra vez: São infalíveis as canonizações?
O catolicismo foi tão invadido de sentimentalismo, por influxo do pentecostalismo, que santidade é hoje assunto de emoção: foi santo porque era muito bom, gostava muito das crianças, etc. Não, meus amigos: para que valha a canonização de uma pessoa, é preciso que esta não tenha tido nenhuma mácula de doutrina, tenha tido virtudes heroicas e caridade (virtude teologal) em alto grau, e tenha sido causa instrumental de milagres. Não transformem, por favor, a vida da Igreja numa novela de televisão.
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